segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

LITERATURA

TELENOVELA MAE DO RIO*
1ª Parte – Telenovela Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
- Mas é claro que você só teve um filho, Rosa. Que diacho de arrumação é essa agora?Quase 18 anos depois, as palavras de Damiana ainda soavam recentes aos ouvidos de Rosa, sempre que se permitia parar um pouco de sua lida diária e contemplar o imenso Rio Amazonas. Observando sua filha Das Dores, já bem crescida e sendo olhada de relance pelos marinheiros, peixeiros e outros habitantes da Vila Maresia, onde moravam, Rosa sentia a brisa do rio misturada com o pitiú de peixes dos mais diversos tipos, que desembarcavam no porto ali próximo. Talvez sua mãe tivesse razão. Talvez tudo não tivesse passado de um sonho ruim, um pesadelo que teimava em voltar à sua mente quando a lua estava mais escura.Rosa lembrava perfeitamente da dor lacinante que sentiu no ventre, quando os nove meses se completaram e ela entrou em trabalho de parto. Estava bem perto de sua casa quando as dores vieram. Gritou pelo pai, Manduca, que tinha saído para pescar. As dores aumentavam, Rosa gritou pela mãe. Damiana veio correndo, a preocupação estampada nos olhos. Rosa lembra o olhar de desespero da mãe e logo mais atrás, como se já estivesse à espera, a parteira Generosa, fumando seu cachimbo de fumo de rolo, lenço amarrado na cabeça e rugas que pareciam pequenas estradas percorrendo o seu rosto. As duas mulheres, usando toda a força que o desespero pode proporcionar, sustentaram Rosa para que ela pudesse entrar no barraco e com cuidado a colocaram sobre a cama. E foi então que Rosa apagou, como se de repente nada no mundo mais existisse. Tanto tempo depois, observando os barcos das mais diversas cores ancorados no trapiche e vendo o pai tirar do porão de uma das embarcações suas cubas de peixes para serem entregues aos atravessadores, Rosa tentava refazer mentalmente aquela noite, conforme foi descobrindo aos poucos, a história vindo pedacinho por pedacinho, a muito custo.Manduca retirava suas redes de pesca enquanto o atravessador gritava para um e outro o preço que estava pagando pelo quilo do peixe e do camarão, que seriam depois levados para os frigoríficos da capital, ajudando a enriquecer comerciantes às custas da miséria dos pescadores. O preço a que vendiam o fruto de seu trabalho, mal dava para o sustento da família e para comprar uma nova rede de pesca de vez em quando. Manduca recebeu seu dinheiro, conferiu e viu que mais uma vez daria apenas para pagar as mercadorias que pegava fiado na venda do Seu Ari, única da vila, que parecia sempre estar à beira da falência, mas que por muitos anos matava a fome da sua família e de tantas outras que, em época de piracema, quando os peixes estão desovando e a pesca é proibida, não têm de onde tirar o sustento. O pescador calculava mentalmente suas despesas enquanto observava a filha, mais adiante, olhar distante no rio. Rosa parecia estar desligada do mundo. Seus olhos fitavam a imensidão das águas, o navio estrangeiro que passava levando manganês, ouro e madeira. Mais adiante, como se fossem pontinhos coloridos, as embarcações, balançando nas ondas como barquinhos de papel feitos pelas crianças em dias de chuva.Rosa era a única filha de Manduca. Damiana, sua esposa, nunca lhe dera um menino. E de Rosa nasceu Das Dores, ou Aparecida das Dores, seu nome de batismo. Manduca, sempre que voltava da pesca, levava algum agrado para a neta, fosse um peixe escolhido a dedo, fosse uma pulseira de miçanga comprada no regatão ou um doce de fruta oferecido por seu Ari, que ele não comia, embora estivesse com fome, e escondia cuidadosamente no bolso. Ele ainda lembrava muito bem o dia do nascimento da neta. Pouco antes, tinha ido à cantina do Seu Ari, levar alguns peixes para trocar por despesa. Seu Ari era um cearense que chegou em Vila Maresia há mais de 20 anos. Ali montou um comércio e, ao que parece, nunca mais pensou em voltar à sua terra natal, principalmente depois que a esposa foi embora, deixando com ele o único filho que tiveram. Naquela noite seu Ari limpava a cantina quando Manduca chegou.– Eh, Seu Ari, como vão os negócios?– Ei, Manduca, vamos entrando. Os negócios vão do jeito que você está vendo. Pouca gente e muito fiado. Trouxe peixe hoje?- Um pouquinho, né, Seu Ari, que o peixe tá meio fora de época. Mas o seu tá aqui, ó – disse Manduca, levantando uma cambada de piramutaba.– Esses tão bonito mesmo. Quanto é?– Não se preocupe não, que é o mesmo de sempre. A gente vai vendo o que falta em casa e vai trocando por açúcar, café, vai levando do jeito que Deus manda.– Eu sei bem como é. As coisas aqui estão ruins, mas lá pelas bandas da sua casa também não estão boas, principalmente agora, que a sua filha está quase parindo. É mais uma boca pra sustentar.– Se é, mas também, uma boca a mais, uma a menos, não há de fazer diferença. Eu quero ver é a família crescer, o meu neto correndo por aí...- E o pai, descobriu quem é?– Que nada. A Rosa não dá uma palavra sobre o assunto.– O pessoal da vila tá falando que é do boto.– Se é do boto eu não sei. O que eu sei, mesmo, é que eu vou criar esse menino. Se o pai aparecer, bem. Senão, não faz falta. Até, seu Ari.– Até, Manduca, e dá lembrança pra Dona Damiana. Manduca deixou seu Ari e enfrentou a noite de lua cheia que caía sobre a vila. Com cuidado, vasculhava com os olhos os pontos mais escuros, atento a qualquer ruído. Ele não tinha medo dos animais que habitavam os locais mais escondidos da vila. Onça, gato maracajá, cobras e outros bichos peçonhentos não o assustavam. Seus pensamentos estavam voltados para a Matinta Perera, assombração que deu de aparecer em Vila Maresia há alguns anos e já tinha assustado muita gente. Esta noite, no entanto, tudo parecia muito calmo. Até os pássaros noturnos permaneciam quietos nas árvores. Naquele exato momento, Rosa estava parindo. Damiana e Generosa providenciavam água quente, panos limpos e tesoura para cortar o cordão umbilical da criança. Rosa, embora com muita dor, parecia não entender o que estava acontecendo. O rosto crispado, o corpo banhado em suor, a respiração ofegante, o grito de dor e alívio misturando-se com o choro da criança que acabava de nascer. Generosa respirou aliviada. Rosa, cansada, sentiu que estava sendo levada pelo sono. Mas lá, no fundo de sua consciência, ainda parecia ouvir a voz da parteira Generosa.- Deus seja louvado. Nasceu o bebê! É uma menina! E olha só como é bonita. Toma, Damiana, segura tua neta, mulher, que eu ainda tenho que ver se está tudo certo com a mãe. Essas meninas estão tendo filho cada vez mais cedo. Daqui a pouco vão nascer parindo...– Eu que o diga, Generosa. E o pior é que a carga cai toda pra cima dos pais. Quem faz o filho, ó, se manda pra não sustentar. Às vezes eu acho que.... O que tu estás fazendo, Generosa?– Tem outro bebê aqui!– O que?– Tem outro bebê aqui, me ajuda!, traz mais água quente e panos limpos, rápido!Teria sido um sonho ou Rosa escutou mesmo o choro de uma outra criança? Rosa não sabia dizer. A única coisa que sabia e que tinha a mais profunda certeza é que o choro que ouviu foi de um menino. Uma certeza que a acompanharia para o resto de sua vida. Foi pensando nisso que voltou a adormecer profundamente. Acordou horas depois com a sensação de um vazio no coração, uma tristeza que teimava em crescer. No quarto iluminado apenas por uma lamparina e pela luz da lua que entrava pela janela, Rosa viu Damiana, com uma criança nos braços. – Mãe! Mãe!- Que foi, minha filha, não está passando bem? – Eu tive dois bebês, mamãe, cadê o meu outro filho?– Que outro filho, Rosa, tu tá variando ou o parto subiu pra tua cabeça? Acaba com a besteira, tu só teve esse filho aqui, ó. O que tu tem, Rosa? Para de chorar, segura um pouco tua filha.Manduca, que nesse momento já entrava pela porta da cozinha, com uma enfiada de Aracu, estranhou a tensão e o choro entre mãe e filha.- O que tá acontecendo aí, Damiana?– A Rosa acabou de parir.– Ué, então eu quero ver o meu neto. Quero ver se o caboquinho é macho mesmo igual ao avô.– Neto não, neta, que nasceu uma menina. E agora ela tá dizendo que teve dois filhos, eu não sei o que fazer, Manduca.- Te acalma, minha filha, foi só um sonho ruim... Ô Damiana, traz um caldo pra ela, que é pra dar mais leite nos peitos... Sossega, minha Rosa, às vezes a gente imagina coisas, mesmo.Manduca, de alguma forma, percebeu que havia algo errado naquela noite. Talvez estivesse influenciado pela viagem tensa na escuridão, da cantina do seu Ari até sua casa. Talvez a forma com que Damiana negou a outra criança, o choro de Rosa na certeza de terem nascido gêmeos, o fato é que a partir daí alguma coisa estava mudando dentro dele. O que Manduca não sabia é que naquele momento, nas correntezas leves do igarapé, um bote de madeira, sem remador, seguia sem rumo, vez em quando diminuindo a velocidade ao esbarrar nas tronqueiras dos mururés. E as horas iam passando, lentas, como se Deus não tivesse pressa de iniciar o dia.Aquela, particularmente, foi uma noite longa. Rosa chorava muito, lamentava-se e passou mal várias vezes. Mesmo de madrugada, Manduca ainda estava acordado, os olhos abertos na escuridão do quarto, um cansaço esquisito que não lhe permitia dormir. Podia ouvir nitidamente o som dos grilos lá fora, o uirapuru cantando triste no meio da floresta, as águas correndo no rio que passava mais adiante e o som dos botos tucuxis, guinchando e saltando por entre as correntezas. Damiana, deitada em uma rede próxima de Rosa, também não conseguia pregar o olho. Estava tensa, rezava de vez em quando, pedindo proteção à filha e à criança que acabara de nascer. Olhando Rosa, que só conseguiu dormir depois de umas boas xícaras de chá de cidreira e camomila, lembrava do diálogo que teve com Generosa. A parteira estava curiosa, afinal Rosa era uma menina direita, não era como tantas que ficam pela beira do cais se agarrando com os barqueiros. Tinha só 16 anos, não tinha namorado, não tinha amigos, vivia em casa, era realmente muito esquisito, dizia Generosa. Foi então que Damiana resolveu contar para a amiga a sina da filha.– Tu te alembra, Generosa, daquela festa no terreiro do compadre Alfredo?– Lembro, sim, que tem a festa? – indagou Generosa, cachimbo na boca. – Pois então. Foi de lá desta dita festa que a Rosa voltô de bucho.– Ora, Damiana, vai ver que ela ficou prenha foi de algum desses caboclos da vila, afinal não é novidade nenhuma isso acontecer por aqui.– Foi de barqueiro não. Eu vou te contar porque todo mundo está comentando mesmo e tu vai saber pela minha boca e não pela boca dos outros.
Escrito por César Bernardo de Souza às 13h22
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NOVELA MAE DO RIO*
2ª PARTE - Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
Então Damiana contou para a amiga o que a própria filha já havia lhe contado antes e que ela mesma custou a acreditar. Rosa tinha ido para a festa muito cedo, porque estava ajudando a mulher de Alfredo a preparar os comes e bebes. Depois que tudo estava pronto, arrumou-se com esmero, afinal, mesmo sendo muito pobre, gostava de andar bonita. Rosa, na festa, percebeu que os olhares de muitos homens estavam voltados para ela. Aos 16 anos, já era uma bela moça. De estatura média, sobressaía-se entre as outras meninas pela sua pele morena lustrosa, que lhe dava um aspecto bronzeado sem a necessidade de ficar exposta ao sol. O rosto redondo, os olhos castanhos e os cabelos muito negros, que lhe caíam até a altura dos ombros, contrastavam com o vestido vermelho que usava, presente de seu pai Manduca em uma das muitas vezes em que ele, economizando como podia, conseguia fazer compras no regatão. Rosa sabia que era bonita. Sabia também que já provocava desejo nos homens. Afinal, quando ia ajudar o pai a tirar alguma mercadoria do barco, sempre ouvia assobios dissimulados dos pescadores. Ela achava divertido, mas não dava trela.Rosa cresceu ouvindo a mãe contar histórias de fadas, príncipes encantados e princesas que encontravam sua grande paixão. Muitas das vezes, deitada na rede, à noite, ela ficava imaginando que qualquer dia surgiria por ali um homem muito bonito como os dos contos de fada que a mãe contava. Ao vê-lo, ela saberia na hora que aquele homem seria o grande amor de sua vida. E então eles viveriam felizes para sempre. Talvez por imaginar essas coisas, Rosa não respondia aos galanteios dos rapazotes que a cortejavam, também não vivia como suas amigas, batendo pernas para o outro lado da vila para paquerar os barqueiros ou os marinheiros vestidos de branco, que aportavam vez por outra por ali enquanto os navios estrangeiros eram abastecidos com minérios. Mas naquela noite, na festa de Alfredo, Rosa tinha uma sensação estranha, um sentimento esquisito dentro do peito, uma angústia que não sabia de onde vinha e nem porquê.A festa estava muito animada. A aparelhagem de som, vinda da capital, quase fazia tremer o terreiro, de tão potente que era. Estava tão bom que ela prontamente aceitou o convite de um rapaz para dançar, e depois de mais outro. Tinha muita facilidade de rodopiar pelo salão, as pernas, ágeis, acompanhando o par na coreografia do brega. Rosa se divertia aceitando o desafio das colegas para uma outra dança, os pares disputando quem gingava mais, quem inventava mais passos. A noite quente, as danças encarrilhadas e o cansaço levaram Rosa a afastar-se de seus amigos em busca de um lugar mais fresco. Quando deu por si estava na cabeça do trapiche, sentindo o vento agradável que vem com a maré cheia. Ao longe, Rosa observava as luzes dos barcos na escuridão da noite. Eram como pequenos vaga-lumes em meio ao grande rio Amazonas. Seu pai, com certeza, estava por ali, pescando com seus companheiros. Rosa, em pensamento, pediu proteção da mãe do rio para Manduca e para todos aqueles homens que buscavam o sustento para suas famílias.Do terreiro de Alfredo a música chegava ao trapiche, embalando os pensamentos de Rosa. Foi naquele momento, como se tivesse surgido do nada, que ele apareceu. Na cabeça do trapiche, um homem alto, muito bonito e perfumado, trajando paletó branco e chapéu de carnaúba, os olhos de um azul muito profundo. Esquisito agora que Rosa pensava nisso, descobrir que em nenhum momento ele tirara o chapéu, nem mesmo para cumprimentá-la. Rosa não perguntou seu nome. Sentia-se seduzida de uma forma avassaladora, atraída de uma maneira que nunca havia sentido antes. Não reclamou e nem tentou se desvencilhar quando aquele homem a pegou pela mão e desceu com ela até a areia da praia. Suas roupas, como que por magia, foram ficando no caminho, o primeiro beijo sufocado por tantos outros, cada vez mais ansiosos, mais sensuais, a urgência da entrega tornando-se insuportável, a primeira vez do fazer amor alcançando-a de forma arrebatadora, e repetindo-se mais e mais em uma noite que parecia não ter fim, até que, esgotados, dormiram abraçados na areia, a lua surgindo por entre os açaizais.O sol já estava nascendo e os pescadores retornavam com suas canoas, quando Rosa acordou, sozinha e nua, a maré enchendo e tocando-lhe os pés. Sentia um estranho gosto de mar na boca e no coração uma terrível certeza: estava grávida.Ainda nos primeiros meses de gravidez, enfrentando a fúria de Manduca e os interrogatórios de Damiana, Rosa percebeu que aquela gravidez não seria normal. As dores no ventre e os enjôos eram diários, sem intervalos, a família preocupada e buscando ajuda nos chás de ervas da Tia Zaide, única benzedeira da vila, que minoravam mas não impediam que os problemas voltassem.Foi por mero acaso que Rosa descobriu como fazer cessarem as dores. Certa vez, quando os alimentos já não se mantinham em seu estômago, quando o corpo apresentava uma fragilidade preocupante e já se tornava difícil manter a gravidez, Rosa resolveu ir até a beira do rio, mais para manter o corpo em movimento do que propriamente por outra razão. Então ela percebeu que quanto mais se aproximava das águas, as suas forças iam recuperando-se lentamente, as dores cessando, a ânsia de vômito desaparecendo por completo. Rosa descobriu ainda que naquele local a criança que estava em seu ventre parecia adquirir mais saúde. Era como se lhe afagassem o ventre, ninando a criança e transmitindo-lhe conforto e segurança. Daí em diante, os dias de Rosa foram sempre nas proximidades do rio. Os pais se preocupavam, reclamavam, advertiam para possíveis perigos, mas Rosa sabia que estava segura ali. Então seus pais, quando perceberam que sua saúde estava sendo restabelecida, pararam de implicar, guardando os temores para quando estivessem sozinhos, conversando sem Rosa ouvir. E assim se passaram os nove meses, até Rosa entrar em trabalho de parto.- Pois então, mana, a história é essa. Se é invenção dela, eu não posso dizer, porque não estava lá. Não é realmente uma história muito estranha?- Se é, bota estranha nisso – disse Generosa, antes de recolher seus apetrechos de parteira e retornar para sua casa, do outro lado da vila.(MÃE DO RIO - ROMANCE - JOSELI DIAS/GILVAM BORGES/ANGELA NUNES)
A COBRA SOFIA
Há muito tempo, em uma aldeia próxima à ilha de Santana, é que vivia Icorã, uma índia de olhos cor de mel e muito linda. A beleza da índia, incomparável entre todas as mulheres da tribo, transformava em suplício sua felicidade. É que pela formosura Icorã era cortejada pelos bravos, ao mesmo tempo em que estava destinada ao deus Tupã quando estivesse em idade apropriada. Prisioneira de sua beleza, a indiazinha vivia muito triste, raras vezes deixando a oca. Quando o fazia era para dirigir-se à beira de um grande lago, à noite, para contar à lua de seu sofrimento.Certa noite, enquanto banhava-se ao luar, Icorã foi avistada pelo boto Tucuxi, que perdeu-se de amores por ela. Transformando-se em um cisne, Tucuxi aproximou-se da indizinha, possuindo-a através de um encantamento. Meses depois Icorã sentiu a prenhez em suas entranhas e só então descobriu que aquele cisne lindo com quem brincara no lago era na verdade um boto.Mortificada de remorsos, Icorã embrenhou-se nas matas, permanecendo longe de tudo e de todos para ter a criança. Quando as dores vieram e a indiazinha teve seu rebento, deu-lhe o nome de Sofia e atirou a criança no lago, na esperança de que ela se afogasse e ninguém tomasse conhecimento de seu pecado. Depois retornou à aldeia, como se nada tivesse acontecido. O boto Tucuxi, arrependido do que fez, transformou a criança em uma cobra d’água, evitando assim a sua morte.Muito tempo passou e certo dia, quando Icorã encontrava-se à beira do grande lago, sentiu as águas se revolverem e viu quando uma cobra imensa, de estranhos olhos cor de mel, deixou seu refúgio. Era a cobra Sofia, que procurava águas mais profundas para acomodar-se. Os sulcos deixados durante o trajeto, dizem as lendas, formaram o Rio Matapi.Sofia, acreditam os mais antigos, parou para descansar onde hoje fica localizado o porto de Santana. Há alguns anos, uma grande parte da plataforma desabou. Dizem que foi a cobra Sofia que moveu-se durante o sono.


Escrito por César Bernardo de Souza às 13h09
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NOVELA MAE DO RIO*
3ª PARTE - Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
Joseli Dias – Do livro Mitos e Lendas do Amapá – 3ª Edição)
CORRENTEZAS (Joseli Dias)
Amanheceu e minha canoanavega tranqüilano seio das águasno meio do marNa minha canoaeu levo a esperançamulher e criançado meu navegarNas correntezas deste rioé que eu tiro meu sustentoé que eu lavo meus lamentosé que eu acho meu amorNas correntezas deste rionavegam meus pensamentosé que eu vivo meus momentosde alegria e de dorÊ, minha casa é o rioé minha canoaque volta, morenasó pra te buscarê, minha casa é o rioé minha estradaé minha moradacorrendo pro marNo rio encantadotem cobra Sofiatem boto que é homemque vai te emprenharE na pororocaa minha malocasumiu por encantolevada pro marNas correntezas deste rionasceram minhas criançasnasceu a minha esperançaque a vida vai melhorarEu levo a vida na minha canoao rio é minha estradaa vida é minha jornadanão saio deste lugar.

POROROCA DE PAIXÃO (Joseli Dias)
Meu amor você me tocaE a alegria que provocaDentro do meu coraçãoÉ tão grande que pareceA maré que aconteceNo começo de estaçãoÉ o rio transbordandoA correnteza aumentandoÉ água varrendo o chãoPororoca em nossa camaNa certeza de quem amaÉ pororoca de paixãoTeu amor é como um rioNo começo de estaçãoVai arrebentando terraVai arrebentando tudoDentro do meu coraçãoNosso amor é como um rioLeva tudo de arrastãoFaz tristeza em alegriaFaz a noite virar diaIluminando o coraçãoMeu amor você me dizQue ao meu lado é felizNão interessa a condiçãoSe na mesa a carne é poucaBasta um beijo em sua bocaPra alegrar seu coraçãoSe a tristeza se anunciaMe empresta a alegriaSe estou triste, tenho amorFrio a gente nem conheceJunto a gente se aqueceNem carece cobertor.Teu amor é como um rioNo começo de estaçãoVai arrebentando terraVai arrebentando tudoDentro do meu coraçãoNosso amor é como um rioLeva tudo de arrastãoFaz tristeza em alegriaFaz a noite virar diaIluminando o coração.

GATO E SAPATO (Joseli Dias)
Você me olha, me prende, me faz a cabeçaFinge que não me conhece se passa por mimMas sempre que pode, provoca, pois tem a certezaQue eu não resisto a um ataque direto, e assim...Você faz de gato e sapato com meus sentimentosVive em meus pensamentos, mas não quer saberSe às vezes eu rolo na cama chorando sozinhoSe fico acordado à noite pensando em vocêMe diz o que é que eu faço com meu coraçãoNão dá pra segurar essa minha paixãoSe não me quer não faça o que fez comigoSe eu não tenho o seu amor também não quero ser o seu amigoMe diz o que é que eu faço com meu coraçãoMe diga o que faço para ter vocêEu sonho acordado com os teus carinhosMesmo se eu ficar sozinho jamais vou te esquecer.

MULHER DA RUA (Joseli Dias)
Mulher da ruade seios duros,de coxas nuasLembra das noitesenluaradas,do manto frioda madrugada?Lembra do canto,lembra da luaquando passavasna minha rua?Lembra da Ruada Olariaonde deitadana grama friaa qualquer corpo tu te vendias?Lembra da escadae da sacadalembra da “loura”sempre geladacom “colarinho”que eu te trazia?Lembras das noitesno Sobradinhoonde vendiasos teus carinhosonde cobravaso teu michê?Foi muito antes,mulher da ruaque me viestesgingando os seiosme revolvendoem devaneiosnos sonhos loucosde ver-te nua.E o gramadoe a lua cheiaalumiandotua face nua?Aquela gramafoi nossa cama,mulher da rua.Foram suspirosentrelaçadosforam dois corposemaranhadosforam orgasmosloucos, gritadoscomo dois peitosapaixonados.Foram loucurasmulher da rua.Ainda lembroque certo diaa minha Ruada Olariaficou mais feiaficou sombriae naquela noitechorei magoado.Estava loucoapaixonadoe sem piedadete despedias.Tempos se foramsonhos morreramfilhos cresceramenvelheci.A realidadeagora é cruae pela vidaeu me perdi.Mas tu ficastesneste passadoque muitas vezesdesesperadopasso as noitesa relembrar.Ainda sintosaudades tuasdo teu gingadodas costas nuase fico às vezesa imaginarque a qualquer horana minha ruaquando à noitebrilhar a luamulher da ruatu vais passar.

Escrito por César Bernardo de Souza às 13h01
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24/09/2008
PARA LER NA FILA
O EMPRESARIO QUE SUMIU NA INTERNET
(Da Série: Para ler na fila)
César Bernardo de Souza
Macapá, 1999

Parte 1

Cipriano Latuf era um comerciante muito conhecido na região por causa do grande volume de negócios que realizava com boi gordo, era popular porque alem de estar sempre bem humorado não se negava ao atendimento a qualquer pessoa que lhe procurasse. Só não tolerava quem lhe ficava devendo indefinidamente.
Muitos outros grandes comerciantes e industriais mineiros consideravam-no dono de grande talento e potencial subaproveitados para o comércio. Parecia-lhes um desperdício ver aquele homem misturado à realidade de uma região tão atrasada, mesmo em um pais parado no tempo como o Brasil. As pessoas dali distanciavam-se muito pouco do primitivismo, usavam animais para o transporte, mantinham nos quintais boa parte do provimento alimentar, recorriam muito mais aos medicamentos caseiros do que ao balcão de farmácia e, quase realizavam todos os seus negócios na base do escambo.
Mesmo vivendo nesse meio Latuf progredia rapidamente, suas transações comerciais eram muito mais calcadas no comércio atacadista embora fosse comum vê-lo atendendo pessoalmente clientes varejistas que buscavam satisfazer suas necessidades mais comezinhas, de ultima hora.
Como de costume Latuf foi a Belo Horizonte realizar novos negócios, foi lá que "conheceu" efetivamente a Internet. É claro que já tinha ouvido falar desse fenômeno multimídia do fim do século mas até então não a tinha acessado. Navegar, não tinha ainda navegado.
Em Belo Horizonte a sua fama de grande comerciante já tinha se espalhado, quiseram convence-lo sobre as conveniências de informatizar os seus negócios e mais: coloca-los na Internet. Depois que ouviu sobre o quanto cresceriam seus lucros e mais de segurança para o seu dinheiro internauta e de quantos negócios ele mesmo poderia realizar " sem sair de casa", Latuf cedeu.
Na oportunidade, lá mesmo em Belo Horizonte fez contatos via Internet com alguns de seus clientes no Canadá, Japão, Estados Unidos, França, Itália e Brasil, ajudado que foi pelo escritório de informática NOVHORIZOMÁTICA, o mesmo que lhe venderia, instalaria, treinaria pessoal e manteria operacionalmente o novo escritório.
Os consultores que o atendiam, gente muito esperta, pediram informações especiais ao Latuf sobre seus clientes, nada muito alem de nomes, telefones, endereços e outros pequenos detalhes de identificação. Instalaram o Latuf em cadeira fofa e deram-se a navegar pela internet mundo afora, em poucos minutos os consultores ajudados de perto pelo Latuf organizaram uma adress list dos clientes indicados:
-Olha aí Latuf, todos os seus fornecedores tem um site na Internet. Vamos dar uma olhada em seus e-mails. Falta o seu.
Latuf, naturalmente, não entendia nada mais via a tela do computador ganhar vida à sai frente à medida que o operador digitava dábliodáabliodáblioqualquercoisapontocom , ou pontocompontobeerre ou pontogov ou pontonet.
-Pronto, o T.C. Wersteen está acessado, vejamos que produtos estão sendo lançados no mercado, seus preços, condições de pagamento, prazos de entrega, etc.
Imediatamente Cipriano Latuf passos a se chamar latuf@bol.com.br , desse momento em diante sua vida mudaria para sempre. Ali mesmo, bem acomodado na cadeira fofa, Latuf era um misto de criança e palhaço, dava pulinhos na cadeira alem de a todo instante abraçar efusivamente os três consultores que lhe proporcionavam tamanha felicidade. Quando ele pensou que já se empanturrara de internet, foi indagado:
-Sr. Latuf, gostaria de conversar com Mr. Scott? Ele está em Nova Iork, ficaria alegre com a sua cortesia.
Latuf e Scott conversaram como se fossem velhos amigos, a fisionomia de ambos estava na tela, pareciam joviais apesar de quarentões. O tradutor simultâneo, eletrônico, embasbacou Latuf no inicio da operação, depois serviu para expressar a Scott um velho descontentamento:
-Muita demora no pagamento, ô Scott. Não fosse a inflação brasileira, não poderia continuar com os nossos negócios. Você diminui os meus lucros.
-Okay Latuf, by by.
Depois, o embasbacado Latuf falou com o Sr. Nakamura, que estava em Korbe, no Japão. Fechou excelentes negócios com ele, seu talento para negociar lembrou-lhe recomendar a Nakamura o e-mail de Mr. Scott, com a proposição de se ocupar apenas um navio no mesmo contrato de frete, para trazer-lhes as próximas mercadorias do Japão e dos Estados Unidos até o Brasil. Antes que Nakamura o esnobasse, ele próprio sugeriu devolver no mesmo navio e mediante mesmo contrato de frete, carne bovina, mármore azul e soja, respectivamente para as empresa de Mr. Scott e Sr. Nakamura nos Estados Unidos e Japão.
Já à noitinha, quando Latuf deixou as dependências da NOVHORIZOMÁTICA sentia-se aliviado por ter ultimado negócios com os parceiros franceses, canadenses, italianos, e brasileiros "sem sair de casa".
Dali retornou para cidade mineira de Volta Grande, tendo por leitura de bordo um glossário de informática em bela encadernação, presente que o dr.Evandro metera-lhe debaixo do braço como brinde e reconhecimento pelo excelente negócio que fizeram, objetivando a instalação de estações de computadores, treinamento de pessoal e manutenção de todo sistema a ser instalado num prazo máximo de doze dias.
Latuf era um gênio, tinha excelente memória principalmente para números. Dizia-se na cidade que ele podia lembrar seis mil números, entre contas bancarias, placas de carros e telefones. Não esquecia de jeito nenhum as data dos aniversários de seu interesse, quantias que lhe deviam, volumes de mercadorias que movimentava no mês, mas para nomes não tinha tão boa memória assim.
Daí em diante Latuf começou a desaparecer das vistas das pessoas daquela pequena cidade, onde antes era visto por uma mesma pessoa dez q quinze vezes num mesmo dia. Não era mais visto porque não saía de casa,praticamente mudou-se para a saleta onde mandou instalar os computadores recém adquiridos. Quando ia ao banheiro levava o telefone celular e o not-book.
Saudalina, a empregada da casa a tantos anos passou à condição de porta voz do Latuf no período que ele se isolou completamente para se dedicar em tempo integral ao aprendizado necessário ao rápido domínio da maquina multimídia. A bondosa senhora, com mais de sessenta anos, recebia no portão principal de acesso à casa todas as demandas ao Sr. Latuf.
Pronto! Latuf já era um internauta de qualidade, a cidade inteira tinha visto chegar à sua casa aquelas tralhas todas, tantas peças estranhas e tanto isopor para a prevenção aos impactos danosos aos equipamentos durante o transporte rodoviário desde Belo Horizonte.
A garotada sempre criativa em tornar desafios em brincadeiras, imediatamente transformou em "neve" a montanha de isopor que se ia formando no depósito de quinquilharias do Latuf. É certo que a garotada, apesar do sol quente e do calor tropicalíssimo, arranjou uma brincadeira interessante, contagiando crianças de todos as idades que se viam correndo uma de encontro a outras com as mãos cheias de neve. Era bonito ver as crianças dominadas, quase transtornadas pela alegria, umas com os cabelos impregnados de pequenas partículas de neve, outras já muito suadas exibiam os corpos delicados pontilhados de pó de isopor.
Latuf assistia a toda essa algazarra, levado pelo bom coração que possuía deixava-se abstrair mostrando-se estático atrás da vidraça da janela do segundo pavimento da sua casa que dava para a rua onde acontecia a brincadeira das crianças. Parecia que estava no meio da garotada, imperceptivelmente soltava gritinhos junto com as crianças mais exaltadas, dava pulinhos sem tirar os pés do chão, esgava sorrizinhos quando pedaços da brincadeira com "neve" resultava em tombos espetaculares que não machucavam. Um tempo depois Latuf mandou instalar uma persiana naquela e noutras janelas por que não queria mais ser visto da rua, da mesma forma que não desejava mais deixar que a brincadeira das crianças quebrasse a sua concentração na navegação internáutica.
Com uma pequena providência aqui e outra grande ali, Latuf foi se isolando do mundo antigo, basicamente ele só podia ser visto pelos seus três últimos empregados, desde alguns dias atrás transformados em assessores. Sua vida já era quase virtual, dispensara vinte e nove empregados e tinha planos para dispensar os outros dois, o José Rafael e o Pedro Gomes.
A bem da verdade, os empregados não foram despedidos assim sem mais nem menos. Latuf já tinha sido penalizado pela Justiça do Trabalho, sentia pavor só de pensar em comparecer perante juizes e ainda ter que pagar indenizações que para ele era sempre absurdas. Assim, decidiu que seus empregados urbanos poderiam permanecer na folha de pagamentos desde que se transferissem para a lida diária nas fazendas de cria e engorda de gado. Homens e mulheres que quisessem aceitar o desafio dos currais poderiam continuar com ele, em caso contrario o pedido de dispensa restava com alternativa, um caminho pelo qual praticamente todos os seus antigos empregados , entre eles alguns bons amigos, caminharam de costa para o "novo" Latuf.
Para melhorar sempre mais o seu desempenho informático, Latuf se iniciou num linguajar muito estranho, misto de inglês, eletrônica e masoquismo. Até pouco antes se vocabulário era carregado em palavras como arroba, peso vivo, boi em pé, peso vivo, porção eviscerada, lote recém adquirido, lote da pronta entrega, partida refugada, nelore branco, pasto batido, cinco mil "boi"... Agora, apesar de ainda tropeçar um pouco nas palavras, Latuf perdia em palavras como compiler, compress, connect time, bridge, site, afress, planne, bounce, animation, anonymous, daendon, firewall,frame, gigabyte, gigaflops, hacker, host, marphing, quary, postmarste, talmet, Word Wide Web. Obviamente sabia-lhes os significados.
Latuf ficou muito mais rico, porém seu dinheiro era eletrônico e internauta, fazia tempo que não segurava nas mãos uma nota de cem dólares. Via internet ia a supermercados, recebia e pagava contas, movimentava-se nos grandes bancos nacionais e internacionais, ouvia e assistia shous de música nacional caipira e country americana, controlava a movimentação de gente e de bois nas suas varias fazendas e até estava "amando" pela telinha de cristal liquido.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h42
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PARA LER NO ÔNIBUS
CALCINHA FURADA
(Outro conto que lhe conto)
Autor: César Bernardo
Revisor: Paulo Roberto Bernardo

1ª Parte:
A ansiedade era o único ponto comum entre Gonzaga e Cristal, um
sentimento embaraçoso que ambos tentavam administrar horas antes do início da reunião mensal ordinária que se realizaria no Salão Oval da Cooperativa
Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó. Na manhã daquele dia se
definiria a permanência ou não de Gonzaga no posto de direção que ocupava na organização e se Cristal conseguiria o emprego tão esperado e necessário, na Divisão Especial de Produtos Dietéticos.
Por conta dessa tão grande ansiedade, ambos passaram acordados uma noite
nervosa, calorenta o suficiente para fazer-lhes subir a adrenalina para muito
além do suportável. Como se estivessem comandados pelos impulsos eletrônicos de um controle remoto, cada qual tomou ruas para caminhar sem rumos definidos. Cansados das caminhadas, foram se refestelar na janela dos seus apartamentos como que querendo espiar a madrugada chegar com algum bom sentimento novo e findar com a ansiedade que já os mergulhava numa espécie de solidão compartilhada.
Cristal não tinha uma janela aberta para os poucos encantos da pequena
cidade. Seus olhos, como que tentando escapar do vento frio que descia da
montanha varrendo para a sarjeta papeis miúdos e folhas secas que queriam
atapetar toda superfície da rua, só podiam ir até as paredes descascadas das
velhas carcaças dos prédios em frente. A rua das Escravas, comprida e
estreita, morta nas madrugadas, parecia mover-se-lhe debaixo dos pés.
Debruçada devagar sobre o batente largo da janela de duas folhas, as pernas
já adormecidas ao embalo do seu silêncio mais profundo, Cristal deixava
repassar em sua mente o filme em preto e branco da grande tragédia da sua
longa vida medida em exatos vinte e seis anos, quatro meses, dois dias e mais
as seis horas que a consumiam daquela maneira desde os primeiros minutos
daquele dia.
Muitas vezes e poucas horas entregues às lembranças, ela reviu as pernas
macérrimas que um dia se desnudaram bruscamente diante dela, dando forma a uma das mais violentas e bestiais atitudes que um homem é capaz de praticar
contra uma mulher. Ela que, atraída por uma possibilidade de empregar-se,
terminou estuprada e manchada pela bestilialidade humana.
Depois de tanto tempo, ainda sem entender direito como se viu encurralada
entre a surpresa e a barbaridade, não conhecia uma forma de perdão para
aquele indivíduo e nem sabia de onde tirara tanta força para suportar a vida
até ali.
Por causa da dor e da vergonha, Cristal gravou no fundo de sua memória a
imagem das pernas secas e do par de botas com todos aqueles detalhes que
bordavam as laterais dos canos altos, até quase aos joelhos. Dali em diante,
dominada pela impotência, decidiu que teria a vingança como a única meta da
sua vida e a tragédia como o seu maior segredo.
Gonzaga, como que querendo carícias da brisa matutina, abriu de vez as duas
folhas da janela grande debruçando-se sobre os seus remorsos mais
fortes. O que lhe vinha à mente com mais força, desde há muito tempo, era a
imagem da calcinha que lhe ficara como testemunho do gozo bestial que
conseguira num dia distante, quando subjugou cruelmente uma jovem mulher que tanta excitação lhe causara.
Lembrava-se bem de uma calcinha marrom de bordas brancas, com um orifício centro frontal grande o suficiente para deixar à vista boa parte da região púbica vaginal, como ele jamais tinha visto, razão pela qual trazia-a consigo depois de tanto tempo. Suas lembranças inconfessáveis misturavam-se com a certeza da impunidade. O anonimato em que se julgava convenientemente mergulhado fazia-o pensar que tudo corria a favor dos seus planos de poder na CCPLVC.
Chegou, em fim, o momento da reunião tão esperada. Na distribuição das
pessoas em seus assentos, o acaso colocou Gonzaga e Cristal frente a frente,
separados pela descomunal largura da mesa oval que dava nome ao salão
retangular. Não sabiam exatamente o que um significava para o outro.
Cristal mostrava-se mais contida, estava informada de que a reunião seria
longa, se estenderia muito em razão dos discursos que se sucederiam a partir
do Secretário Geral até o Presidente, estando entre os quais seis
vices-primeiros-presidentes e três subdiretores que, ainda bem, teriam
direito a um máximo de três minutos de pronunciamento, sem réplica.
Quanto a Gonzaga, parecia tratar-se de uma pedra. Nada se poderia perceber
ocorrendo em seu íntimo. Para ele seria mais uma reunião de rotina que viria
consolidar ainda mais a posição de mando que ocupava na empresa havia de seis anos. O futuro da hora seguinte não lhe deu nenhum aviso.
Num dado momento, reunião em andamento, foi ao chão a folha de pauta através da qual Cristal acompanhava os acontecimentos com a devida atenção.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h05
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PARA LER NO ÔNIBUS
Calcinha Furada - 2ª Parte
Discretamente afastou um pouco a cadeira que ocupava e abaixou-se devagar
para recolher o papel que lhe caíra quase ao pé. Foi quando, atraídos pelo
destino implacável, seus olhos foram pousar direto nas botas de couro
bordadas nas canos altos que calçavam os pés e escondiam as pernas secas do
sujeito em frente, do outro lado da mesa oval. Teve a certeza de ter
encontrado o que buscava: seu algoz. Não tremeu um só músculo do corpo e nem lhe traiu qualquer nervo. Apenas deixou que as lembranças amargas que trazia da vida dominassem por mais um segundo, cobrando-lhe o compromisso que tinha com a vingança. Ao mesmo tempo que via as botas e recolhia o papel do chão, veio-lhe a decisão de que a sua vingança não se adiaria mais um minuto sequer. Retomou a posição no assento e esperou.
Gonzaga, sem o aviso dos minutos seguintes, também foi ao chão por um motivo qualquer, com gesto passou imperceptível e sem a mínima importância para Cristal. Abaixado, avistou em frente o par de pernas abertas mostrando ao
fundo, lá no fundo, boa parte da região púbica vaginal através do orifício
central de uma calcinha marrom de bordas brancas, exatamente igual à que de
uns anos para cá levava no bolso e na consciência. Não se enervou nem tremeu qualquer músculo do seu corpo esquelético; apenas excitou-se
incontrolavelmente à vista daquelas pernas da mulher que estavam em seu
caminho pela segunda vez em busca de emprego.
Recomposto à mesa, deixou seu olhar cruzar com o de Cristal, a dona da
calcinha furada. Corria a língua de um canto a outro da boca lambendo os
lábios com a intenção de ser obsceno. Cristal recebeu a "carícia" com fingido
prazer enquanto fazia a sua arma passar do interior da bolsa para a mão
esquerda. Não deixou que seu olhar passasse a Gonzaga o último aviso.
Sob a mesa, Cristal cuidou da mira por muito tempo, quase imóvel. Gastou
nisso quase quinze segundos, queria ter a certeza de que quando atirasse
colocaria a bala bem entre os dois testículos, sem no entanto desejar que o
infame morresse de imediato. Também não queria que ele perdesse a fala por
causa da dor que lhe adviria com o furor da bala calibre 38, reservada a ele
desde o dia do estupro. No seu entender Gonzaga era uma besta em pele humana sem qualquer merecimento e que, portanto, tinha que uivar de dor quando a força total da sua vingança o atingisse da forma planejada. Quanto mais gritasse mais diminuiria nas entranhas de Cristal o sangramento, a vergonha e o nojo.
Então, assustador, ecoou o tiro seco e certeiro, tanto mais porque apanhou
ereto o pênis criminoso, desejoso de mais sevícias hediondas. Enquanto durou
a eternidade dos dois ou três primeiros segundos que se seguiram, Gonzaga
pareceu apenas assustado como os demais presentes. Não percebera ainda o
dreno aberto até o reto e o sangue que lhe empapava as calças à altura do
quadril.
Mesmo dominado pelo espanto e pela dor lancinante, Gonzaga ainda viveu os
segundos suficientes para perceber que o projétil lhe destruíra quase todo o
pênis, dilacerara inteiramente os dois testículo e seguira arruinando uma
infinidade de delicados vasos sangüíneos, nervos e músculos, de forma
irremediável. Certo de que chegava ao fim golpeado pela mão pesada da
vingança implacável que lhe oferecia a um só tempo realidade e dor
insuportáveis, aí uivou como a besta que era, repetiu o uivo mas não se mexeu
mais, nem os olhos nem os dedos. Foi tombando devagar até bater no colo da
morte.
- Essa desgraçada matou a nossa surpresa, ela sabia que o Dr. Gonzaga seria
escolhido o novo presidente da Cooperativa Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó - apontou-a berrando o descontrolado presidente que saía.
-Ela, esta maldita, atirou de propósito no piru dele. Infame, no piru dele
não devia - acorreu aos berros um tal vice-presidente, apossando-se da mesma
arma, com que disparou uma bala certeira na cabeça de Cristal.
Depois de se aproximar o máximo possível do que sobrou da face da morta,
ainda brandindo a arma, ele esclareceu:
- Ele era o meu homem, sua vaca.
Quando tudo voltou ao controle dos menos exaltados, foram encontradas as duas calcinhas, uma no bolso do Gonzaga bem perto do que sobrou do pênis e outra no corpo de Cristal, deixando escapar pelo orifício estranho uma mecha de pentelhos muito negros. Aí, as explicações já não eram mais necessárias:
foram crimes passionais.
Macapá
-Setembro/93

Escrito por César Bernardo de Souza às 11h58
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19/09/2008
PARA LER NA FILA

RAÍZES DA FARTURA
(OUTRO CONTO QUE LHE CONTO)
( César Bernardo )

Quem passasse naquele dia na estrada grande, a qualquer hora, mesmo que com toda atenção nos grandes e sucessivos buracos do leito da única via de acesso à cidade de Laranjal do Jari, mesmo que encantado com as arvores centenárias, principalmente as maçarandubeiras e ainda que as cutias cruzassem a estrada com a insistência habitual com que os animais silvestres faziam naquele trecho da estrada bem dentro da floresta, mesmo assim ouviriam o barulho de motores funcionando, crianças brincando, mulheres e homens tagarelando lá dentro da floresta à altura do médio rio Arapiranga.
Quem tomasse o ramal à esquerda logo junto ao enorme tronco da guarupeira, seguisse adiante até encontrar a primeira grande clareira, parecendo terra arrasada, logo encontraria os caminhões, os tratores e as famílias agricultoras da região como que num manifesto ruidoso de um sentimento novo, algo que as uniria de forma tão forte que até daria para ver.
Um tanto abaixo de onde os homens descarregavam o calcário e o adubo trazido pelos caminhões, também longe das maquinas agrícolas em aquecimento dos motores, as mulheres escolheram uma franja de bosque de capoeira para armarem a cozinha. Usando travessões sobre forquilhas, penduravam neles enormes caldeirões cheios de toucinho, charque, pés, orelhas e focinhos de porco, cosendo junto com feijão fradinho. Depois, acrescentando-se generosas porções de farinha de mandioca, tudo aquilo seria devorado por homens exaustos do trabalho com a terra, crianças alegremente inquietas e mulheres envaidecidas como nunca. Uma cantiga regional embalava toda esta movimentação: E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá - Já se vai o sol embora deixando o mundo sem luz. E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá – Que santinha é aquela toda cercada de flores .....
Eram ainda nove horas da manha quando a terra começou a ser preparada para receber o corretivo, a propriedade escolhida era a do Sr. Paulino Souza. À frente seguia o grande trator de esteira virando os troncos, os grande demais davam muito trabalho à maquina mas caiam mesmo assim e eram recolhidos pela pá carregadeira para dentro das caçambas dos caminhões basculantes. Os troncos menores eram empilhados nas laterais da área que se preparava para ser um grande roçado de mandioca. Depois vinha o trator arado sulcando fundo a terra arenosa e a seguir o trator gradeador pulverizando ainda mais a terra.
A dança das maquinas terminou o dia de trabalho deixando atrás uma mancha pardacenta na terra, que o técnico explicou como "calagem", para reduzir a acidez do solo.
Depois de quarenta e cinco dias a mesma máquina voltou para espalhar o adubo químico e mistura-lo ao solo com o passeio da grade de disco indo e vindo sobre a nova terra. O técnico explicou que em trinta dias a roca seria plantada.
Todo esse ritual repetiu-se nos outros sítios agrícolas da região do Arapiranga, as crianças, as mulheres, a feijoada, as máquinas e os homens não pararam numa mesma propriedade nos vinte e cinco dias de trabalho duro que se sucederam. Depois disso começaram os mutirões para o plantio das rocas, uma festa de mãos se cumprimentando, brandindo enxadas, sulcando a terra fresca, depositando ao fundo a estaca semente de vinte centímetros de cumprimento e cobrindo-as com uma porção calculada de terra. Tudo devidamente alinhado e perfeitamente obediente aos distanciamentos determinados pelo técnico agrícola entre uma cova e outra.
Passados oito meses, em meio a grande surpresa inicial, as plantas vigorosas começavam a perder as folhas. Era o sinal que eles tanto esperaram, indicando que as raízes estavam quase maduras.
Então recomeçaram os mutirões nas propriedades, na mesma ordem que foram realizados no preparo da terra. A novidade ficou desta vez, com as carroças puxadas por cavalos e burros, alinhadas uma atrás da outra em um dos lados do roçado num total de oito veículos atrelados a oito animais nem belos e nem fortes, apenas eqüinos e muares bem adestrados.
As mulheres mais jovens e as crianças participavam da festa da colheita brincando num terreirão que já se preparava ao lado da lavoura para receber a roça do próximo ano agrícola. As brincadeiras e os gritos de satisfação cresciam apesar do sol também ir-se esquentando forte e rapidamente.
À sombra do mesmo bosque de antes as mulheres esposas coziam outra grande feijoada, mas também assavam leitões e borregos e cuidavam da bebida fermentada dos maridos, mergulhando as garrafas na água fria do rio Arapiranga. O tempo poderia mudar para chuva, mas o sol brilhava sozinho naquele dia.
Quando chegou o momento de iniciar mesmo a grande colheita do ano de 2001, o ancião deu o comando para a oração da colheita da mandioca, de certa tradição na grande região sul do estado:
Ao Sol – disse o ancião, voltando-se para o leste.
Agradecemos senhor – os agricultores responderam, também voltados para o leste. Ao Vento – disse o ancião, voltando-se para o norte.
Agradecemos senhor, que não foi muito – os agricultores responderam também voltados para o norte. À Chuva – disse o ancião, voltando-se o sul.
- Bendizemos senhor, foi na medida - os agricultores responderam também voltados para o sul.
À Terra – disse o ancião, inclinando-se para o chão.
Agradecemos e bendizemos senhor - os agricultores responderam também se inclinando para o chão. Amém.
Terminada a oração da colheita, ao sinal do ancião o agricultor mais jovem arrancou a primeira planta. Devagar separou os tubérculos, depois pesou-os numa balança de gancho, conferiu a pesada com atenção, ergueu a voz e mandou fazer estaca semente da planta colhida.
Então, o jovem agricultor ergueu o paneiro com a mandioca colhida, orou em silêncio com os olhos fitos no céu e depois depositou os tubérculos aos pés do ancião. Este nada disse ao jovem agricultor, saiu caminhando numa direção que já conhecia até encontrar o que ele considerou a planta-mãe daquele sitio.
Encontrando-a, fez-lhe a marca azul, depois escolheu doze plantas em volta, marcando-as com tinta amarela. Ergue a voz e proclama-se, as treze plantas, incompatíveis com o fogo. Ordena o inicio efetivo da grande colheita.
A terra ainda fresca está escondendo uma espantosa produção de mandioca, algo inacreditável para a maioria daqueles agricultores que nunca tinham tido a experiência de tratar a terra para uma finalidade definida. Onde colhiam antes nove toneladas por hectare em dezoito meses, agora viam a terra parir vinte e cinco toneladas por hectare em apenas onze meses.
As raízes sobre o chão iam formando centenas de pequenos montes, logo recolhidos pelas crianças maiores, pelas meninas, pelos meninos e principalmente pelas mulheres esposas. A cantoria ia num aumentando conforme as centenas de montículos se juntavam para formar uma montanha de mandioca colhida.
A movimentação dessas pessoas lembrava um ataque de formigas saúvas devorando um roçado. Olhando-se de outra maneira, via-se a harmonia do trabalho organizado em hierarquia fluindo alegremente do interior da terra para o interior das carroças e delas aos caminhões estacionados na estrada vicinal de acesso ao sitio.
Depois de cheios, os caminhões com as presumíveis cento e vinte toneladas colhidas tomaram a estrada grande conduzindo a safra para a fabrica de farinha de mandioca, instalada num grande prédio na cidade de Laranjal do Jari.
No trecho em que a estrada cortava a grande floresta densa, os caminhões seguiam muito devagar por causa dos buracos e por causa das dezenas de placas educativas sinalizando o transito que, em resumo, mensageavam: "Dirija com cuidado – trafego intenso de veículos na colheita de mandioca".
Logo atrás dos caminhões vinham os agricultores da região, os donos da safra embarcada naquele comboio com destino à fabrica seguiam à frente dos caminhões em carro aberto, sobre a carroceria da camioneta, distribuindo cumprimentos às pessoas pelas quais passavam.
À entrada da cidade, depois da ultima ladeira estreita por demais carcomida pela voçoroca o comboio parou para se reorganizar. A partir dali as faixas alusivas à colheita de mandioca foram estendidas, os rojões foram distribuídos aos adultos orientados para detoná-los somente quando surgissem as primeiras casas da cidade propriamente dita. A rainha da safra/2000 foi alçada ao palanque construído para esse fim sobre a carroceria de um dos caminhões.
Ao longo de um trajeto calculado em cerca de seis quilômetros, A desembocar no pátio da fábrica, a população se acumulava de um lado e outro da grande Avenida Tancredo Neves. Cada pessoa que aplaudia os agricultores parecia ter a consciência de que a boa safra era, ao fim, uma distribuição de renda real que botava dinheiro no bolso dos agricultores e dos comerciantes, mas também diminuía muito o preço do alimento na mesa urbana. Porém aquele momento era uma oportunidade importante para a cidade homenagear o campo e demonstrar sua cota de respeito ao trabalhador rural que abastece as cidades com o seu trabalho.
Os caminhões encontraram os portões da fabrica já abertos, entraram e manobraram sem atropelos deixando espaço para o restante do comboio terminar de ocupar o pátio de estacionamento da fabrica.
Com as pessoas todas acomodadas, mas percebendo a grande movimentação de populares se acotovelando lá fora, na rua em frente, o diretor-presidente da cooperativa que gerenciava a fabrica de derivados da mandioca ordenou o processamento inicial da safra/2000.
Naturalmente que se tratava de um processamento simbólico, de extrema valia para os agricultores e empresários em geral. O seu ritual era nervoso porque tinha o objetivo de emitir sinais claros para o mercado de produtos derivados da mandioca, iniciando-se a partir dali uma avaliação qualitativa dos produtos obtidos que estimularia ou inibiria as manifestações culturais dos agricultores relativos ao cultivo da mandioca.
A um sinal do diretor-presidente da cooperativa os operários pararam as máquinas para que ele, passeando o olhar pela multidão, fizesse escolhas aleatórias:
O senhor será o provador da farinha.
Você jovem, será o provador de tapioca.
A senhora, por favor, seja a avaliadora do tucupi.
Num momento todos estavam a postos, cada qual tendo à frente um utensílio com os produtos a serem avaliados. Passados alguns minutos o diretor-presidente prossegue o ritual:
- Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a farinha fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000,do município de Laranjal do Jari ? = Excelente, senhor diretor. - Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a tapioca fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? =Excelente, senhor diretor.- Senhora avaliadora, qual o resultado da sua avaliação para o tucupi extraído da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? = Excelente, senhor diretor.
Parcimonioso, explorando ao máximo a ansiedade dos presentes, o diretor-presidente da cooperativa recebe o martelo de madeira das mãos do auxiliar, convoca o agricultor proprietário daquela primeira grande produção de mandioca e juntos sobem na carroceria de um caminhão deixado ali para esse fim. À quatro mãos, o martelo é batido:
A cooperativa compra toda a safra de mandioca do ano de 2000 colhida no município de Laranjal do Jari – diz o diretor-presidente. = Eu vendo a safra – diz o ancião representante simbólico de todos os agricultores. Aí o povo explode em festa, rojões, chapéus, cerveja e cachaça são jogados para o alto. Abraços, gritos e choros de alegria temperam a grande festa inaugural ao tempo de prosperidade agrícola que todo o vale do Jari passava a conhecer.
A partir desse dia desaparece do labor rural amapaense a figura do plantador de mandioca, dando lugar ao lavrador especialista em agricultura econômica.
FIM


Escrito por César Bernardo de Souza às 21h39

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