02 JAN 2010 – D. POSITIVO
EDITORIAL:
ALMA EM CONFLITO (Diário do Amapá – 19/11/1995 – Domingo)
ARTHUR NERY MARINHO.
Sobre a cidade cai, silenciosa esta chuva miúda e muito fria.
Em minha alma soluça a nostalgia as coisas que me foram amor e rosa.
No meu silencio aqui sentado sinto o fantasma da minha solidão
Quem me dera matar meu coração embriagado neste vinho tinto!...
Assim de chofre findaria tudo. Talvez que a curiosa da maldade visitasse, fingindo piedade, o que ficara para sempre mudo.
É que no mundo dos vilões existe todo tipo de gente que mentindo
Sabe chocar até prazer sentindo., sabe sorrir até quando está triste.
É um mundo vil, um mundo tão malquisto, que tenho contra ele minha queixa;
Enquanto que um sicário vivo deixa, permite que condenem Jesus Cristo.
Como posso entender a minha alma, como posso saber o que há comigo,
Se vozes me ameaçam de castigo, se escuto vozes que me pedem calma.
ANIVERSARIANTES DO DIA:
02-PEDRNHO
02-CAMILA (D. CACILDA) 1 ANOS
03-EVELIN – CRISZTINA E LOPES)
04-Profª. ª Sá
06- VILI – 15
06- NOVO AMAPÁ
08- PROFª. FONSECA
MALAFAIA – DADÁ – GIOVANA – CELI - MICAU – CASSIO – Carmem – CATRINE – CAIO - JUNIOR – CLEUSON – ELEINE – PEDRINHO – JOAOZNHO – JOÃO – GRAÇA – JOAO EDUARDO – NILL – BRENO – ELIANA -
- D. Marilia (29/12/2009)
-
-ABRAÇOS:
-CÉLIA – GIOVANA (BELÉM)
-DOACIR
-AROLDO VITOR
-ALCANTARA(“S”)
-BORGES
-
COMENTÁRIOS:
-SUMRINAME – EMIGRAÇÃO SEM CONTROLE
-O QUE FICOU PARA TRÁS TEM POUCA IMPORTANCIA?
-NOVO ANO ELEITORAL (BLOGS)
-ANIVERSÁRIO DO PROGRAMA (AMANHÃ) è 10 ANOS
DEBATE:
1- GOVERNADOR: O ULTIMO ANO DE SEU GOVERNO CONFIRMA TOODOS OS SEUS COMPROMISSOS DE CAMPANHA?
2- GOVERNADOR: COMO FOI POSSIVEL AJUDAR TANTO A PMM NUM ANO DE MAROLINHA?
3- GOVERNADOR: E O SENHOR, É WALDEZ 2010 OU “O RETORNO 2014?
4- GOVERNADOR: TEMPO PARA SE DIRIGIR AO POVO.
5- PROFESSOR MUNHOZ: AO POVO
6- EU, AO POVO.
CRÔNICA DO PROFESSOR MUNHOZ – 02 JAN 2010.
Pouco mais pouco menos que um mês falei, neste programa, em Monsenhor Aderson Neder agradecendo seus dois livros: “Na feliz vivencia da graça”, e “Deus nossa vida”. Agora, vou falar de novo nele, pois acaba de me enviar o seu 26º livro, “Nossa Igreja é o Senhor Jesus”, o quarto que pública este ano, e que, conforme suas palavras, acha que é um dos melhores, inclusive na impressão. E me dá uma justificativa, dizendo: “Aposentado, meu tempo sobra para escrever”. De fato, o livro tem um aspecto bonito, com uma bela capa e os temas são palpitantes e profundos, obra de quem conhece o assunto, em capítulos como : “A Igreja é Pascal”, “Uma igreja fraterna”, “Igreja santa e pecadora”, “O Espírito Santo na Igreja”, “A Igreja e sua missão política”, “Maria e a obediência da fé”, , “A implantação do dizimo”, “O primado do papa na igreja” e a “Necessidade da Eclesiologia”.
Mons. Aderson foi meu colega de Seminário e sempre tivemos um fascínio pelas letras, inclusive como adolescentes fundamos um jornalzinho semanal. Hoje, Mons. Aderson tem mais de 40 anos de jornalismo, tendo iniciado no jornal arquidiocesano semanal “A Palavra”, de Belém, onde também por muitos anos escrevi sobre cinema, algumas crônicas dessa época impressas no livro “A Critica do Cinema em Belém”, da Gráfica Falangela Editora Ltda, edição de 1983.
De A palavra, Monsenhor ingressou na “Voz de Nazaré”. Contudo, há trinta e dois anos participa de O Liberal, de Belém, como jornalista semanal do periódico, assumindo uma segunda vocação, ou seja, de ser escritor religioso, que é um complemento da sua vocação sacerdotal, com seus escritos totalmente dedicados à evangelização e à construção do Reino de Deus na humanidade.
O novo livro trás ainda uma pequena introdução do casal Dr. Delson (Assunção) Souza, amizade que nasceu na convivência do Cursilho de Cristandade. Segundo Mons. Aderson Neder, “a Igreja no século XX e principalmente depois do Concilio Vaticano II tem andado com passos bem largos, mas sempre de mãos dadas com o Senhor Jesus”.
No terceiro capítulo, “Documento sobre a Igreja”, Monsenhor educadamente se refere a muitos pastores de crenças que não sabem dialogar e facilmente pecam pela indelicadeza, quando um deles disse que o Papa atual não sabe nada de Bíblia
Fazer tal afirmativa a propósito de bento XVI, considerado um dos maiores teólogos dos nossos dias, não é indelicadeza, não, é ignorância, é burrice mesmo, burrice tamancuda, como dizia o nosso Monteiro Lobato. Mons. Kiing, teólogo de linha contraria ao Papa afirma, todavia, que Bento XVI “é muito inteligente e era o especialista mais jovem em teologia durante o Concilio Vaticano II”. Durante 3 anos ambos foram professores de teologia dogmática na Universidade de Tuliigem, na Alemanha. Será que tal pastor sabe o que é teologia dogmática?
Que a Igreja Católica possui todos os requisitos da Igreja fundada por Jesus Cristo e seus apóstolos, não há duvida, como vem comprovando há mais de 2 mil anos. Crenças novas há que estão em desacordo com as verdades evangélicas, como por exemplo, tornar como um meio de ganhar dinheiro fácil, pela exploração inadequada do dizimo.
Em no capitulo 9º, Na construção do Reino , é citado o nome de Dom José Maritano, que foi bispo de Macapá, e que disse no retiro do clero de Belém, em março de 1992: “Se nós não transformarmos o mundo com o Evangelho, outros o transformarão sem o Evangelho”. E Dom Helder Câmara também afirmava: “Deus não vai deixar de construir seu Reino neste mundo. Ele o fará conosco, sem nós ou contra nós”.
Palavras que merecem ser meditadas neste inicio de ano, pois todos nós somos parte do Reino de Deus. E já que estamos falando em espiritualidade, fiquei sumamente emocionado com duas cartas que recebi esta semana; na primeira, de Mons. Aderson Neder me dizendo: “Acompanho-o com minhas orações. Você estará bem presente nas minhas missas natalinas“. Noutra carta, vinda da Itália, de Deliceto, do Convento de Santa Maria della Consolazione, chega-me não só a reprodução de uma imagem de Nossa Senhora, muito antiga, que foi retocada por Santo Afonso de Lugerio, de artista desconhecido, com a afirmativa, quando diz: “Conte sempre com as minhas pequenas orações” - Padre Maria do Espírito Santo.
E bucólica foi a viagem, domingo passado, a Santo Antonio da Pedreira, numa estrada perfeita, limpa, rodeada de muito verde, enchendo os olhos e fazendo bem não só ao corpo como ao espírito. E deliciosas foram as horas de conversa com dona Celita com uma memória fantástica nos seus 77 anos, recordando muito da vida de amigos como o Couto, recém falecido no Rio de Janeiro.
Dona Celita é viúva de um antigo companheiro na Policia, o Adelino, e hoje é sogra do amigo Bonfim Salgado. E na volta ainda falei na Vila Ressaca, com o Marco Antonio, irmão do Bira, jogador; e por ultimo, aqui em Macapá, no Foto Líder, troquei idéias com o Manduca, Agente Distrital lá de Santo Antonio da Pedreira, que deve ter gostado das minhas impressões que são verdadeiras. Aliás, devo muito ao César Bernardo o conhecimento que tenho atualmente de Macapá, porque com 50 anos nunca tinha saído do centro da cidade, vivendo num pequeno circulo. Agora tenho ampliado a minha visão da cidade. E preciso ampliar a minha visão do Estado.
Quero aproveitar a oportunidade para desejar aos nossos ouvintes um ano novo cheio de paz, de felicidade, com muita saúde, sem a qual a vida perde muito da sua beleza. E com saúde e paz, um pouquinho de dinheiro para realizar muitos de nossos sonhos, aqueles que sem o vil metal é impossível se realizar. Que a vida tenha um sentido novo para nós e aqui lembro muito dos jovens que tiraram a própria vida no ano de 2009. não nos esqueçamos de que a vida é um dom de Deus e como tal merece ser respeitada.
naminhaopiniao
Um blog onde voce e eu poderemos discutir aspectos, fatos e opiniões sobre a vida cotidiana do Estado do Amapá. Difundiremos aqui os artigos de nossa autoria já publicados, novos artigos e, contos, poesias e fotografias legendadas sobre cenários sócios-naturais do Estado do Amapá
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
LITERATURA
TELENOVELA MAE DO RIO*
1ª Parte – Telenovela Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
- Mas é claro que você só teve um filho, Rosa. Que diacho de arrumação é essa agora?Quase 18 anos depois, as palavras de Damiana ainda soavam recentes aos ouvidos de Rosa, sempre que se permitia parar um pouco de sua lida diária e contemplar o imenso Rio Amazonas. Observando sua filha Das Dores, já bem crescida e sendo olhada de relance pelos marinheiros, peixeiros e outros habitantes da Vila Maresia, onde moravam, Rosa sentia a brisa do rio misturada com o pitiú de peixes dos mais diversos tipos, que desembarcavam no porto ali próximo. Talvez sua mãe tivesse razão. Talvez tudo não tivesse passado de um sonho ruim, um pesadelo que teimava em voltar à sua mente quando a lua estava mais escura.Rosa lembrava perfeitamente da dor lacinante que sentiu no ventre, quando os nove meses se completaram e ela entrou em trabalho de parto. Estava bem perto de sua casa quando as dores vieram. Gritou pelo pai, Manduca, que tinha saído para pescar. As dores aumentavam, Rosa gritou pela mãe. Damiana veio correndo, a preocupação estampada nos olhos. Rosa lembra o olhar de desespero da mãe e logo mais atrás, como se já estivesse à espera, a parteira Generosa, fumando seu cachimbo de fumo de rolo, lenço amarrado na cabeça e rugas que pareciam pequenas estradas percorrendo o seu rosto. As duas mulheres, usando toda a força que o desespero pode proporcionar, sustentaram Rosa para que ela pudesse entrar no barraco e com cuidado a colocaram sobre a cama. E foi então que Rosa apagou, como se de repente nada no mundo mais existisse. Tanto tempo depois, observando os barcos das mais diversas cores ancorados no trapiche e vendo o pai tirar do porão de uma das embarcações suas cubas de peixes para serem entregues aos atravessadores, Rosa tentava refazer mentalmente aquela noite, conforme foi descobrindo aos poucos, a história vindo pedacinho por pedacinho, a muito custo.Manduca retirava suas redes de pesca enquanto o atravessador gritava para um e outro o preço que estava pagando pelo quilo do peixe e do camarão, que seriam depois levados para os frigoríficos da capital, ajudando a enriquecer comerciantes às custas da miséria dos pescadores. O preço a que vendiam o fruto de seu trabalho, mal dava para o sustento da família e para comprar uma nova rede de pesca de vez em quando. Manduca recebeu seu dinheiro, conferiu e viu que mais uma vez daria apenas para pagar as mercadorias que pegava fiado na venda do Seu Ari, única da vila, que parecia sempre estar à beira da falência, mas que por muitos anos matava a fome da sua família e de tantas outras que, em época de piracema, quando os peixes estão desovando e a pesca é proibida, não têm de onde tirar o sustento. O pescador calculava mentalmente suas despesas enquanto observava a filha, mais adiante, olhar distante no rio. Rosa parecia estar desligada do mundo. Seus olhos fitavam a imensidão das águas, o navio estrangeiro que passava levando manganês, ouro e madeira. Mais adiante, como se fossem pontinhos coloridos, as embarcações, balançando nas ondas como barquinhos de papel feitos pelas crianças em dias de chuva.Rosa era a única filha de Manduca. Damiana, sua esposa, nunca lhe dera um menino. E de Rosa nasceu Das Dores, ou Aparecida das Dores, seu nome de batismo. Manduca, sempre que voltava da pesca, levava algum agrado para a neta, fosse um peixe escolhido a dedo, fosse uma pulseira de miçanga comprada no regatão ou um doce de fruta oferecido por seu Ari, que ele não comia, embora estivesse com fome, e escondia cuidadosamente no bolso. Ele ainda lembrava muito bem o dia do nascimento da neta. Pouco antes, tinha ido à cantina do Seu Ari, levar alguns peixes para trocar por despesa. Seu Ari era um cearense que chegou em Vila Maresia há mais de 20 anos. Ali montou um comércio e, ao que parece, nunca mais pensou em voltar à sua terra natal, principalmente depois que a esposa foi embora, deixando com ele o único filho que tiveram. Naquela noite seu Ari limpava a cantina quando Manduca chegou.– Eh, Seu Ari, como vão os negócios?– Ei, Manduca, vamos entrando. Os negócios vão do jeito que você está vendo. Pouca gente e muito fiado. Trouxe peixe hoje?- Um pouquinho, né, Seu Ari, que o peixe tá meio fora de época. Mas o seu tá aqui, ó – disse Manduca, levantando uma cambada de piramutaba.– Esses tão bonito mesmo. Quanto é?– Não se preocupe não, que é o mesmo de sempre. A gente vai vendo o que falta em casa e vai trocando por açúcar, café, vai levando do jeito que Deus manda.– Eu sei bem como é. As coisas aqui estão ruins, mas lá pelas bandas da sua casa também não estão boas, principalmente agora, que a sua filha está quase parindo. É mais uma boca pra sustentar.– Se é, mas também, uma boca a mais, uma a menos, não há de fazer diferença. Eu quero ver é a família crescer, o meu neto correndo por aí...- E o pai, descobriu quem é?– Que nada. A Rosa não dá uma palavra sobre o assunto.– O pessoal da vila tá falando que é do boto.– Se é do boto eu não sei. O que eu sei, mesmo, é que eu vou criar esse menino. Se o pai aparecer, bem. Senão, não faz falta. Até, seu Ari.– Até, Manduca, e dá lembrança pra Dona Damiana. Manduca deixou seu Ari e enfrentou a noite de lua cheia que caía sobre a vila. Com cuidado, vasculhava com os olhos os pontos mais escuros, atento a qualquer ruído. Ele não tinha medo dos animais que habitavam os locais mais escondidos da vila. Onça, gato maracajá, cobras e outros bichos peçonhentos não o assustavam. Seus pensamentos estavam voltados para a Matinta Perera, assombração que deu de aparecer em Vila Maresia há alguns anos e já tinha assustado muita gente. Esta noite, no entanto, tudo parecia muito calmo. Até os pássaros noturnos permaneciam quietos nas árvores. Naquele exato momento, Rosa estava parindo. Damiana e Generosa providenciavam água quente, panos limpos e tesoura para cortar o cordão umbilical da criança. Rosa, embora com muita dor, parecia não entender o que estava acontecendo. O rosto crispado, o corpo banhado em suor, a respiração ofegante, o grito de dor e alívio misturando-se com o choro da criança que acabava de nascer. Generosa respirou aliviada. Rosa, cansada, sentiu que estava sendo levada pelo sono. Mas lá, no fundo de sua consciência, ainda parecia ouvir a voz da parteira Generosa.- Deus seja louvado. Nasceu o bebê! É uma menina! E olha só como é bonita. Toma, Damiana, segura tua neta, mulher, que eu ainda tenho que ver se está tudo certo com a mãe. Essas meninas estão tendo filho cada vez mais cedo. Daqui a pouco vão nascer parindo...– Eu que o diga, Generosa. E o pior é que a carga cai toda pra cima dos pais. Quem faz o filho, ó, se manda pra não sustentar. Às vezes eu acho que.... O que tu estás fazendo, Generosa?– Tem outro bebê aqui!– O que?– Tem outro bebê aqui, me ajuda!, traz mais água quente e panos limpos, rápido!Teria sido um sonho ou Rosa escutou mesmo o choro de uma outra criança? Rosa não sabia dizer. A única coisa que sabia e que tinha a mais profunda certeza é que o choro que ouviu foi de um menino. Uma certeza que a acompanharia para o resto de sua vida. Foi pensando nisso que voltou a adormecer profundamente. Acordou horas depois com a sensação de um vazio no coração, uma tristeza que teimava em crescer. No quarto iluminado apenas por uma lamparina e pela luz da lua que entrava pela janela, Rosa viu Damiana, com uma criança nos braços. – Mãe! Mãe!- Que foi, minha filha, não está passando bem? – Eu tive dois bebês, mamãe, cadê o meu outro filho?– Que outro filho, Rosa, tu tá variando ou o parto subiu pra tua cabeça? Acaba com a besteira, tu só teve esse filho aqui, ó. O que tu tem, Rosa? Para de chorar, segura um pouco tua filha.Manduca, que nesse momento já entrava pela porta da cozinha, com uma enfiada de Aracu, estranhou a tensão e o choro entre mãe e filha.- O que tá acontecendo aí, Damiana?– A Rosa acabou de parir.– Ué, então eu quero ver o meu neto. Quero ver se o caboquinho é macho mesmo igual ao avô.– Neto não, neta, que nasceu uma menina. E agora ela tá dizendo que teve dois filhos, eu não sei o que fazer, Manduca.- Te acalma, minha filha, foi só um sonho ruim... Ô Damiana, traz um caldo pra ela, que é pra dar mais leite nos peitos... Sossega, minha Rosa, às vezes a gente imagina coisas, mesmo.Manduca, de alguma forma, percebeu que havia algo errado naquela noite. Talvez estivesse influenciado pela viagem tensa na escuridão, da cantina do seu Ari até sua casa. Talvez a forma com que Damiana negou a outra criança, o choro de Rosa na certeza de terem nascido gêmeos, o fato é que a partir daí alguma coisa estava mudando dentro dele. O que Manduca não sabia é que naquele momento, nas correntezas leves do igarapé, um bote de madeira, sem remador, seguia sem rumo, vez em quando diminuindo a velocidade ao esbarrar nas tronqueiras dos mururés. E as horas iam passando, lentas, como se Deus não tivesse pressa de iniciar o dia.Aquela, particularmente, foi uma noite longa. Rosa chorava muito, lamentava-se e passou mal várias vezes. Mesmo de madrugada, Manduca ainda estava acordado, os olhos abertos na escuridão do quarto, um cansaço esquisito que não lhe permitia dormir. Podia ouvir nitidamente o som dos grilos lá fora, o uirapuru cantando triste no meio da floresta, as águas correndo no rio que passava mais adiante e o som dos botos tucuxis, guinchando e saltando por entre as correntezas. Damiana, deitada em uma rede próxima de Rosa, também não conseguia pregar o olho. Estava tensa, rezava de vez em quando, pedindo proteção à filha e à criança que acabara de nascer. Olhando Rosa, que só conseguiu dormir depois de umas boas xícaras de chá de cidreira e camomila, lembrava do diálogo que teve com Generosa. A parteira estava curiosa, afinal Rosa era uma menina direita, não era como tantas que ficam pela beira do cais se agarrando com os barqueiros. Tinha só 16 anos, não tinha namorado, não tinha amigos, vivia em casa, era realmente muito esquisito, dizia Generosa. Foi então que Damiana resolveu contar para a amiga a sina da filha.– Tu te alembra, Generosa, daquela festa no terreiro do compadre Alfredo?– Lembro, sim, que tem a festa? – indagou Generosa, cachimbo na boca. – Pois então. Foi de lá desta dita festa que a Rosa voltô de bucho.– Ora, Damiana, vai ver que ela ficou prenha foi de algum desses caboclos da vila, afinal não é novidade nenhuma isso acontecer por aqui.– Foi de barqueiro não. Eu vou te contar porque todo mundo está comentando mesmo e tu vai saber pela minha boca e não pela boca dos outros.
Escrito por César Bernardo de Souza às 13h22
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NOVELA MAE DO RIO*
2ª PARTE - Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
Então Damiana contou para a amiga o que a própria filha já havia lhe contado antes e que ela mesma custou a acreditar. Rosa tinha ido para a festa muito cedo, porque estava ajudando a mulher de Alfredo a preparar os comes e bebes. Depois que tudo estava pronto, arrumou-se com esmero, afinal, mesmo sendo muito pobre, gostava de andar bonita. Rosa, na festa, percebeu que os olhares de muitos homens estavam voltados para ela. Aos 16 anos, já era uma bela moça. De estatura média, sobressaía-se entre as outras meninas pela sua pele morena lustrosa, que lhe dava um aspecto bronzeado sem a necessidade de ficar exposta ao sol. O rosto redondo, os olhos castanhos e os cabelos muito negros, que lhe caíam até a altura dos ombros, contrastavam com o vestido vermelho que usava, presente de seu pai Manduca em uma das muitas vezes em que ele, economizando como podia, conseguia fazer compras no regatão. Rosa sabia que era bonita. Sabia também que já provocava desejo nos homens. Afinal, quando ia ajudar o pai a tirar alguma mercadoria do barco, sempre ouvia assobios dissimulados dos pescadores. Ela achava divertido, mas não dava trela.Rosa cresceu ouvindo a mãe contar histórias de fadas, príncipes encantados e princesas que encontravam sua grande paixão. Muitas das vezes, deitada na rede, à noite, ela ficava imaginando que qualquer dia surgiria por ali um homem muito bonito como os dos contos de fada que a mãe contava. Ao vê-lo, ela saberia na hora que aquele homem seria o grande amor de sua vida. E então eles viveriam felizes para sempre. Talvez por imaginar essas coisas, Rosa não respondia aos galanteios dos rapazotes que a cortejavam, também não vivia como suas amigas, batendo pernas para o outro lado da vila para paquerar os barqueiros ou os marinheiros vestidos de branco, que aportavam vez por outra por ali enquanto os navios estrangeiros eram abastecidos com minérios. Mas naquela noite, na festa de Alfredo, Rosa tinha uma sensação estranha, um sentimento esquisito dentro do peito, uma angústia que não sabia de onde vinha e nem porquê.A festa estava muito animada. A aparelhagem de som, vinda da capital, quase fazia tremer o terreiro, de tão potente que era. Estava tão bom que ela prontamente aceitou o convite de um rapaz para dançar, e depois de mais outro. Tinha muita facilidade de rodopiar pelo salão, as pernas, ágeis, acompanhando o par na coreografia do brega. Rosa se divertia aceitando o desafio das colegas para uma outra dança, os pares disputando quem gingava mais, quem inventava mais passos. A noite quente, as danças encarrilhadas e o cansaço levaram Rosa a afastar-se de seus amigos em busca de um lugar mais fresco. Quando deu por si estava na cabeça do trapiche, sentindo o vento agradável que vem com a maré cheia. Ao longe, Rosa observava as luzes dos barcos na escuridão da noite. Eram como pequenos vaga-lumes em meio ao grande rio Amazonas. Seu pai, com certeza, estava por ali, pescando com seus companheiros. Rosa, em pensamento, pediu proteção da mãe do rio para Manduca e para todos aqueles homens que buscavam o sustento para suas famílias.Do terreiro de Alfredo a música chegava ao trapiche, embalando os pensamentos de Rosa. Foi naquele momento, como se tivesse surgido do nada, que ele apareceu. Na cabeça do trapiche, um homem alto, muito bonito e perfumado, trajando paletó branco e chapéu de carnaúba, os olhos de um azul muito profundo. Esquisito agora que Rosa pensava nisso, descobrir que em nenhum momento ele tirara o chapéu, nem mesmo para cumprimentá-la. Rosa não perguntou seu nome. Sentia-se seduzida de uma forma avassaladora, atraída de uma maneira que nunca havia sentido antes. Não reclamou e nem tentou se desvencilhar quando aquele homem a pegou pela mão e desceu com ela até a areia da praia. Suas roupas, como que por magia, foram ficando no caminho, o primeiro beijo sufocado por tantos outros, cada vez mais ansiosos, mais sensuais, a urgência da entrega tornando-se insuportável, a primeira vez do fazer amor alcançando-a de forma arrebatadora, e repetindo-se mais e mais em uma noite que parecia não ter fim, até que, esgotados, dormiram abraçados na areia, a lua surgindo por entre os açaizais.O sol já estava nascendo e os pescadores retornavam com suas canoas, quando Rosa acordou, sozinha e nua, a maré enchendo e tocando-lhe os pés. Sentia um estranho gosto de mar na boca e no coração uma terrível certeza: estava grávida.Ainda nos primeiros meses de gravidez, enfrentando a fúria de Manduca e os interrogatórios de Damiana, Rosa percebeu que aquela gravidez não seria normal. As dores no ventre e os enjôos eram diários, sem intervalos, a família preocupada e buscando ajuda nos chás de ervas da Tia Zaide, única benzedeira da vila, que minoravam mas não impediam que os problemas voltassem.Foi por mero acaso que Rosa descobriu como fazer cessarem as dores. Certa vez, quando os alimentos já não se mantinham em seu estômago, quando o corpo apresentava uma fragilidade preocupante e já se tornava difícil manter a gravidez, Rosa resolveu ir até a beira do rio, mais para manter o corpo em movimento do que propriamente por outra razão. Então ela percebeu que quanto mais se aproximava das águas, as suas forças iam recuperando-se lentamente, as dores cessando, a ânsia de vômito desaparecendo por completo. Rosa descobriu ainda que naquele local a criança que estava em seu ventre parecia adquirir mais saúde. Era como se lhe afagassem o ventre, ninando a criança e transmitindo-lhe conforto e segurança. Daí em diante, os dias de Rosa foram sempre nas proximidades do rio. Os pais se preocupavam, reclamavam, advertiam para possíveis perigos, mas Rosa sabia que estava segura ali. Então seus pais, quando perceberam que sua saúde estava sendo restabelecida, pararam de implicar, guardando os temores para quando estivessem sozinhos, conversando sem Rosa ouvir. E assim se passaram os nove meses, até Rosa entrar em trabalho de parto.- Pois então, mana, a história é essa. Se é invenção dela, eu não posso dizer, porque não estava lá. Não é realmente uma história muito estranha?- Se é, bota estranha nisso – disse Generosa, antes de recolher seus apetrechos de parteira e retornar para sua casa, do outro lado da vila.(MÃE DO RIO - ROMANCE - JOSELI DIAS/GILVAM BORGES/ANGELA NUNES)
A COBRA SOFIA
Há muito tempo, em uma aldeia próxima à ilha de Santana, é que vivia Icorã, uma índia de olhos cor de mel e muito linda. A beleza da índia, incomparável entre todas as mulheres da tribo, transformava em suplício sua felicidade. É que pela formosura Icorã era cortejada pelos bravos, ao mesmo tempo em que estava destinada ao deus Tupã quando estivesse em idade apropriada. Prisioneira de sua beleza, a indiazinha vivia muito triste, raras vezes deixando a oca. Quando o fazia era para dirigir-se à beira de um grande lago, à noite, para contar à lua de seu sofrimento.Certa noite, enquanto banhava-se ao luar, Icorã foi avistada pelo boto Tucuxi, que perdeu-se de amores por ela. Transformando-se em um cisne, Tucuxi aproximou-se da indizinha, possuindo-a através de um encantamento. Meses depois Icorã sentiu a prenhez em suas entranhas e só então descobriu que aquele cisne lindo com quem brincara no lago era na verdade um boto.Mortificada de remorsos, Icorã embrenhou-se nas matas, permanecendo longe de tudo e de todos para ter a criança. Quando as dores vieram e a indiazinha teve seu rebento, deu-lhe o nome de Sofia e atirou a criança no lago, na esperança de que ela se afogasse e ninguém tomasse conhecimento de seu pecado. Depois retornou à aldeia, como se nada tivesse acontecido. O boto Tucuxi, arrependido do que fez, transformou a criança em uma cobra d’água, evitando assim a sua morte.Muito tempo passou e certo dia, quando Icorã encontrava-se à beira do grande lago, sentiu as águas se revolverem e viu quando uma cobra imensa, de estranhos olhos cor de mel, deixou seu refúgio. Era a cobra Sofia, que procurava águas mais profundas para acomodar-se. Os sulcos deixados durante o trajeto, dizem as lendas, formaram o Rio Matapi.Sofia, acreditam os mais antigos, parou para descansar onde hoje fica localizado o porto de Santana. Há alguns anos, uma grande parte da plataforma desabou. Dizem que foi a cobra Sofia que moveu-se durante o sono.
Escrito por César Bernardo de Souza às 13h09
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NOVELA MAE DO RIO*
3ª PARTE - Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
Joseli Dias – Do livro Mitos e Lendas do Amapá – 3ª Edição)
CORRENTEZAS (Joseli Dias)
Amanheceu e minha canoanavega tranqüilano seio das águasno meio do marNa minha canoaeu levo a esperançamulher e criançado meu navegarNas correntezas deste rioé que eu tiro meu sustentoé que eu lavo meus lamentosé que eu acho meu amorNas correntezas deste rionavegam meus pensamentosé que eu vivo meus momentosde alegria e de dorÊ, minha casa é o rioé minha canoaque volta, morenasó pra te buscarê, minha casa é o rioé minha estradaé minha moradacorrendo pro marNo rio encantadotem cobra Sofiatem boto que é homemque vai te emprenharE na pororocaa minha malocasumiu por encantolevada pro marNas correntezas deste rionasceram minhas criançasnasceu a minha esperançaque a vida vai melhorarEu levo a vida na minha canoao rio é minha estradaa vida é minha jornadanão saio deste lugar.
POROROCA DE PAIXÃO (Joseli Dias)
Meu amor você me tocaE a alegria que provocaDentro do meu coraçãoÉ tão grande que pareceA maré que aconteceNo começo de estaçãoÉ o rio transbordandoA correnteza aumentandoÉ água varrendo o chãoPororoca em nossa camaNa certeza de quem amaÉ pororoca de paixãoTeu amor é como um rioNo começo de estaçãoVai arrebentando terraVai arrebentando tudoDentro do meu coraçãoNosso amor é como um rioLeva tudo de arrastãoFaz tristeza em alegriaFaz a noite virar diaIluminando o coraçãoMeu amor você me dizQue ao meu lado é felizNão interessa a condiçãoSe na mesa a carne é poucaBasta um beijo em sua bocaPra alegrar seu coraçãoSe a tristeza se anunciaMe empresta a alegriaSe estou triste, tenho amorFrio a gente nem conheceJunto a gente se aqueceNem carece cobertor.Teu amor é como um rioNo começo de estaçãoVai arrebentando terraVai arrebentando tudoDentro do meu coraçãoNosso amor é como um rioLeva tudo de arrastãoFaz tristeza em alegriaFaz a noite virar diaIluminando o coração.
GATO E SAPATO (Joseli Dias)
Você me olha, me prende, me faz a cabeçaFinge que não me conhece se passa por mimMas sempre que pode, provoca, pois tem a certezaQue eu não resisto a um ataque direto, e assim...Você faz de gato e sapato com meus sentimentosVive em meus pensamentos, mas não quer saberSe às vezes eu rolo na cama chorando sozinhoSe fico acordado à noite pensando em vocêMe diz o que é que eu faço com meu coraçãoNão dá pra segurar essa minha paixãoSe não me quer não faça o que fez comigoSe eu não tenho o seu amor também não quero ser o seu amigoMe diz o que é que eu faço com meu coraçãoMe diga o que faço para ter vocêEu sonho acordado com os teus carinhosMesmo se eu ficar sozinho jamais vou te esquecer.
MULHER DA RUA (Joseli Dias)
Mulher da ruade seios duros,de coxas nuasLembra das noitesenluaradas,do manto frioda madrugada?Lembra do canto,lembra da luaquando passavasna minha rua?Lembra da Ruada Olariaonde deitadana grama friaa qualquer corpo tu te vendias?Lembra da escadae da sacadalembra da “loura”sempre geladacom “colarinho”que eu te trazia?Lembras das noitesno Sobradinhoonde vendiasos teus carinhosonde cobravaso teu michê?Foi muito antes,mulher da ruaque me viestesgingando os seiosme revolvendoem devaneiosnos sonhos loucosde ver-te nua.E o gramadoe a lua cheiaalumiandotua face nua?Aquela gramafoi nossa cama,mulher da rua.Foram suspirosentrelaçadosforam dois corposemaranhadosforam orgasmosloucos, gritadoscomo dois peitosapaixonados.Foram loucurasmulher da rua.Ainda lembroque certo diaa minha Ruada Olariaficou mais feiaficou sombriae naquela noitechorei magoado.Estava loucoapaixonadoe sem piedadete despedias.Tempos se foramsonhos morreramfilhos cresceramenvelheci.A realidadeagora é cruae pela vidaeu me perdi.Mas tu ficastesneste passadoque muitas vezesdesesperadopasso as noitesa relembrar.Ainda sintosaudades tuasdo teu gingadodas costas nuase fico às vezesa imaginarque a qualquer horana minha ruaquando à noitebrilhar a luamulher da ruatu vais passar.
Escrito por César Bernardo de Souza às 13h01
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24/09/2008
PARA LER NA FILA
O EMPRESARIO QUE SUMIU NA INTERNET
(Da Série: Para ler na fila)
César Bernardo de Souza
Macapá, 1999
Parte 1
Cipriano Latuf era um comerciante muito conhecido na região por causa do grande volume de negócios que realizava com boi gordo, era popular porque alem de estar sempre bem humorado não se negava ao atendimento a qualquer pessoa que lhe procurasse. Só não tolerava quem lhe ficava devendo indefinidamente.
Muitos outros grandes comerciantes e industriais mineiros consideravam-no dono de grande talento e potencial subaproveitados para o comércio. Parecia-lhes um desperdício ver aquele homem misturado à realidade de uma região tão atrasada, mesmo em um pais parado no tempo como o Brasil. As pessoas dali distanciavam-se muito pouco do primitivismo, usavam animais para o transporte, mantinham nos quintais boa parte do provimento alimentar, recorriam muito mais aos medicamentos caseiros do que ao balcão de farmácia e, quase realizavam todos os seus negócios na base do escambo.
Mesmo vivendo nesse meio Latuf progredia rapidamente, suas transações comerciais eram muito mais calcadas no comércio atacadista embora fosse comum vê-lo atendendo pessoalmente clientes varejistas que buscavam satisfazer suas necessidades mais comezinhas, de ultima hora.
Como de costume Latuf foi a Belo Horizonte realizar novos negócios, foi lá que "conheceu" efetivamente a Internet. É claro que já tinha ouvido falar desse fenômeno multimídia do fim do século mas até então não a tinha acessado. Navegar, não tinha ainda navegado.
Em Belo Horizonte a sua fama de grande comerciante já tinha se espalhado, quiseram convence-lo sobre as conveniências de informatizar os seus negócios e mais: coloca-los na Internet. Depois que ouviu sobre o quanto cresceriam seus lucros e mais de segurança para o seu dinheiro internauta e de quantos negócios ele mesmo poderia realizar " sem sair de casa", Latuf cedeu.
Na oportunidade, lá mesmo em Belo Horizonte fez contatos via Internet com alguns de seus clientes no Canadá, Japão, Estados Unidos, França, Itália e Brasil, ajudado que foi pelo escritório de informática NOVHORIZOMÁTICA, o mesmo que lhe venderia, instalaria, treinaria pessoal e manteria operacionalmente o novo escritório.
Os consultores que o atendiam, gente muito esperta, pediram informações especiais ao Latuf sobre seus clientes, nada muito alem de nomes, telefones, endereços e outros pequenos detalhes de identificação. Instalaram o Latuf em cadeira fofa e deram-se a navegar pela internet mundo afora, em poucos minutos os consultores ajudados de perto pelo Latuf organizaram uma adress list dos clientes indicados:
-Olha aí Latuf, todos os seus fornecedores tem um site na Internet. Vamos dar uma olhada em seus e-mails. Falta o seu.
Latuf, naturalmente, não entendia nada mais via a tela do computador ganhar vida à sai frente à medida que o operador digitava dábliodáabliodáblioqualquercoisapontocom , ou pontocompontobeerre ou pontogov ou pontonet.
-Pronto, o T.C. Wersteen está acessado, vejamos que produtos estão sendo lançados no mercado, seus preços, condições de pagamento, prazos de entrega, etc.
Imediatamente Cipriano Latuf passos a se chamar latuf@bol.com.br , desse momento em diante sua vida mudaria para sempre. Ali mesmo, bem acomodado na cadeira fofa, Latuf era um misto de criança e palhaço, dava pulinhos na cadeira alem de a todo instante abraçar efusivamente os três consultores que lhe proporcionavam tamanha felicidade. Quando ele pensou que já se empanturrara de internet, foi indagado:
-Sr. Latuf, gostaria de conversar com Mr. Scott? Ele está em Nova Iork, ficaria alegre com a sua cortesia.
Latuf e Scott conversaram como se fossem velhos amigos, a fisionomia de ambos estava na tela, pareciam joviais apesar de quarentões. O tradutor simultâneo, eletrônico, embasbacou Latuf no inicio da operação, depois serviu para expressar a Scott um velho descontentamento:
-Muita demora no pagamento, ô Scott. Não fosse a inflação brasileira, não poderia continuar com os nossos negócios. Você diminui os meus lucros.
-Okay Latuf, by by.
Depois, o embasbacado Latuf falou com o Sr. Nakamura, que estava em Korbe, no Japão. Fechou excelentes negócios com ele, seu talento para negociar lembrou-lhe recomendar a Nakamura o e-mail de Mr. Scott, com a proposição de se ocupar apenas um navio no mesmo contrato de frete, para trazer-lhes as próximas mercadorias do Japão e dos Estados Unidos até o Brasil. Antes que Nakamura o esnobasse, ele próprio sugeriu devolver no mesmo navio e mediante mesmo contrato de frete, carne bovina, mármore azul e soja, respectivamente para as empresa de Mr. Scott e Sr. Nakamura nos Estados Unidos e Japão.
Já à noitinha, quando Latuf deixou as dependências da NOVHORIZOMÁTICA sentia-se aliviado por ter ultimado negócios com os parceiros franceses, canadenses, italianos, e brasileiros "sem sair de casa".
Dali retornou para cidade mineira de Volta Grande, tendo por leitura de bordo um glossário de informática em bela encadernação, presente que o dr.Evandro metera-lhe debaixo do braço como brinde e reconhecimento pelo excelente negócio que fizeram, objetivando a instalação de estações de computadores, treinamento de pessoal e manutenção de todo sistema a ser instalado num prazo máximo de doze dias.
Latuf era um gênio, tinha excelente memória principalmente para números. Dizia-se na cidade que ele podia lembrar seis mil números, entre contas bancarias, placas de carros e telefones. Não esquecia de jeito nenhum as data dos aniversários de seu interesse, quantias que lhe deviam, volumes de mercadorias que movimentava no mês, mas para nomes não tinha tão boa memória assim.
Daí em diante Latuf começou a desaparecer das vistas das pessoas daquela pequena cidade, onde antes era visto por uma mesma pessoa dez q quinze vezes num mesmo dia. Não era mais visto porque não saía de casa,praticamente mudou-se para a saleta onde mandou instalar os computadores recém adquiridos. Quando ia ao banheiro levava o telefone celular e o not-book.
Saudalina, a empregada da casa a tantos anos passou à condição de porta voz do Latuf no período que ele se isolou completamente para se dedicar em tempo integral ao aprendizado necessário ao rápido domínio da maquina multimídia. A bondosa senhora, com mais de sessenta anos, recebia no portão principal de acesso à casa todas as demandas ao Sr. Latuf.
Pronto! Latuf já era um internauta de qualidade, a cidade inteira tinha visto chegar à sua casa aquelas tralhas todas, tantas peças estranhas e tanto isopor para a prevenção aos impactos danosos aos equipamentos durante o transporte rodoviário desde Belo Horizonte.
A garotada sempre criativa em tornar desafios em brincadeiras, imediatamente transformou em "neve" a montanha de isopor que se ia formando no depósito de quinquilharias do Latuf. É certo que a garotada, apesar do sol quente e do calor tropicalíssimo, arranjou uma brincadeira interessante, contagiando crianças de todos as idades que se viam correndo uma de encontro a outras com as mãos cheias de neve. Era bonito ver as crianças dominadas, quase transtornadas pela alegria, umas com os cabelos impregnados de pequenas partículas de neve, outras já muito suadas exibiam os corpos delicados pontilhados de pó de isopor.
Latuf assistia a toda essa algazarra, levado pelo bom coração que possuía deixava-se abstrair mostrando-se estático atrás da vidraça da janela do segundo pavimento da sua casa que dava para a rua onde acontecia a brincadeira das crianças. Parecia que estava no meio da garotada, imperceptivelmente soltava gritinhos junto com as crianças mais exaltadas, dava pulinhos sem tirar os pés do chão, esgava sorrizinhos quando pedaços da brincadeira com "neve" resultava em tombos espetaculares que não machucavam. Um tempo depois Latuf mandou instalar uma persiana naquela e noutras janelas por que não queria mais ser visto da rua, da mesma forma que não desejava mais deixar que a brincadeira das crianças quebrasse a sua concentração na navegação internáutica.
Com uma pequena providência aqui e outra grande ali, Latuf foi se isolando do mundo antigo, basicamente ele só podia ser visto pelos seus três últimos empregados, desde alguns dias atrás transformados em assessores. Sua vida já era quase virtual, dispensara vinte e nove empregados e tinha planos para dispensar os outros dois, o José Rafael e o Pedro Gomes.
A bem da verdade, os empregados não foram despedidos assim sem mais nem menos. Latuf já tinha sido penalizado pela Justiça do Trabalho, sentia pavor só de pensar em comparecer perante juizes e ainda ter que pagar indenizações que para ele era sempre absurdas. Assim, decidiu que seus empregados urbanos poderiam permanecer na folha de pagamentos desde que se transferissem para a lida diária nas fazendas de cria e engorda de gado. Homens e mulheres que quisessem aceitar o desafio dos currais poderiam continuar com ele, em caso contrario o pedido de dispensa restava com alternativa, um caminho pelo qual praticamente todos os seus antigos empregados , entre eles alguns bons amigos, caminharam de costa para o "novo" Latuf.
Para melhorar sempre mais o seu desempenho informático, Latuf se iniciou num linguajar muito estranho, misto de inglês, eletrônica e masoquismo. Até pouco antes se vocabulário era carregado em palavras como arroba, peso vivo, boi em pé, peso vivo, porção eviscerada, lote recém adquirido, lote da pronta entrega, partida refugada, nelore branco, pasto batido, cinco mil "boi"... Agora, apesar de ainda tropeçar um pouco nas palavras, Latuf perdia em palavras como compiler, compress, connect time, bridge, site, afress, planne, bounce, animation, anonymous, daendon, firewall,frame, gigabyte, gigaflops, hacker, host, marphing, quary, postmarste, talmet, Word Wide Web. Obviamente sabia-lhes os significados.
Latuf ficou muito mais rico, porém seu dinheiro era eletrônico e internauta, fazia tempo que não segurava nas mãos uma nota de cem dólares. Via internet ia a supermercados, recebia e pagava contas, movimentava-se nos grandes bancos nacionais e internacionais, ouvia e assistia shous de música nacional caipira e country americana, controlava a movimentação de gente e de bois nas suas varias fazendas e até estava "amando" pela telinha de cristal liquido.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h42
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PARA LER NO ÔNIBUS
CALCINHA FURADA
(Outro conto que lhe conto)
Autor: César Bernardo
Revisor: Paulo Roberto Bernardo
1ª Parte:
A ansiedade era o único ponto comum entre Gonzaga e Cristal, um
sentimento embaraçoso que ambos tentavam administrar horas antes do início da reunião mensal ordinária que se realizaria no Salão Oval da Cooperativa
Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó. Na manhã daquele dia se
definiria a permanência ou não de Gonzaga no posto de direção que ocupava na organização e se Cristal conseguiria o emprego tão esperado e necessário, na Divisão Especial de Produtos Dietéticos.
Por conta dessa tão grande ansiedade, ambos passaram acordados uma noite
nervosa, calorenta o suficiente para fazer-lhes subir a adrenalina para muito
além do suportável. Como se estivessem comandados pelos impulsos eletrônicos de um controle remoto, cada qual tomou ruas para caminhar sem rumos definidos. Cansados das caminhadas, foram se refestelar na janela dos seus apartamentos como que querendo espiar a madrugada chegar com algum bom sentimento novo e findar com a ansiedade que já os mergulhava numa espécie de solidão compartilhada.
Cristal não tinha uma janela aberta para os poucos encantos da pequena
cidade. Seus olhos, como que tentando escapar do vento frio que descia da
montanha varrendo para a sarjeta papeis miúdos e folhas secas que queriam
atapetar toda superfície da rua, só podiam ir até as paredes descascadas das
velhas carcaças dos prédios em frente. A rua das Escravas, comprida e
estreita, morta nas madrugadas, parecia mover-se-lhe debaixo dos pés.
Debruçada devagar sobre o batente largo da janela de duas folhas, as pernas
já adormecidas ao embalo do seu silêncio mais profundo, Cristal deixava
repassar em sua mente o filme em preto e branco da grande tragédia da sua
longa vida medida em exatos vinte e seis anos, quatro meses, dois dias e mais
as seis horas que a consumiam daquela maneira desde os primeiros minutos
daquele dia.
Muitas vezes e poucas horas entregues às lembranças, ela reviu as pernas
macérrimas que um dia se desnudaram bruscamente diante dela, dando forma a uma das mais violentas e bestiais atitudes que um homem é capaz de praticar
contra uma mulher. Ela que, atraída por uma possibilidade de empregar-se,
terminou estuprada e manchada pela bestilialidade humana.
Depois de tanto tempo, ainda sem entender direito como se viu encurralada
entre a surpresa e a barbaridade, não conhecia uma forma de perdão para
aquele indivíduo e nem sabia de onde tirara tanta força para suportar a vida
até ali.
Por causa da dor e da vergonha, Cristal gravou no fundo de sua memória a
imagem das pernas secas e do par de botas com todos aqueles detalhes que
bordavam as laterais dos canos altos, até quase aos joelhos. Dali em diante,
dominada pela impotência, decidiu que teria a vingança como a única meta da
sua vida e a tragédia como o seu maior segredo.
Gonzaga, como que querendo carícias da brisa matutina, abriu de vez as duas
folhas da janela grande debruçando-se sobre os seus remorsos mais
fortes. O que lhe vinha à mente com mais força, desde há muito tempo, era a
imagem da calcinha que lhe ficara como testemunho do gozo bestial que
conseguira num dia distante, quando subjugou cruelmente uma jovem mulher que tanta excitação lhe causara.
Lembrava-se bem de uma calcinha marrom de bordas brancas, com um orifício centro frontal grande o suficiente para deixar à vista boa parte da região púbica vaginal, como ele jamais tinha visto, razão pela qual trazia-a consigo depois de tanto tempo. Suas lembranças inconfessáveis misturavam-se com a certeza da impunidade. O anonimato em que se julgava convenientemente mergulhado fazia-o pensar que tudo corria a favor dos seus planos de poder na CCPLVC.
Chegou, em fim, o momento da reunião tão esperada. Na distribuição das
pessoas em seus assentos, o acaso colocou Gonzaga e Cristal frente a frente,
separados pela descomunal largura da mesa oval que dava nome ao salão
retangular. Não sabiam exatamente o que um significava para o outro.
Cristal mostrava-se mais contida, estava informada de que a reunião seria
longa, se estenderia muito em razão dos discursos que se sucederiam a partir
do Secretário Geral até o Presidente, estando entre os quais seis
vices-primeiros-presidentes e três subdiretores que, ainda bem, teriam
direito a um máximo de três minutos de pronunciamento, sem réplica.
Quanto a Gonzaga, parecia tratar-se de uma pedra. Nada se poderia perceber
ocorrendo em seu íntimo. Para ele seria mais uma reunião de rotina que viria
consolidar ainda mais a posição de mando que ocupava na empresa havia de seis anos. O futuro da hora seguinte não lhe deu nenhum aviso.
Num dado momento, reunião em andamento, foi ao chão a folha de pauta através da qual Cristal acompanhava os acontecimentos com a devida atenção.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h05
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PARA LER NO ÔNIBUS
Calcinha Furada - 2ª Parte
Discretamente afastou um pouco a cadeira que ocupava e abaixou-se devagar
para recolher o papel que lhe caíra quase ao pé. Foi quando, atraídos pelo
destino implacável, seus olhos foram pousar direto nas botas de couro
bordadas nas canos altos que calçavam os pés e escondiam as pernas secas do
sujeito em frente, do outro lado da mesa oval. Teve a certeza de ter
encontrado o que buscava: seu algoz. Não tremeu um só músculo do corpo e nem lhe traiu qualquer nervo. Apenas deixou que as lembranças amargas que trazia da vida dominassem por mais um segundo, cobrando-lhe o compromisso que tinha com a vingança. Ao mesmo tempo que via as botas e recolhia o papel do chão, veio-lhe a decisão de que a sua vingança não se adiaria mais um minuto sequer. Retomou a posição no assento e esperou.
Gonzaga, sem o aviso dos minutos seguintes, também foi ao chão por um motivo qualquer, com gesto passou imperceptível e sem a mínima importância para Cristal. Abaixado, avistou em frente o par de pernas abertas mostrando ao
fundo, lá no fundo, boa parte da região púbica vaginal através do orifício
central de uma calcinha marrom de bordas brancas, exatamente igual à que de
uns anos para cá levava no bolso e na consciência. Não se enervou nem tremeu qualquer músculo do seu corpo esquelético; apenas excitou-se
incontrolavelmente à vista daquelas pernas da mulher que estavam em seu
caminho pela segunda vez em busca de emprego.
Recomposto à mesa, deixou seu olhar cruzar com o de Cristal, a dona da
calcinha furada. Corria a língua de um canto a outro da boca lambendo os
lábios com a intenção de ser obsceno. Cristal recebeu a "carícia" com fingido
prazer enquanto fazia a sua arma passar do interior da bolsa para a mão
esquerda. Não deixou que seu olhar passasse a Gonzaga o último aviso.
Sob a mesa, Cristal cuidou da mira por muito tempo, quase imóvel. Gastou
nisso quase quinze segundos, queria ter a certeza de que quando atirasse
colocaria a bala bem entre os dois testículos, sem no entanto desejar que o
infame morresse de imediato. Também não queria que ele perdesse a fala por
causa da dor que lhe adviria com o furor da bala calibre 38, reservada a ele
desde o dia do estupro. No seu entender Gonzaga era uma besta em pele humana sem qualquer merecimento e que, portanto, tinha que uivar de dor quando a força total da sua vingança o atingisse da forma planejada. Quanto mais gritasse mais diminuiria nas entranhas de Cristal o sangramento, a vergonha e o nojo.
Então, assustador, ecoou o tiro seco e certeiro, tanto mais porque apanhou
ereto o pênis criminoso, desejoso de mais sevícias hediondas. Enquanto durou
a eternidade dos dois ou três primeiros segundos que se seguiram, Gonzaga
pareceu apenas assustado como os demais presentes. Não percebera ainda o
dreno aberto até o reto e o sangue que lhe empapava as calças à altura do
quadril.
Mesmo dominado pelo espanto e pela dor lancinante, Gonzaga ainda viveu os
segundos suficientes para perceber que o projétil lhe destruíra quase todo o
pênis, dilacerara inteiramente os dois testículo e seguira arruinando uma
infinidade de delicados vasos sangüíneos, nervos e músculos, de forma
irremediável. Certo de que chegava ao fim golpeado pela mão pesada da
vingança implacável que lhe oferecia a um só tempo realidade e dor
insuportáveis, aí uivou como a besta que era, repetiu o uivo mas não se mexeu
mais, nem os olhos nem os dedos. Foi tombando devagar até bater no colo da
morte.
- Essa desgraçada matou a nossa surpresa, ela sabia que o Dr. Gonzaga seria
escolhido o novo presidente da Cooperativa Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó - apontou-a berrando o descontrolado presidente que saía.
-Ela, esta maldita, atirou de propósito no piru dele. Infame, no piru dele
não devia - acorreu aos berros um tal vice-presidente, apossando-se da mesma
arma, com que disparou uma bala certeira na cabeça de Cristal.
Depois de se aproximar o máximo possível do que sobrou da face da morta,
ainda brandindo a arma, ele esclareceu:
- Ele era o meu homem, sua vaca.
Quando tudo voltou ao controle dos menos exaltados, foram encontradas as duas calcinhas, uma no bolso do Gonzaga bem perto do que sobrou do pênis e outra no corpo de Cristal, deixando escapar pelo orifício estranho uma mecha de pentelhos muito negros. Aí, as explicações já não eram mais necessárias:
foram crimes passionais.
Macapá
-Setembro/93
Escrito por César Bernardo de Souza às 11h58
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19/09/2008
PARA LER NA FILA
RAÍZES DA FARTURA
(OUTRO CONTO QUE LHE CONTO)
( César Bernardo )
Quem passasse naquele dia na estrada grande, a qualquer hora, mesmo que com toda atenção nos grandes e sucessivos buracos do leito da única via de acesso à cidade de Laranjal do Jari, mesmo que encantado com as arvores centenárias, principalmente as maçarandubeiras e ainda que as cutias cruzassem a estrada com a insistência habitual com que os animais silvestres faziam naquele trecho da estrada bem dentro da floresta, mesmo assim ouviriam o barulho de motores funcionando, crianças brincando, mulheres e homens tagarelando lá dentro da floresta à altura do médio rio Arapiranga.
Quem tomasse o ramal à esquerda logo junto ao enorme tronco da guarupeira, seguisse adiante até encontrar a primeira grande clareira, parecendo terra arrasada, logo encontraria os caminhões, os tratores e as famílias agricultoras da região como que num manifesto ruidoso de um sentimento novo, algo que as uniria de forma tão forte que até daria para ver.
Um tanto abaixo de onde os homens descarregavam o calcário e o adubo trazido pelos caminhões, também longe das maquinas agrícolas em aquecimento dos motores, as mulheres escolheram uma franja de bosque de capoeira para armarem a cozinha. Usando travessões sobre forquilhas, penduravam neles enormes caldeirões cheios de toucinho, charque, pés, orelhas e focinhos de porco, cosendo junto com feijão fradinho. Depois, acrescentando-se generosas porções de farinha de mandioca, tudo aquilo seria devorado por homens exaustos do trabalho com a terra, crianças alegremente inquietas e mulheres envaidecidas como nunca. Uma cantiga regional embalava toda esta movimentação: E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá - Já se vai o sol embora deixando o mundo sem luz. E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá – Que santinha é aquela toda cercada de flores .....
Eram ainda nove horas da manha quando a terra começou a ser preparada para receber o corretivo, a propriedade escolhida era a do Sr. Paulino Souza. À frente seguia o grande trator de esteira virando os troncos, os grande demais davam muito trabalho à maquina mas caiam mesmo assim e eram recolhidos pela pá carregadeira para dentro das caçambas dos caminhões basculantes. Os troncos menores eram empilhados nas laterais da área que se preparava para ser um grande roçado de mandioca. Depois vinha o trator arado sulcando fundo a terra arenosa e a seguir o trator gradeador pulverizando ainda mais a terra.
A dança das maquinas terminou o dia de trabalho deixando atrás uma mancha pardacenta na terra, que o técnico explicou como "calagem", para reduzir a acidez do solo.
Depois de quarenta e cinco dias a mesma máquina voltou para espalhar o adubo químico e mistura-lo ao solo com o passeio da grade de disco indo e vindo sobre a nova terra. O técnico explicou que em trinta dias a roca seria plantada.
Todo esse ritual repetiu-se nos outros sítios agrícolas da região do Arapiranga, as crianças, as mulheres, a feijoada, as máquinas e os homens não pararam numa mesma propriedade nos vinte e cinco dias de trabalho duro que se sucederam. Depois disso começaram os mutirões para o plantio das rocas, uma festa de mãos se cumprimentando, brandindo enxadas, sulcando a terra fresca, depositando ao fundo a estaca semente de vinte centímetros de cumprimento e cobrindo-as com uma porção calculada de terra. Tudo devidamente alinhado e perfeitamente obediente aos distanciamentos determinados pelo técnico agrícola entre uma cova e outra.
Passados oito meses, em meio a grande surpresa inicial, as plantas vigorosas começavam a perder as folhas. Era o sinal que eles tanto esperaram, indicando que as raízes estavam quase maduras.
Então recomeçaram os mutirões nas propriedades, na mesma ordem que foram realizados no preparo da terra. A novidade ficou desta vez, com as carroças puxadas por cavalos e burros, alinhadas uma atrás da outra em um dos lados do roçado num total de oito veículos atrelados a oito animais nem belos e nem fortes, apenas eqüinos e muares bem adestrados.
As mulheres mais jovens e as crianças participavam da festa da colheita brincando num terreirão que já se preparava ao lado da lavoura para receber a roça do próximo ano agrícola. As brincadeiras e os gritos de satisfação cresciam apesar do sol também ir-se esquentando forte e rapidamente.
À sombra do mesmo bosque de antes as mulheres esposas coziam outra grande feijoada, mas também assavam leitões e borregos e cuidavam da bebida fermentada dos maridos, mergulhando as garrafas na água fria do rio Arapiranga. O tempo poderia mudar para chuva, mas o sol brilhava sozinho naquele dia.
Quando chegou o momento de iniciar mesmo a grande colheita do ano de 2001, o ancião deu o comando para a oração da colheita da mandioca, de certa tradição na grande região sul do estado:
Ao Sol – disse o ancião, voltando-se para o leste.
Agradecemos senhor – os agricultores responderam, também voltados para o leste. Ao Vento – disse o ancião, voltando-se para o norte.
Agradecemos senhor, que não foi muito – os agricultores responderam também voltados para o norte. À Chuva – disse o ancião, voltando-se o sul.
- Bendizemos senhor, foi na medida - os agricultores responderam também voltados para o sul.
À Terra – disse o ancião, inclinando-se para o chão.
Agradecemos e bendizemos senhor - os agricultores responderam também se inclinando para o chão. Amém.
Terminada a oração da colheita, ao sinal do ancião o agricultor mais jovem arrancou a primeira planta. Devagar separou os tubérculos, depois pesou-os numa balança de gancho, conferiu a pesada com atenção, ergueu a voz e mandou fazer estaca semente da planta colhida.
Então, o jovem agricultor ergueu o paneiro com a mandioca colhida, orou em silêncio com os olhos fitos no céu e depois depositou os tubérculos aos pés do ancião. Este nada disse ao jovem agricultor, saiu caminhando numa direção que já conhecia até encontrar o que ele considerou a planta-mãe daquele sitio.
Encontrando-a, fez-lhe a marca azul, depois escolheu doze plantas em volta, marcando-as com tinta amarela. Ergue a voz e proclama-se, as treze plantas, incompatíveis com o fogo. Ordena o inicio efetivo da grande colheita.
A terra ainda fresca está escondendo uma espantosa produção de mandioca, algo inacreditável para a maioria daqueles agricultores que nunca tinham tido a experiência de tratar a terra para uma finalidade definida. Onde colhiam antes nove toneladas por hectare em dezoito meses, agora viam a terra parir vinte e cinco toneladas por hectare em apenas onze meses.
As raízes sobre o chão iam formando centenas de pequenos montes, logo recolhidos pelas crianças maiores, pelas meninas, pelos meninos e principalmente pelas mulheres esposas. A cantoria ia num aumentando conforme as centenas de montículos se juntavam para formar uma montanha de mandioca colhida.
A movimentação dessas pessoas lembrava um ataque de formigas saúvas devorando um roçado. Olhando-se de outra maneira, via-se a harmonia do trabalho organizado em hierarquia fluindo alegremente do interior da terra para o interior das carroças e delas aos caminhões estacionados na estrada vicinal de acesso ao sitio.
Depois de cheios, os caminhões com as presumíveis cento e vinte toneladas colhidas tomaram a estrada grande conduzindo a safra para a fabrica de farinha de mandioca, instalada num grande prédio na cidade de Laranjal do Jari.
No trecho em que a estrada cortava a grande floresta densa, os caminhões seguiam muito devagar por causa dos buracos e por causa das dezenas de placas educativas sinalizando o transito que, em resumo, mensageavam: "Dirija com cuidado – trafego intenso de veículos na colheita de mandioca".
Logo atrás dos caminhões vinham os agricultores da região, os donos da safra embarcada naquele comboio com destino à fabrica seguiam à frente dos caminhões em carro aberto, sobre a carroceria da camioneta, distribuindo cumprimentos às pessoas pelas quais passavam.
À entrada da cidade, depois da ultima ladeira estreita por demais carcomida pela voçoroca o comboio parou para se reorganizar. A partir dali as faixas alusivas à colheita de mandioca foram estendidas, os rojões foram distribuídos aos adultos orientados para detoná-los somente quando surgissem as primeiras casas da cidade propriamente dita. A rainha da safra/2000 foi alçada ao palanque construído para esse fim sobre a carroceria de um dos caminhões.
Ao longo de um trajeto calculado em cerca de seis quilômetros, A desembocar no pátio da fábrica, a população se acumulava de um lado e outro da grande Avenida Tancredo Neves. Cada pessoa que aplaudia os agricultores parecia ter a consciência de que a boa safra era, ao fim, uma distribuição de renda real que botava dinheiro no bolso dos agricultores e dos comerciantes, mas também diminuía muito o preço do alimento na mesa urbana. Porém aquele momento era uma oportunidade importante para a cidade homenagear o campo e demonstrar sua cota de respeito ao trabalhador rural que abastece as cidades com o seu trabalho.
Os caminhões encontraram os portões da fabrica já abertos, entraram e manobraram sem atropelos deixando espaço para o restante do comboio terminar de ocupar o pátio de estacionamento da fabrica.
Com as pessoas todas acomodadas, mas percebendo a grande movimentação de populares se acotovelando lá fora, na rua em frente, o diretor-presidente da cooperativa que gerenciava a fabrica de derivados da mandioca ordenou o processamento inicial da safra/2000.
Naturalmente que se tratava de um processamento simbólico, de extrema valia para os agricultores e empresários em geral. O seu ritual era nervoso porque tinha o objetivo de emitir sinais claros para o mercado de produtos derivados da mandioca, iniciando-se a partir dali uma avaliação qualitativa dos produtos obtidos que estimularia ou inibiria as manifestações culturais dos agricultores relativos ao cultivo da mandioca.
A um sinal do diretor-presidente da cooperativa os operários pararam as máquinas para que ele, passeando o olhar pela multidão, fizesse escolhas aleatórias:
O senhor será o provador da farinha.
Você jovem, será o provador de tapioca.
A senhora, por favor, seja a avaliadora do tucupi.
Num momento todos estavam a postos, cada qual tendo à frente um utensílio com os produtos a serem avaliados. Passados alguns minutos o diretor-presidente prossegue o ritual:
- Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a farinha fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000,do município de Laranjal do Jari ? = Excelente, senhor diretor. - Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a tapioca fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? =Excelente, senhor diretor.- Senhora avaliadora, qual o resultado da sua avaliação para o tucupi extraído da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? = Excelente, senhor diretor.
Parcimonioso, explorando ao máximo a ansiedade dos presentes, o diretor-presidente da cooperativa recebe o martelo de madeira das mãos do auxiliar, convoca o agricultor proprietário daquela primeira grande produção de mandioca e juntos sobem na carroceria de um caminhão deixado ali para esse fim. À quatro mãos, o martelo é batido:
A cooperativa compra toda a safra de mandioca do ano de 2000 colhida no município de Laranjal do Jari – diz o diretor-presidente. = Eu vendo a safra – diz o ancião representante simbólico de todos os agricultores. Aí o povo explode em festa, rojões, chapéus, cerveja e cachaça são jogados para o alto. Abraços, gritos e choros de alegria temperam a grande festa inaugural ao tempo de prosperidade agrícola que todo o vale do Jari passava a conhecer.
A partir desse dia desaparece do labor rural amapaense a figura do plantador de mandioca, dando lugar ao lavrador especialista em agricultura econômica.
FIM
Escrito por César Bernardo de Souza às 21h39
1ª Parte – Telenovela Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
- Mas é claro que você só teve um filho, Rosa. Que diacho de arrumação é essa agora?Quase 18 anos depois, as palavras de Damiana ainda soavam recentes aos ouvidos de Rosa, sempre que se permitia parar um pouco de sua lida diária e contemplar o imenso Rio Amazonas. Observando sua filha Das Dores, já bem crescida e sendo olhada de relance pelos marinheiros, peixeiros e outros habitantes da Vila Maresia, onde moravam, Rosa sentia a brisa do rio misturada com o pitiú de peixes dos mais diversos tipos, que desembarcavam no porto ali próximo. Talvez sua mãe tivesse razão. Talvez tudo não tivesse passado de um sonho ruim, um pesadelo que teimava em voltar à sua mente quando a lua estava mais escura.Rosa lembrava perfeitamente da dor lacinante que sentiu no ventre, quando os nove meses se completaram e ela entrou em trabalho de parto. Estava bem perto de sua casa quando as dores vieram. Gritou pelo pai, Manduca, que tinha saído para pescar. As dores aumentavam, Rosa gritou pela mãe. Damiana veio correndo, a preocupação estampada nos olhos. Rosa lembra o olhar de desespero da mãe e logo mais atrás, como se já estivesse à espera, a parteira Generosa, fumando seu cachimbo de fumo de rolo, lenço amarrado na cabeça e rugas que pareciam pequenas estradas percorrendo o seu rosto. As duas mulheres, usando toda a força que o desespero pode proporcionar, sustentaram Rosa para que ela pudesse entrar no barraco e com cuidado a colocaram sobre a cama. E foi então que Rosa apagou, como se de repente nada no mundo mais existisse. Tanto tempo depois, observando os barcos das mais diversas cores ancorados no trapiche e vendo o pai tirar do porão de uma das embarcações suas cubas de peixes para serem entregues aos atravessadores, Rosa tentava refazer mentalmente aquela noite, conforme foi descobrindo aos poucos, a história vindo pedacinho por pedacinho, a muito custo.Manduca retirava suas redes de pesca enquanto o atravessador gritava para um e outro o preço que estava pagando pelo quilo do peixe e do camarão, que seriam depois levados para os frigoríficos da capital, ajudando a enriquecer comerciantes às custas da miséria dos pescadores. O preço a que vendiam o fruto de seu trabalho, mal dava para o sustento da família e para comprar uma nova rede de pesca de vez em quando. Manduca recebeu seu dinheiro, conferiu e viu que mais uma vez daria apenas para pagar as mercadorias que pegava fiado na venda do Seu Ari, única da vila, que parecia sempre estar à beira da falência, mas que por muitos anos matava a fome da sua família e de tantas outras que, em época de piracema, quando os peixes estão desovando e a pesca é proibida, não têm de onde tirar o sustento. O pescador calculava mentalmente suas despesas enquanto observava a filha, mais adiante, olhar distante no rio. Rosa parecia estar desligada do mundo. Seus olhos fitavam a imensidão das águas, o navio estrangeiro que passava levando manganês, ouro e madeira. Mais adiante, como se fossem pontinhos coloridos, as embarcações, balançando nas ondas como barquinhos de papel feitos pelas crianças em dias de chuva.Rosa era a única filha de Manduca. Damiana, sua esposa, nunca lhe dera um menino. E de Rosa nasceu Das Dores, ou Aparecida das Dores, seu nome de batismo. Manduca, sempre que voltava da pesca, levava algum agrado para a neta, fosse um peixe escolhido a dedo, fosse uma pulseira de miçanga comprada no regatão ou um doce de fruta oferecido por seu Ari, que ele não comia, embora estivesse com fome, e escondia cuidadosamente no bolso. Ele ainda lembrava muito bem o dia do nascimento da neta. Pouco antes, tinha ido à cantina do Seu Ari, levar alguns peixes para trocar por despesa. Seu Ari era um cearense que chegou em Vila Maresia há mais de 20 anos. Ali montou um comércio e, ao que parece, nunca mais pensou em voltar à sua terra natal, principalmente depois que a esposa foi embora, deixando com ele o único filho que tiveram. Naquela noite seu Ari limpava a cantina quando Manduca chegou.– Eh, Seu Ari, como vão os negócios?– Ei, Manduca, vamos entrando. Os negócios vão do jeito que você está vendo. Pouca gente e muito fiado. Trouxe peixe hoje?- Um pouquinho, né, Seu Ari, que o peixe tá meio fora de época. Mas o seu tá aqui, ó – disse Manduca, levantando uma cambada de piramutaba.– Esses tão bonito mesmo. Quanto é?– Não se preocupe não, que é o mesmo de sempre. A gente vai vendo o que falta em casa e vai trocando por açúcar, café, vai levando do jeito que Deus manda.– Eu sei bem como é. As coisas aqui estão ruins, mas lá pelas bandas da sua casa também não estão boas, principalmente agora, que a sua filha está quase parindo. É mais uma boca pra sustentar.– Se é, mas também, uma boca a mais, uma a menos, não há de fazer diferença. Eu quero ver é a família crescer, o meu neto correndo por aí...- E o pai, descobriu quem é?– Que nada. A Rosa não dá uma palavra sobre o assunto.– O pessoal da vila tá falando que é do boto.– Se é do boto eu não sei. O que eu sei, mesmo, é que eu vou criar esse menino. Se o pai aparecer, bem. Senão, não faz falta. Até, seu Ari.– Até, Manduca, e dá lembrança pra Dona Damiana. Manduca deixou seu Ari e enfrentou a noite de lua cheia que caía sobre a vila. Com cuidado, vasculhava com os olhos os pontos mais escuros, atento a qualquer ruído. Ele não tinha medo dos animais que habitavam os locais mais escondidos da vila. Onça, gato maracajá, cobras e outros bichos peçonhentos não o assustavam. Seus pensamentos estavam voltados para a Matinta Perera, assombração que deu de aparecer em Vila Maresia há alguns anos e já tinha assustado muita gente. Esta noite, no entanto, tudo parecia muito calmo. Até os pássaros noturnos permaneciam quietos nas árvores. Naquele exato momento, Rosa estava parindo. Damiana e Generosa providenciavam água quente, panos limpos e tesoura para cortar o cordão umbilical da criança. Rosa, embora com muita dor, parecia não entender o que estava acontecendo. O rosto crispado, o corpo banhado em suor, a respiração ofegante, o grito de dor e alívio misturando-se com o choro da criança que acabava de nascer. Generosa respirou aliviada. Rosa, cansada, sentiu que estava sendo levada pelo sono. Mas lá, no fundo de sua consciência, ainda parecia ouvir a voz da parteira Generosa.- Deus seja louvado. Nasceu o bebê! É uma menina! E olha só como é bonita. Toma, Damiana, segura tua neta, mulher, que eu ainda tenho que ver se está tudo certo com a mãe. Essas meninas estão tendo filho cada vez mais cedo. Daqui a pouco vão nascer parindo...– Eu que o diga, Generosa. E o pior é que a carga cai toda pra cima dos pais. Quem faz o filho, ó, se manda pra não sustentar. Às vezes eu acho que.... O que tu estás fazendo, Generosa?– Tem outro bebê aqui!– O que?– Tem outro bebê aqui, me ajuda!, traz mais água quente e panos limpos, rápido!Teria sido um sonho ou Rosa escutou mesmo o choro de uma outra criança? Rosa não sabia dizer. A única coisa que sabia e que tinha a mais profunda certeza é que o choro que ouviu foi de um menino. Uma certeza que a acompanharia para o resto de sua vida. Foi pensando nisso que voltou a adormecer profundamente. Acordou horas depois com a sensação de um vazio no coração, uma tristeza que teimava em crescer. No quarto iluminado apenas por uma lamparina e pela luz da lua que entrava pela janela, Rosa viu Damiana, com uma criança nos braços. – Mãe! Mãe!- Que foi, minha filha, não está passando bem? – Eu tive dois bebês, mamãe, cadê o meu outro filho?– Que outro filho, Rosa, tu tá variando ou o parto subiu pra tua cabeça? Acaba com a besteira, tu só teve esse filho aqui, ó. O que tu tem, Rosa? Para de chorar, segura um pouco tua filha.Manduca, que nesse momento já entrava pela porta da cozinha, com uma enfiada de Aracu, estranhou a tensão e o choro entre mãe e filha.- O que tá acontecendo aí, Damiana?– A Rosa acabou de parir.– Ué, então eu quero ver o meu neto. Quero ver se o caboquinho é macho mesmo igual ao avô.– Neto não, neta, que nasceu uma menina. E agora ela tá dizendo que teve dois filhos, eu não sei o que fazer, Manduca.- Te acalma, minha filha, foi só um sonho ruim... Ô Damiana, traz um caldo pra ela, que é pra dar mais leite nos peitos... Sossega, minha Rosa, às vezes a gente imagina coisas, mesmo.Manduca, de alguma forma, percebeu que havia algo errado naquela noite. Talvez estivesse influenciado pela viagem tensa na escuridão, da cantina do seu Ari até sua casa. Talvez a forma com que Damiana negou a outra criança, o choro de Rosa na certeza de terem nascido gêmeos, o fato é que a partir daí alguma coisa estava mudando dentro dele. O que Manduca não sabia é que naquele momento, nas correntezas leves do igarapé, um bote de madeira, sem remador, seguia sem rumo, vez em quando diminuindo a velocidade ao esbarrar nas tronqueiras dos mururés. E as horas iam passando, lentas, como se Deus não tivesse pressa de iniciar o dia.Aquela, particularmente, foi uma noite longa. Rosa chorava muito, lamentava-se e passou mal várias vezes. Mesmo de madrugada, Manduca ainda estava acordado, os olhos abertos na escuridão do quarto, um cansaço esquisito que não lhe permitia dormir. Podia ouvir nitidamente o som dos grilos lá fora, o uirapuru cantando triste no meio da floresta, as águas correndo no rio que passava mais adiante e o som dos botos tucuxis, guinchando e saltando por entre as correntezas. Damiana, deitada em uma rede próxima de Rosa, também não conseguia pregar o olho. Estava tensa, rezava de vez em quando, pedindo proteção à filha e à criança que acabara de nascer. Olhando Rosa, que só conseguiu dormir depois de umas boas xícaras de chá de cidreira e camomila, lembrava do diálogo que teve com Generosa. A parteira estava curiosa, afinal Rosa era uma menina direita, não era como tantas que ficam pela beira do cais se agarrando com os barqueiros. Tinha só 16 anos, não tinha namorado, não tinha amigos, vivia em casa, era realmente muito esquisito, dizia Generosa. Foi então que Damiana resolveu contar para a amiga a sina da filha.– Tu te alembra, Generosa, daquela festa no terreiro do compadre Alfredo?– Lembro, sim, que tem a festa? – indagou Generosa, cachimbo na boca. – Pois então. Foi de lá desta dita festa que a Rosa voltô de bucho.– Ora, Damiana, vai ver que ela ficou prenha foi de algum desses caboclos da vila, afinal não é novidade nenhuma isso acontecer por aqui.– Foi de barqueiro não. Eu vou te contar porque todo mundo está comentando mesmo e tu vai saber pela minha boca e não pela boca dos outros.
Escrito por César Bernardo de Souza às 13h22
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NOVELA MAE DO RIO*
2ª PARTE - Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
Então Damiana contou para a amiga o que a própria filha já havia lhe contado antes e que ela mesma custou a acreditar. Rosa tinha ido para a festa muito cedo, porque estava ajudando a mulher de Alfredo a preparar os comes e bebes. Depois que tudo estava pronto, arrumou-se com esmero, afinal, mesmo sendo muito pobre, gostava de andar bonita. Rosa, na festa, percebeu que os olhares de muitos homens estavam voltados para ela. Aos 16 anos, já era uma bela moça. De estatura média, sobressaía-se entre as outras meninas pela sua pele morena lustrosa, que lhe dava um aspecto bronzeado sem a necessidade de ficar exposta ao sol. O rosto redondo, os olhos castanhos e os cabelos muito negros, que lhe caíam até a altura dos ombros, contrastavam com o vestido vermelho que usava, presente de seu pai Manduca em uma das muitas vezes em que ele, economizando como podia, conseguia fazer compras no regatão. Rosa sabia que era bonita. Sabia também que já provocava desejo nos homens. Afinal, quando ia ajudar o pai a tirar alguma mercadoria do barco, sempre ouvia assobios dissimulados dos pescadores. Ela achava divertido, mas não dava trela.Rosa cresceu ouvindo a mãe contar histórias de fadas, príncipes encantados e princesas que encontravam sua grande paixão. Muitas das vezes, deitada na rede, à noite, ela ficava imaginando que qualquer dia surgiria por ali um homem muito bonito como os dos contos de fada que a mãe contava. Ao vê-lo, ela saberia na hora que aquele homem seria o grande amor de sua vida. E então eles viveriam felizes para sempre. Talvez por imaginar essas coisas, Rosa não respondia aos galanteios dos rapazotes que a cortejavam, também não vivia como suas amigas, batendo pernas para o outro lado da vila para paquerar os barqueiros ou os marinheiros vestidos de branco, que aportavam vez por outra por ali enquanto os navios estrangeiros eram abastecidos com minérios. Mas naquela noite, na festa de Alfredo, Rosa tinha uma sensação estranha, um sentimento esquisito dentro do peito, uma angústia que não sabia de onde vinha e nem porquê.A festa estava muito animada. A aparelhagem de som, vinda da capital, quase fazia tremer o terreiro, de tão potente que era. Estava tão bom que ela prontamente aceitou o convite de um rapaz para dançar, e depois de mais outro. Tinha muita facilidade de rodopiar pelo salão, as pernas, ágeis, acompanhando o par na coreografia do brega. Rosa se divertia aceitando o desafio das colegas para uma outra dança, os pares disputando quem gingava mais, quem inventava mais passos. A noite quente, as danças encarrilhadas e o cansaço levaram Rosa a afastar-se de seus amigos em busca de um lugar mais fresco. Quando deu por si estava na cabeça do trapiche, sentindo o vento agradável que vem com a maré cheia. Ao longe, Rosa observava as luzes dos barcos na escuridão da noite. Eram como pequenos vaga-lumes em meio ao grande rio Amazonas. Seu pai, com certeza, estava por ali, pescando com seus companheiros. Rosa, em pensamento, pediu proteção da mãe do rio para Manduca e para todos aqueles homens que buscavam o sustento para suas famílias.Do terreiro de Alfredo a música chegava ao trapiche, embalando os pensamentos de Rosa. Foi naquele momento, como se tivesse surgido do nada, que ele apareceu. Na cabeça do trapiche, um homem alto, muito bonito e perfumado, trajando paletó branco e chapéu de carnaúba, os olhos de um azul muito profundo. Esquisito agora que Rosa pensava nisso, descobrir que em nenhum momento ele tirara o chapéu, nem mesmo para cumprimentá-la. Rosa não perguntou seu nome. Sentia-se seduzida de uma forma avassaladora, atraída de uma maneira que nunca havia sentido antes. Não reclamou e nem tentou se desvencilhar quando aquele homem a pegou pela mão e desceu com ela até a areia da praia. Suas roupas, como que por magia, foram ficando no caminho, o primeiro beijo sufocado por tantos outros, cada vez mais ansiosos, mais sensuais, a urgência da entrega tornando-se insuportável, a primeira vez do fazer amor alcançando-a de forma arrebatadora, e repetindo-se mais e mais em uma noite que parecia não ter fim, até que, esgotados, dormiram abraçados na areia, a lua surgindo por entre os açaizais.O sol já estava nascendo e os pescadores retornavam com suas canoas, quando Rosa acordou, sozinha e nua, a maré enchendo e tocando-lhe os pés. Sentia um estranho gosto de mar na boca e no coração uma terrível certeza: estava grávida.Ainda nos primeiros meses de gravidez, enfrentando a fúria de Manduca e os interrogatórios de Damiana, Rosa percebeu que aquela gravidez não seria normal. As dores no ventre e os enjôos eram diários, sem intervalos, a família preocupada e buscando ajuda nos chás de ervas da Tia Zaide, única benzedeira da vila, que minoravam mas não impediam que os problemas voltassem.Foi por mero acaso que Rosa descobriu como fazer cessarem as dores. Certa vez, quando os alimentos já não se mantinham em seu estômago, quando o corpo apresentava uma fragilidade preocupante e já se tornava difícil manter a gravidez, Rosa resolveu ir até a beira do rio, mais para manter o corpo em movimento do que propriamente por outra razão. Então ela percebeu que quanto mais se aproximava das águas, as suas forças iam recuperando-se lentamente, as dores cessando, a ânsia de vômito desaparecendo por completo. Rosa descobriu ainda que naquele local a criança que estava em seu ventre parecia adquirir mais saúde. Era como se lhe afagassem o ventre, ninando a criança e transmitindo-lhe conforto e segurança. Daí em diante, os dias de Rosa foram sempre nas proximidades do rio. Os pais se preocupavam, reclamavam, advertiam para possíveis perigos, mas Rosa sabia que estava segura ali. Então seus pais, quando perceberam que sua saúde estava sendo restabelecida, pararam de implicar, guardando os temores para quando estivessem sozinhos, conversando sem Rosa ouvir. E assim se passaram os nove meses, até Rosa entrar em trabalho de parto.- Pois então, mana, a história é essa. Se é invenção dela, eu não posso dizer, porque não estava lá. Não é realmente uma história muito estranha?- Se é, bota estranha nisso – disse Generosa, antes de recolher seus apetrechos de parteira e retornar para sua casa, do outro lado da vila.(MÃE DO RIO - ROMANCE - JOSELI DIAS/GILVAM BORGES/ANGELA NUNES)
A COBRA SOFIA
Há muito tempo, em uma aldeia próxima à ilha de Santana, é que vivia Icorã, uma índia de olhos cor de mel e muito linda. A beleza da índia, incomparável entre todas as mulheres da tribo, transformava em suplício sua felicidade. É que pela formosura Icorã era cortejada pelos bravos, ao mesmo tempo em que estava destinada ao deus Tupã quando estivesse em idade apropriada. Prisioneira de sua beleza, a indiazinha vivia muito triste, raras vezes deixando a oca. Quando o fazia era para dirigir-se à beira de um grande lago, à noite, para contar à lua de seu sofrimento.Certa noite, enquanto banhava-se ao luar, Icorã foi avistada pelo boto Tucuxi, que perdeu-se de amores por ela. Transformando-se em um cisne, Tucuxi aproximou-se da indizinha, possuindo-a através de um encantamento. Meses depois Icorã sentiu a prenhez em suas entranhas e só então descobriu que aquele cisne lindo com quem brincara no lago era na verdade um boto.Mortificada de remorsos, Icorã embrenhou-se nas matas, permanecendo longe de tudo e de todos para ter a criança. Quando as dores vieram e a indiazinha teve seu rebento, deu-lhe o nome de Sofia e atirou a criança no lago, na esperança de que ela se afogasse e ninguém tomasse conhecimento de seu pecado. Depois retornou à aldeia, como se nada tivesse acontecido. O boto Tucuxi, arrependido do que fez, transformou a criança em uma cobra d’água, evitando assim a sua morte.Muito tempo passou e certo dia, quando Icorã encontrava-se à beira do grande lago, sentiu as águas se revolverem e viu quando uma cobra imensa, de estranhos olhos cor de mel, deixou seu refúgio. Era a cobra Sofia, que procurava águas mais profundas para acomodar-se. Os sulcos deixados durante o trajeto, dizem as lendas, formaram o Rio Matapi.Sofia, acreditam os mais antigos, parou para descansar onde hoje fica localizado o porto de Santana. Há alguns anos, uma grande parte da plataforma desabou. Dizem que foi a cobra Sofia que moveu-se durante o sono.
Escrito por César Bernardo de Souza às 13h09
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NOVELA MAE DO RIO*
3ª PARTE - Escrita, produzida e exibida em Macapá.*
1º Capitulo
Joseli Dias – Do livro Mitos e Lendas do Amapá – 3ª Edição)
CORRENTEZAS (Joseli Dias)
Amanheceu e minha canoanavega tranqüilano seio das águasno meio do marNa minha canoaeu levo a esperançamulher e criançado meu navegarNas correntezas deste rioé que eu tiro meu sustentoé que eu lavo meus lamentosé que eu acho meu amorNas correntezas deste rionavegam meus pensamentosé que eu vivo meus momentosde alegria e de dorÊ, minha casa é o rioé minha canoaque volta, morenasó pra te buscarê, minha casa é o rioé minha estradaé minha moradacorrendo pro marNo rio encantadotem cobra Sofiatem boto que é homemque vai te emprenharE na pororocaa minha malocasumiu por encantolevada pro marNas correntezas deste rionasceram minhas criançasnasceu a minha esperançaque a vida vai melhorarEu levo a vida na minha canoao rio é minha estradaa vida é minha jornadanão saio deste lugar.
POROROCA DE PAIXÃO (Joseli Dias)
Meu amor você me tocaE a alegria que provocaDentro do meu coraçãoÉ tão grande que pareceA maré que aconteceNo começo de estaçãoÉ o rio transbordandoA correnteza aumentandoÉ água varrendo o chãoPororoca em nossa camaNa certeza de quem amaÉ pororoca de paixãoTeu amor é como um rioNo começo de estaçãoVai arrebentando terraVai arrebentando tudoDentro do meu coraçãoNosso amor é como um rioLeva tudo de arrastãoFaz tristeza em alegriaFaz a noite virar diaIluminando o coraçãoMeu amor você me dizQue ao meu lado é felizNão interessa a condiçãoSe na mesa a carne é poucaBasta um beijo em sua bocaPra alegrar seu coraçãoSe a tristeza se anunciaMe empresta a alegriaSe estou triste, tenho amorFrio a gente nem conheceJunto a gente se aqueceNem carece cobertor.Teu amor é como um rioNo começo de estaçãoVai arrebentando terraVai arrebentando tudoDentro do meu coraçãoNosso amor é como um rioLeva tudo de arrastãoFaz tristeza em alegriaFaz a noite virar diaIluminando o coração.
GATO E SAPATO (Joseli Dias)
Você me olha, me prende, me faz a cabeçaFinge que não me conhece se passa por mimMas sempre que pode, provoca, pois tem a certezaQue eu não resisto a um ataque direto, e assim...Você faz de gato e sapato com meus sentimentosVive em meus pensamentos, mas não quer saberSe às vezes eu rolo na cama chorando sozinhoSe fico acordado à noite pensando em vocêMe diz o que é que eu faço com meu coraçãoNão dá pra segurar essa minha paixãoSe não me quer não faça o que fez comigoSe eu não tenho o seu amor também não quero ser o seu amigoMe diz o que é que eu faço com meu coraçãoMe diga o que faço para ter vocêEu sonho acordado com os teus carinhosMesmo se eu ficar sozinho jamais vou te esquecer.
MULHER DA RUA (Joseli Dias)
Mulher da ruade seios duros,de coxas nuasLembra das noitesenluaradas,do manto frioda madrugada?Lembra do canto,lembra da luaquando passavasna minha rua?Lembra da Ruada Olariaonde deitadana grama friaa qualquer corpo tu te vendias?Lembra da escadae da sacadalembra da “loura”sempre geladacom “colarinho”que eu te trazia?Lembras das noitesno Sobradinhoonde vendiasos teus carinhosonde cobravaso teu michê?Foi muito antes,mulher da ruaque me viestesgingando os seiosme revolvendoem devaneiosnos sonhos loucosde ver-te nua.E o gramadoe a lua cheiaalumiandotua face nua?Aquela gramafoi nossa cama,mulher da rua.Foram suspirosentrelaçadosforam dois corposemaranhadosforam orgasmosloucos, gritadoscomo dois peitosapaixonados.Foram loucurasmulher da rua.Ainda lembroque certo diaa minha Ruada Olariaficou mais feiaficou sombriae naquela noitechorei magoado.Estava loucoapaixonadoe sem piedadete despedias.Tempos se foramsonhos morreramfilhos cresceramenvelheci.A realidadeagora é cruae pela vidaeu me perdi.Mas tu ficastesneste passadoque muitas vezesdesesperadopasso as noitesa relembrar.Ainda sintosaudades tuasdo teu gingadodas costas nuase fico às vezesa imaginarque a qualquer horana minha ruaquando à noitebrilhar a luamulher da ruatu vais passar.
Escrito por César Bernardo de Souza às 13h01
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24/09/2008
PARA LER NA FILA
O EMPRESARIO QUE SUMIU NA INTERNET
(Da Série: Para ler na fila)
César Bernardo de Souza
Macapá, 1999
Parte 1
Cipriano Latuf era um comerciante muito conhecido na região por causa do grande volume de negócios que realizava com boi gordo, era popular porque alem de estar sempre bem humorado não se negava ao atendimento a qualquer pessoa que lhe procurasse. Só não tolerava quem lhe ficava devendo indefinidamente.
Muitos outros grandes comerciantes e industriais mineiros consideravam-no dono de grande talento e potencial subaproveitados para o comércio. Parecia-lhes um desperdício ver aquele homem misturado à realidade de uma região tão atrasada, mesmo em um pais parado no tempo como o Brasil. As pessoas dali distanciavam-se muito pouco do primitivismo, usavam animais para o transporte, mantinham nos quintais boa parte do provimento alimentar, recorriam muito mais aos medicamentos caseiros do que ao balcão de farmácia e, quase realizavam todos os seus negócios na base do escambo.
Mesmo vivendo nesse meio Latuf progredia rapidamente, suas transações comerciais eram muito mais calcadas no comércio atacadista embora fosse comum vê-lo atendendo pessoalmente clientes varejistas que buscavam satisfazer suas necessidades mais comezinhas, de ultima hora.
Como de costume Latuf foi a Belo Horizonte realizar novos negócios, foi lá que "conheceu" efetivamente a Internet. É claro que já tinha ouvido falar desse fenômeno multimídia do fim do século mas até então não a tinha acessado. Navegar, não tinha ainda navegado.
Em Belo Horizonte a sua fama de grande comerciante já tinha se espalhado, quiseram convence-lo sobre as conveniências de informatizar os seus negócios e mais: coloca-los na Internet. Depois que ouviu sobre o quanto cresceriam seus lucros e mais de segurança para o seu dinheiro internauta e de quantos negócios ele mesmo poderia realizar " sem sair de casa", Latuf cedeu.
Na oportunidade, lá mesmo em Belo Horizonte fez contatos via Internet com alguns de seus clientes no Canadá, Japão, Estados Unidos, França, Itália e Brasil, ajudado que foi pelo escritório de informática NOVHORIZOMÁTICA, o mesmo que lhe venderia, instalaria, treinaria pessoal e manteria operacionalmente o novo escritório.
Os consultores que o atendiam, gente muito esperta, pediram informações especiais ao Latuf sobre seus clientes, nada muito alem de nomes, telefones, endereços e outros pequenos detalhes de identificação. Instalaram o Latuf em cadeira fofa e deram-se a navegar pela internet mundo afora, em poucos minutos os consultores ajudados de perto pelo Latuf organizaram uma adress list dos clientes indicados:
-Olha aí Latuf, todos os seus fornecedores tem um site na Internet. Vamos dar uma olhada em seus e-mails. Falta o seu.
Latuf, naturalmente, não entendia nada mais via a tela do computador ganhar vida à sai frente à medida que o operador digitava dábliodáabliodáblioqualquercoisapontocom , ou pontocompontobeerre ou pontogov ou pontonet.
-Pronto, o T.C. Wersteen está acessado, vejamos que produtos estão sendo lançados no mercado, seus preços, condições de pagamento, prazos de entrega, etc.
Imediatamente Cipriano Latuf passos a se chamar latuf@bol.com.br , desse momento em diante sua vida mudaria para sempre. Ali mesmo, bem acomodado na cadeira fofa, Latuf era um misto de criança e palhaço, dava pulinhos na cadeira alem de a todo instante abraçar efusivamente os três consultores que lhe proporcionavam tamanha felicidade. Quando ele pensou que já se empanturrara de internet, foi indagado:
-Sr. Latuf, gostaria de conversar com Mr. Scott? Ele está em Nova Iork, ficaria alegre com a sua cortesia.
Latuf e Scott conversaram como se fossem velhos amigos, a fisionomia de ambos estava na tela, pareciam joviais apesar de quarentões. O tradutor simultâneo, eletrônico, embasbacou Latuf no inicio da operação, depois serviu para expressar a Scott um velho descontentamento:
-Muita demora no pagamento, ô Scott. Não fosse a inflação brasileira, não poderia continuar com os nossos negócios. Você diminui os meus lucros.
-Okay Latuf, by by.
Depois, o embasbacado Latuf falou com o Sr. Nakamura, que estava em Korbe, no Japão. Fechou excelentes negócios com ele, seu talento para negociar lembrou-lhe recomendar a Nakamura o e-mail de Mr. Scott, com a proposição de se ocupar apenas um navio no mesmo contrato de frete, para trazer-lhes as próximas mercadorias do Japão e dos Estados Unidos até o Brasil. Antes que Nakamura o esnobasse, ele próprio sugeriu devolver no mesmo navio e mediante mesmo contrato de frete, carne bovina, mármore azul e soja, respectivamente para as empresa de Mr. Scott e Sr. Nakamura nos Estados Unidos e Japão.
Já à noitinha, quando Latuf deixou as dependências da NOVHORIZOMÁTICA sentia-se aliviado por ter ultimado negócios com os parceiros franceses, canadenses, italianos, e brasileiros "sem sair de casa".
Dali retornou para cidade mineira de Volta Grande, tendo por leitura de bordo um glossário de informática em bela encadernação, presente que o dr.Evandro metera-lhe debaixo do braço como brinde e reconhecimento pelo excelente negócio que fizeram, objetivando a instalação de estações de computadores, treinamento de pessoal e manutenção de todo sistema a ser instalado num prazo máximo de doze dias.
Latuf era um gênio, tinha excelente memória principalmente para números. Dizia-se na cidade que ele podia lembrar seis mil números, entre contas bancarias, placas de carros e telefones. Não esquecia de jeito nenhum as data dos aniversários de seu interesse, quantias que lhe deviam, volumes de mercadorias que movimentava no mês, mas para nomes não tinha tão boa memória assim.
Daí em diante Latuf começou a desaparecer das vistas das pessoas daquela pequena cidade, onde antes era visto por uma mesma pessoa dez q quinze vezes num mesmo dia. Não era mais visto porque não saía de casa,praticamente mudou-se para a saleta onde mandou instalar os computadores recém adquiridos. Quando ia ao banheiro levava o telefone celular e o not-book.
Saudalina, a empregada da casa a tantos anos passou à condição de porta voz do Latuf no período que ele se isolou completamente para se dedicar em tempo integral ao aprendizado necessário ao rápido domínio da maquina multimídia. A bondosa senhora, com mais de sessenta anos, recebia no portão principal de acesso à casa todas as demandas ao Sr. Latuf.
Pronto! Latuf já era um internauta de qualidade, a cidade inteira tinha visto chegar à sua casa aquelas tralhas todas, tantas peças estranhas e tanto isopor para a prevenção aos impactos danosos aos equipamentos durante o transporte rodoviário desde Belo Horizonte.
A garotada sempre criativa em tornar desafios em brincadeiras, imediatamente transformou em "neve" a montanha de isopor que se ia formando no depósito de quinquilharias do Latuf. É certo que a garotada, apesar do sol quente e do calor tropicalíssimo, arranjou uma brincadeira interessante, contagiando crianças de todos as idades que se viam correndo uma de encontro a outras com as mãos cheias de neve. Era bonito ver as crianças dominadas, quase transtornadas pela alegria, umas com os cabelos impregnados de pequenas partículas de neve, outras já muito suadas exibiam os corpos delicados pontilhados de pó de isopor.
Latuf assistia a toda essa algazarra, levado pelo bom coração que possuía deixava-se abstrair mostrando-se estático atrás da vidraça da janela do segundo pavimento da sua casa que dava para a rua onde acontecia a brincadeira das crianças. Parecia que estava no meio da garotada, imperceptivelmente soltava gritinhos junto com as crianças mais exaltadas, dava pulinhos sem tirar os pés do chão, esgava sorrizinhos quando pedaços da brincadeira com "neve" resultava em tombos espetaculares que não machucavam. Um tempo depois Latuf mandou instalar uma persiana naquela e noutras janelas por que não queria mais ser visto da rua, da mesma forma que não desejava mais deixar que a brincadeira das crianças quebrasse a sua concentração na navegação internáutica.
Com uma pequena providência aqui e outra grande ali, Latuf foi se isolando do mundo antigo, basicamente ele só podia ser visto pelos seus três últimos empregados, desde alguns dias atrás transformados em assessores. Sua vida já era quase virtual, dispensara vinte e nove empregados e tinha planos para dispensar os outros dois, o José Rafael e o Pedro Gomes.
A bem da verdade, os empregados não foram despedidos assim sem mais nem menos. Latuf já tinha sido penalizado pela Justiça do Trabalho, sentia pavor só de pensar em comparecer perante juizes e ainda ter que pagar indenizações que para ele era sempre absurdas. Assim, decidiu que seus empregados urbanos poderiam permanecer na folha de pagamentos desde que se transferissem para a lida diária nas fazendas de cria e engorda de gado. Homens e mulheres que quisessem aceitar o desafio dos currais poderiam continuar com ele, em caso contrario o pedido de dispensa restava com alternativa, um caminho pelo qual praticamente todos os seus antigos empregados , entre eles alguns bons amigos, caminharam de costa para o "novo" Latuf.
Para melhorar sempre mais o seu desempenho informático, Latuf se iniciou num linguajar muito estranho, misto de inglês, eletrônica e masoquismo. Até pouco antes se vocabulário era carregado em palavras como arroba, peso vivo, boi em pé, peso vivo, porção eviscerada, lote recém adquirido, lote da pronta entrega, partida refugada, nelore branco, pasto batido, cinco mil "boi"... Agora, apesar de ainda tropeçar um pouco nas palavras, Latuf perdia em palavras como compiler, compress, connect time, bridge, site, afress, planne, bounce, animation, anonymous, daendon, firewall,frame, gigabyte, gigaflops, hacker, host, marphing, quary, postmarste, talmet, Word Wide Web. Obviamente sabia-lhes os significados.
Latuf ficou muito mais rico, porém seu dinheiro era eletrônico e internauta, fazia tempo que não segurava nas mãos uma nota de cem dólares. Via internet ia a supermercados, recebia e pagava contas, movimentava-se nos grandes bancos nacionais e internacionais, ouvia e assistia shous de música nacional caipira e country americana, controlava a movimentação de gente e de bois nas suas varias fazendas e até estava "amando" pela telinha de cristal liquido.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h42
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PARA LER NO ÔNIBUS
CALCINHA FURADA
(Outro conto que lhe conto)
Autor: César Bernardo
Revisor: Paulo Roberto Bernardo
1ª Parte:
A ansiedade era o único ponto comum entre Gonzaga e Cristal, um
sentimento embaraçoso que ambos tentavam administrar horas antes do início da reunião mensal ordinária que se realizaria no Salão Oval da Cooperativa
Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó. Na manhã daquele dia se
definiria a permanência ou não de Gonzaga no posto de direção que ocupava na organização e se Cristal conseguiria o emprego tão esperado e necessário, na Divisão Especial de Produtos Dietéticos.
Por conta dessa tão grande ansiedade, ambos passaram acordados uma noite
nervosa, calorenta o suficiente para fazer-lhes subir a adrenalina para muito
além do suportável. Como se estivessem comandados pelos impulsos eletrônicos de um controle remoto, cada qual tomou ruas para caminhar sem rumos definidos. Cansados das caminhadas, foram se refestelar na janela dos seus apartamentos como que querendo espiar a madrugada chegar com algum bom sentimento novo e findar com a ansiedade que já os mergulhava numa espécie de solidão compartilhada.
Cristal não tinha uma janela aberta para os poucos encantos da pequena
cidade. Seus olhos, como que tentando escapar do vento frio que descia da
montanha varrendo para a sarjeta papeis miúdos e folhas secas que queriam
atapetar toda superfície da rua, só podiam ir até as paredes descascadas das
velhas carcaças dos prédios em frente. A rua das Escravas, comprida e
estreita, morta nas madrugadas, parecia mover-se-lhe debaixo dos pés.
Debruçada devagar sobre o batente largo da janela de duas folhas, as pernas
já adormecidas ao embalo do seu silêncio mais profundo, Cristal deixava
repassar em sua mente o filme em preto e branco da grande tragédia da sua
longa vida medida em exatos vinte e seis anos, quatro meses, dois dias e mais
as seis horas que a consumiam daquela maneira desde os primeiros minutos
daquele dia.
Muitas vezes e poucas horas entregues às lembranças, ela reviu as pernas
macérrimas que um dia se desnudaram bruscamente diante dela, dando forma a uma das mais violentas e bestiais atitudes que um homem é capaz de praticar
contra uma mulher. Ela que, atraída por uma possibilidade de empregar-se,
terminou estuprada e manchada pela bestilialidade humana.
Depois de tanto tempo, ainda sem entender direito como se viu encurralada
entre a surpresa e a barbaridade, não conhecia uma forma de perdão para
aquele indivíduo e nem sabia de onde tirara tanta força para suportar a vida
até ali.
Por causa da dor e da vergonha, Cristal gravou no fundo de sua memória a
imagem das pernas secas e do par de botas com todos aqueles detalhes que
bordavam as laterais dos canos altos, até quase aos joelhos. Dali em diante,
dominada pela impotência, decidiu que teria a vingança como a única meta da
sua vida e a tragédia como o seu maior segredo.
Gonzaga, como que querendo carícias da brisa matutina, abriu de vez as duas
folhas da janela grande debruçando-se sobre os seus remorsos mais
fortes. O que lhe vinha à mente com mais força, desde há muito tempo, era a
imagem da calcinha que lhe ficara como testemunho do gozo bestial que
conseguira num dia distante, quando subjugou cruelmente uma jovem mulher que tanta excitação lhe causara.
Lembrava-se bem de uma calcinha marrom de bordas brancas, com um orifício centro frontal grande o suficiente para deixar à vista boa parte da região púbica vaginal, como ele jamais tinha visto, razão pela qual trazia-a consigo depois de tanto tempo. Suas lembranças inconfessáveis misturavam-se com a certeza da impunidade. O anonimato em que se julgava convenientemente mergulhado fazia-o pensar que tudo corria a favor dos seus planos de poder na CCPLVC.
Chegou, em fim, o momento da reunião tão esperada. Na distribuição das
pessoas em seus assentos, o acaso colocou Gonzaga e Cristal frente a frente,
separados pela descomunal largura da mesa oval que dava nome ao salão
retangular. Não sabiam exatamente o que um significava para o outro.
Cristal mostrava-se mais contida, estava informada de que a reunião seria
longa, se estenderia muito em razão dos discursos que se sucederiam a partir
do Secretário Geral até o Presidente, estando entre os quais seis
vices-primeiros-presidentes e três subdiretores que, ainda bem, teriam
direito a um máximo de três minutos de pronunciamento, sem réplica.
Quanto a Gonzaga, parecia tratar-se de uma pedra. Nada se poderia perceber
ocorrendo em seu íntimo. Para ele seria mais uma reunião de rotina que viria
consolidar ainda mais a posição de mando que ocupava na empresa havia de seis anos. O futuro da hora seguinte não lhe deu nenhum aviso.
Num dado momento, reunião em andamento, foi ao chão a folha de pauta através da qual Cristal acompanhava os acontecimentos com a devida atenção.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h05
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PARA LER NO ÔNIBUS
Calcinha Furada - 2ª Parte
Discretamente afastou um pouco a cadeira que ocupava e abaixou-se devagar
para recolher o papel que lhe caíra quase ao pé. Foi quando, atraídos pelo
destino implacável, seus olhos foram pousar direto nas botas de couro
bordadas nas canos altos que calçavam os pés e escondiam as pernas secas do
sujeito em frente, do outro lado da mesa oval. Teve a certeza de ter
encontrado o que buscava: seu algoz. Não tremeu um só músculo do corpo e nem lhe traiu qualquer nervo. Apenas deixou que as lembranças amargas que trazia da vida dominassem por mais um segundo, cobrando-lhe o compromisso que tinha com a vingança. Ao mesmo tempo que via as botas e recolhia o papel do chão, veio-lhe a decisão de que a sua vingança não se adiaria mais um minuto sequer. Retomou a posição no assento e esperou.
Gonzaga, sem o aviso dos minutos seguintes, também foi ao chão por um motivo qualquer, com gesto passou imperceptível e sem a mínima importância para Cristal. Abaixado, avistou em frente o par de pernas abertas mostrando ao
fundo, lá no fundo, boa parte da região púbica vaginal através do orifício
central de uma calcinha marrom de bordas brancas, exatamente igual à que de
uns anos para cá levava no bolso e na consciência. Não se enervou nem tremeu qualquer músculo do seu corpo esquelético; apenas excitou-se
incontrolavelmente à vista daquelas pernas da mulher que estavam em seu
caminho pela segunda vez em busca de emprego.
Recomposto à mesa, deixou seu olhar cruzar com o de Cristal, a dona da
calcinha furada. Corria a língua de um canto a outro da boca lambendo os
lábios com a intenção de ser obsceno. Cristal recebeu a "carícia" com fingido
prazer enquanto fazia a sua arma passar do interior da bolsa para a mão
esquerda. Não deixou que seu olhar passasse a Gonzaga o último aviso.
Sob a mesa, Cristal cuidou da mira por muito tempo, quase imóvel. Gastou
nisso quase quinze segundos, queria ter a certeza de que quando atirasse
colocaria a bala bem entre os dois testículos, sem no entanto desejar que o
infame morresse de imediato. Também não queria que ele perdesse a fala por
causa da dor que lhe adviria com o furor da bala calibre 38, reservada a ele
desde o dia do estupro. No seu entender Gonzaga era uma besta em pele humana sem qualquer merecimento e que, portanto, tinha que uivar de dor quando a força total da sua vingança o atingisse da forma planejada. Quanto mais gritasse mais diminuiria nas entranhas de Cristal o sangramento, a vergonha e o nojo.
Então, assustador, ecoou o tiro seco e certeiro, tanto mais porque apanhou
ereto o pênis criminoso, desejoso de mais sevícias hediondas. Enquanto durou
a eternidade dos dois ou três primeiros segundos que se seguiram, Gonzaga
pareceu apenas assustado como os demais presentes. Não percebera ainda o
dreno aberto até o reto e o sangue que lhe empapava as calças à altura do
quadril.
Mesmo dominado pelo espanto e pela dor lancinante, Gonzaga ainda viveu os
segundos suficientes para perceber que o projétil lhe destruíra quase todo o
pênis, dilacerara inteiramente os dois testículo e seguira arruinando uma
infinidade de delicados vasos sangüíneos, nervos e músculos, de forma
irremediável. Certo de que chegava ao fim golpeado pela mão pesada da
vingança implacável que lhe oferecia a um só tempo realidade e dor
insuportáveis, aí uivou como a besta que era, repetiu o uivo mas não se mexeu
mais, nem os olhos nem os dedos. Foi tombando devagar até bater no colo da
morte.
- Essa desgraçada matou a nossa surpresa, ela sabia que o Dr. Gonzaga seria
escolhido o novo presidente da Cooperativa Central dos Produtores de Leite do Vale do Caiapó - apontou-a berrando o descontrolado presidente que saía.
-Ela, esta maldita, atirou de propósito no piru dele. Infame, no piru dele
não devia - acorreu aos berros um tal vice-presidente, apossando-se da mesma
arma, com que disparou uma bala certeira na cabeça de Cristal.
Depois de se aproximar o máximo possível do que sobrou da face da morta,
ainda brandindo a arma, ele esclareceu:
- Ele era o meu homem, sua vaca.
Quando tudo voltou ao controle dos menos exaltados, foram encontradas as duas calcinhas, uma no bolso do Gonzaga bem perto do que sobrou do pênis e outra no corpo de Cristal, deixando escapar pelo orifício estranho uma mecha de pentelhos muito negros. Aí, as explicações já não eram mais necessárias:
foram crimes passionais.
Macapá
-Setembro/93
Escrito por César Bernardo de Souza às 11h58
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19/09/2008
PARA LER NA FILA
RAÍZES DA FARTURA
(OUTRO CONTO QUE LHE CONTO)
( César Bernardo )
Quem passasse naquele dia na estrada grande, a qualquer hora, mesmo que com toda atenção nos grandes e sucessivos buracos do leito da única via de acesso à cidade de Laranjal do Jari, mesmo que encantado com as arvores centenárias, principalmente as maçarandubeiras e ainda que as cutias cruzassem a estrada com a insistência habitual com que os animais silvestres faziam naquele trecho da estrada bem dentro da floresta, mesmo assim ouviriam o barulho de motores funcionando, crianças brincando, mulheres e homens tagarelando lá dentro da floresta à altura do médio rio Arapiranga.
Quem tomasse o ramal à esquerda logo junto ao enorme tronco da guarupeira, seguisse adiante até encontrar a primeira grande clareira, parecendo terra arrasada, logo encontraria os caminhões, os tratores e as famílias agricultoras da região como que num manifesto ruidoso de um sentimento novo, algo que as uniria de forma tão forte que até daria para ver.
Um tanto abaixo de onde os homens descarregavam o calcário e o adubo trazido pelos caminhões, também longe das maquinas agrícolas em aquecimento dos motores, as mulheres escolheram uma franja de bosque de capoeira para armarem a cozinha. Usando travessões sobre forquilhas, penduravam neles enormes caldeirões cheios de toucinho, charque, pés, orelhas e focinhos de porco, cosendo junto com feijão fradinho. Depois, acrescentando-se generosas porções de farinha de mandioca, tudo aquilo seria devorado por homens exaustos do trabalho com a terra, crianças alegremente inquietas e mulheres envaidecidas como nunca. Uma cantiga regional embalava toda esta movimentação: E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá - Já se vai o sol embora deixando o mundo sem luz. E, ê, ê, ê, ê, ê, elê, elê, elá – Que santinha é aquela toda cercada de flores .....
Eram ainda nove horas da manha quando a terra começou a ser preparada para receber o corretivo, a propriedade escolhida era a do Sr. Paulino Souza. À frente seguia o grande trator de esteira virando os troncos, os grande demais davam muito trabalho à maquina mas caiam mesmo assim e eram recolhidos pela pá carregadeira para dentro das caçambas dos caminhões basculantes. Os troncos menores eram empilhados nas laterais da área que se preparava para ser um grande roçado de mandioca. Depois vinha o trator arado sulcando fundo a terra arenosa e a seguir o trator gradeador pulverizando ainda mais a terra.
A dança das maquinas terminou o dia de trabalho deixando atrás uma mancha pardacenta na terra, que o técnico explicou como "calagem", para reduzir a acidez do solo.
Depois de quarenta e cinco dias a mesma máquina voltou para espalhar o adubo químico e mistura-lo ao solo com o passeio da grade de disco indo e vindo sobre a nova terra. O técnico explicou que em trinta dias a roca seria plantada.
Todo esse ritual repetiu-se nos outros sítios agrícolas da região do Arapiranga, as crianças, as mulheres, a feijoada, as máquinas e os homens não pararam numa mesma propriedade nos vinte e cinco dias de trabalho duro que se sucederam. Depois disso começaram os mutirões para o plantio das rocas, uma festa de mãos se cumprimentando, brandindo enxadas, sulcando a terra fresca, depositando ao fundo a estaca semente de vinte centímetros de cumprimento e cobrindo-as com uma porção calculada de terra. Tudo devidamente alinhado e perfeitamente obediente aos distanciamentos determinados pelo técnico agrícola entre uma cova e outra.
Passados oito meses, em meio a grande surpresa inicial, as plantas vigorosas começavam a perder as folhas. Era o sinal que eles tanto esperaram, indicando que as raízes estavam quase maduras.
Então recomeçaram os mutirões nas propriedades, na mesma ordem que foram realizados no preparo da terra. A novidade ficou desta vez, com as carroças puxadas por cavalos e burros, alinhadas uma atrás da outra em um dos lados do roçado num total de oito veículos atrelados a oito animais nem belos e nem fortes, apenas eqüinos e muares bem adestrados.
As mulheres mais jovens e as crianças participavam da festa da colheita brincando num terreirão que já se preparava ao lado da lavoura para receber a roça do próximo ano agrícola. As brincadeiras e os gritos de satisfação cresciam apesar do sol também ir-se esquentando forte e rapidamente.
À sombra do mesmo bosque de antes as mulheres esposas coziam outra grande feijoada, mas também assavam leitões e borregos e cuidavam da bebida fermentada dos maridos, mergulhando as garrafas na água fria do rio Arapiranga. O tempo poderia mudar para chuva, mas o sol brilhava sozinho naquele dia.
Quando chegou o momento de iniciar mesmo a grande colheita do ano de 2001, o ancião deu o comando para a oração da colheita da mandioca, de certa tradição na grande região sul do estado:
Ao Sol – disse o ancião, voltando-se para o leste.
Agradecemos senhor – os agricultores responderam, também voltados para o leste. Ao Vento – disse o ancião, voltando-se para o norte.
Agradecemos senhor, que não foi muito – os agricultores responderam também voltados para o norte. À Chuva – disse o ancião, voltando-se o sul.
- Bendizemos senhor, foi na medida - os agricultores responderam também voltados para o sul.
À Terra – disse o ancião, inclinando-se para o chão.
Agradecemos e bendizemos senhor - os agricultores responderam também se inclinando para o chão. Amém.
Terminada a oração da colheita, ao sinal do ancião o agricultor mais jovem arrancou a primeira planta. Devagar separou os tubérculos, depois pesou-os numa balança de gancho, conferiu a pesada com atenção, ergueu a voz e mandou fazer estaca semente da planta colhida.
Então, o jovem agricultor ergueu o paneiro com a mandioca colhida, orou em silêncio com os olhos fitos no céu e depois depositou os tubérculos aos pés do ancião. Este nada disse ao jovem agricultor, saiu caminhando numa direção que já conhecia até encontrar o que ele considerou a planta-mãe daquele sitio.
Encontrando-a, fez-lhe a marca azul, depois escolheu doze plantas em volta, marcando-as com tinta amarela. Ergue a voz e proclama-se, as treze plantas, incompatíveis com o fogo. Ordena o inicio efetivo da grande colheita.
A terra ainda fresca está escondendo uma espantosa produção de mandioca, algo inacreditável para a maioria daqueles agricultores que nunca tinham tido a experiência de tratar a terra para uma finalidade definida. Onde colhiam antes nove toneladas por hectare em dezoito meses, agora viam a terra parir vinte e cinco toneladas por hectare em apenas onze meses.
As raízes sobre o chão iam formando centenas de pequenos montes, logo recolhidos pelas crianças maiores, pelas meninas, pelos meninos e principalmente pelas mulheres esposas. A cantoria ia num aumentando conforme as centenas de montículos se juntavam para formar uma montanha de mandioca colhida.
A movimentação dessas pessoas lembrava um ataque de formigas saúvas devorando um roçado. Olhando-se de outra maneira, via-se a harmonia do trabalho organizado em hierarquia fluindo alegremente do interior da terra para o interior das carroças e delas aos caminhões estacionados na estrada vicinal de acesso ao sitio.
Depois de cheios, os caminhões com as presumíveis cento e vinte toneladas colhidas tomaram a estrada grande conduzindo a safra para a fabrica de farinha de mandioca, instalada num grande prédio na cidade de Laranjal do Jari.
No trecho em que a estrada cortava a grande floresta densa, os caminhões seguiam muito devagar por causa dos buracos e por causa das dezenas de placas educativas sinalizando o transito que, em resumo, mensageavam: "Dirija com cuidado – trafego intenso de veículos na colheita de mandioca".
Logo atrás dos caminhões vinham os agricultores da região, os donos da safra embarcada naquele comboio com destino à fabrica seguiam à frente dos caminhões em carro aberto, sobre a carroceria da camioneta, distribuindo cumprimentos às pessoas pelas quais passavam.
À entrada da cidade, depois da ultima ladeira estreita por demais carcomida pela voçoroca o comboio parou para se reorganizar. A partir dali as faixas alusivas à colheita de mandioca foram estendidas, os rojões foram distribuídos aos adultos orientados para detoná-los somente quando surgissem as primeiras casas da cidade propriamente dita. A rainha da safra/2000 foi alçada ao palanque construído para esse fim sobre a carroceria de um dos caminhões.
Ao longo de um trajeto calculado em cerca de seis quilômetros, A desembocar no pátio da fábrica, a população se acumulava de um lado e outro da grande Avenida Tancredo Neves. Cada pessoa que aplaudia os agricultores parecia ter a consciência de que a boa safra era, ao fim, uma distribuição de renda real que botava dinheiro no bolso dos agricultores e dos comerciantes, mas também diminuía muito o preço do alimento na mesa urbana. Porém aquele momento era uma oportunidade importante para a cidade homenagear o campo e demonstrar sua cota de respeito ao trabalhador rural que abastece as cidades com o seu trabalho.
Os caminhões encontraram os portões da fabrica já abertos, entraram e manobraram sem atropelos deixando espaço para o restante do comboio terminar de ocupar o pátio de estacionamento da fabrica.
Com as pessoas todas acomodadas, mas percebendo a grande movimentação de populares se acotovelando lá fora, na rua em frente, o diretor-presidente da cooperativa que gerenciava a fabrica de derivados da mandioca ordenou o processamento inicial da safra/2000.
Naturalmente que se tratava de um processamento simbólico, de extrema valia para os agricultores e empresários em geral. O seu ritual era nervoso porque tinha o objetivo de emitir sinais claros para o mercado de produtos derivados da mandioca, iniciando-se a partir dali uma avaliação qualitativa dos produtos obtidos que estimularia ou inibiria as manifestações culturais dos agricultores relativos ao cultivo da mandioca.
A um sinal do diretor-presidente da cooperativa os operários pararam as máquinas para que ele, passeando o olhar pela multidão, fizesse escolhas aleatórias:
O senhor será o provador da farinha.
Você jovem, será o provador de tapioca.
A senhora, por favor, seja a avaliadora do tucupi.
Num momento todos estavam a postos, cada qual tendo à frente um utensílio com os produtos a serem avaliados. Passados alguns minutos o diretor-presidente prossegue o ritual:
- Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a farinha fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000,do município de Laranjal do Jari ? = Excelente, senhor diretor. - Senhor provador, qual o resultado da sua avaliação para a tapioca fabricada a partir da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? =Excelente, senhor diretor.- Senhora avaliadora, qual o resultado da sua avaliação para o tucupi extraído da mandioca da grande safra do ano de 2000, do município de Laranjal do Jari? = Excelente, senhor diretor.
Parcimonioso, explorando ao máximo a ansiedade dos presentes, o diretor-presidente da cooperativa recebe o martelo de madeira das mãos do auxiliar, convoca o agricultor proprietário daquela primeira grande produção de mandioca e juntos sobem na carroceria de um caminhão deixado ali para esse fim. À quatro mãos, o martelo é batido:
A cooperativa compra toda a safra de mandioca do ano de 2000 colhida no município de Laranjal do Jari – diz o diretor-presidente. = Eu vendo a safra – diz o ancião representante simbólico de todos os agricultores. Aí o povo explode em festa, rojões, chapéus, cerveja e cachaça são jogados para o alto. Abraços, gritos e choros de alegria temperam a grande festa inaugural ao tempo de prosperidade agrícola que todo o vale do Jari passava a conhecer.
A partir desse dia desaparece do labor rural amapaense a figura do plantador de mandioca, dando lugar ao lavrador especialista em agricultura econômica.
FIM
Escrito por César Bernardo de Souza às 21h39
CULTURA
ProfºRAIMUNDO LOBO
Sapiência divina
Por que caminho de animais domésticos e silvestres, rios, riachos e igarapés nunca são totalmente retos? Se os cursos d'água fossem retilíneos, nas enchentes, a correnteza seria tão forte e gigantesca que as terras marginais seriam solapadas, desagregadas e arrastadas rio abaixo, levando consigo as árvores reguadas e arrancadas. Todos os animais aquáticos, com exceções de jacarés, tracajás e peixes que moram em buracos na terra, na pedra ou em árvores ocas, acamadas no leito do rio, seriam arremessados e impactados violentamente contra obstáculos: ribanceira, pedras e árvores caídas. Na natureza, a linha curva tem enorme destaque. Na mulher, apesar da beleza e maciez do rosto, dos olhos fulgurantes e magnéticos e da voz ciciante e cheia de blandícias, as suas curvas é que, em segundos, imantizam, encantam, estonteiam, arrebatam e apaixonam os homens!O maior inimigo do jacaré, depois do homem, é a anaconda. Ao ser mordido e envolto por seus potentes e quase infalíveis anéis constritores, lança fortes e apavorantes bramidos, salta, forceja, se contorce e dá violentas rabanadas. Quanto mais estrebucha, mais a sucuri aumenta a potência do seu arrocho até quebrar-lhe os ossos mais finos e fracos, e estourá-lo de vez, quando parte das vísceras é expelida pela boca, parte pelo ânus, Em seguida, engole-o inteiro, de cabeça, auxiliada por abundante muco.Existem peixes canibais de água doce, tais como o pirarucu, o tucunaré, o aruanã, a traíra-igapó, a trairaçu, a uéua e a piranha.No rio Urubu, Estado do Amazonas, em 1976, um ônibus caiu de uma balsa na água, com 38 passageiros. Algumas horas depois tiraram o veículo, mas no seu bojo só restava a ossada dos seus ocupantes, que foram devorados por um enorme cardume de piranhas-vermelhas.A piranha-vermelha, mesmo já empanturrada, não para de morder os peixes. Se vê ou sente o cheiro de sangue de outra piranha, ataca-a e come-a, Em cardume, muitas vezes, se entredevoram em horripilantes cenas de canibalismo.No verão uma búfala foi atravessar o rio Aporema, mas antes de alcançar a margem oposta, ficou presa por uma galhada de itaubarana. Por fazer muito esforço e barulho, atraiu um extraordinário cardume de "piranhas-encarnadas" que a atacaram com redobrado ímpeto, a partir da vagina e ânus e, em seguida, roeram-lhe a espessa pele da barriga aí fazendo um grande buraco, por onde penetraram até às vísceras.Os predadores da piranha são: o jacaré, o boto, a lontra, a ariranha, o pirarucu, o tucunaré-açu, o trairão, o "borrega", o carapirá, a traíra-igapó, a ariramba e o mergulhão. O carapirá e o borrega pegam piranhas até abaixo de médias. O mergulhão e a ariramba comem piranhas bem-pequenas.Os quero-queros (téu-téus) em noites de luar cantam festivamente, não o fazendo em noites escuras por temor de ataque de jacurutus e corujões, seus temíveis predadores.O cachorro, quando acua uma onça-pintada no chão, numa ilha de vegetação densa, evita aproximar-se dela. Por prudência, muda de quando em quando de posição e sacode o rabo para os lados e um pouco para cima, para contactar com os obstáculos que estão ao seu redor. Se a onça disparar sobre ele, já sabe por onde deve retroceder com rapidez e segurança.Patos-domésticos copulam em rios povoados de piranhas, contudo logo depois que terminam o coito, retiram e recolhem o pênis com rapidez.A rolinha-do-campo, vendo o homem às proximidades dó seu ninho, sai batendo as asas na terra e vai-se afastando cada vez mais do ninho. Assim, ela procura desviar-lhe a atenção do local onde estão seus ovos ou filhos,Curiangos (bacuraus) e piaçocas também fazem uso desse prático e eficaz despistamento.Se uma caveira de boi ou de búfalo está apoiada na ponta de uma estaca de curral ou caiçara, vem a maria-mulata (guarandi ou catipuruí) e nela faz o ninho no lugar do miolo. As cavidades orbitárias servem-lhe de portas e janelas por onde ela espia se há predador por perto ou se vai cair chuva."O maior inimigo do jacaré, depois do homem, é a anaconda. Ao ser mordido e envolto por seus potentes e quase infalíveis anéis constritores, lança fortes e apavorantes bramidos, salta, forceja, se contorce e dá violentas rabanadas."
Escrito por César Bernardo de Souza às 21h13
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15/11/2009
Prof. Raimundo Lobo
O Joio e o Trigo*
Raimundo Lobo**
É comum se verem coisas que nascem com uma finalidade e, depois, ampliam-na, desvirtuam e até passam a ter outras, extremamente opostas àquela para que foram criadas ou inventadas. Se não, vejamos: o avião foi inventado para transportar pessoas, livros, jornais, e todo gênero de mercadorias. Depois passou a ser usado como arma de guerra, levando sob suas asas metralhadoras, canhões e foguetes. Por fim, transporta bombas atômicas, químicas e bacteriológicas. Já houve até avião-bomba usado pelos camicases na Segunda Guerra Mundial.Milhões de carros, mototáxis, ônibus, trens, patróis, tratores, voadeiras, lanchas, barcos, balsas, navios, submarinos, porta-aviões, foguetes, milhões de motores com finalidades diversas poluem os rios, lagos, lagoas, baías, golfos, estreitos, canais, mares e oceanos. Lançam na atmosfera terrestre o dióxido de carbono, poluindo-a, causando o aquecimento global e alterações climáticas. Os agrotóxicos, com exceções, prestam um desserviço à humanidade, causando-lhe graves doenças e milhares de mortes.O fogo foi descoberto e usado para assar ou cozinhar alimentos e queimar roçados. Depois deu origem à fusão dos metais, o que favoreceu o homem na fabricação de inúmeros artefatos. Mas, inegavelmente, é na guerra que ele teve o seu maior e mais poderoso emprego, ferindo e matando milhões de seres humanos.O carro de linha vem prestando grandes serviços à população rural. Porém, a par com tudo isso, transporta também os instrumentos de devastação da nossa fauna: o sal, o gelo, a tarrafa, a malhadeira, o tramalho, o arpão, o tapuá, a lanterna, o farol de milha, a dinamite e as armas de fogo pesadas ou de alta precisão. Desses instrumentos de destruição da fauna, destacam-se o gelo, porque conserva os animais abatidos por tempo indeterminado, e o farol de milha tanto na caça quanto na pesca, pelo seu grande raio de ação e o poder de ofuscar a presa. A cana-de-açúcar, a princípio, foi cultivada para produzir o açúcar, o mel e a rapadura. Contudo, alguém pensou em fabricar a cachaça, uma das maiores desgraças da humanidade, causadora de brigas violentas, problemas familiares, malquerenças entre amigos, colegas e vizinhos. A cachaça e as bebidas de alto teor alcoólico vêm causando ferimentos, aleijões, paralisias e um sem-número de mortes em todo o mundo.A faca, ferramenta multiuso, talvez tenha sua origem nos estilhaços de sílex, à época dos trogloditas. Depois evoluiu para faca de alumínio, ferro, aço, etc. Só no Brasil, nos feriados de fim de semana, em que as bebidas alcoólicas e as drogas sobem o pódio, são milhares de pessoas vitimadas por faca e terçado.Os países que mais pregam a paz, a ordem e a segurança são, exatamente, os que mais fomentam as guerras, fabricam e vendem armas."Milhões de carros, mototáxis, ônibus, trens, patróis, tratores, voadeiras, lanchas, barcos, balsas, navios, submarinos, porta-aviões, foguetes, milhões de motores com finalidades diversas poluem os rios, lagos, lagoas, baías, golfos, estreitos, canais, mares e oceanos. "
*-Publicado em O Diário do Amapá em 15 Nov 2009
**-É Professor, Dicionarista, Vencedor do Troféu Pitombora 2009, do Conselho Estadual de Cultura do Amapá.
Escrito por César Bernardo de Souza às 23h07
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24/10/2009
NO RADIO
24 OUT. D. POSITIVO
EDITORIAL:
No Dia do Aviador cultivamos a memória de uma das nossas mais valiosas figuras históricas - Alberto Santos Dumont, um brasileiro reconhecido e condecorado em vários países. Um gênio criativo, nascido em 20 de julho de 1873, em Palmira, cidade hoje denominada Santos Dumont, em Minas Gerais.
Na cidade de São Paulo, em 1888, ele viu pela primeira vez um balão aerostático numa feira,. ali mesmo percebeu que o homem podia voar de alguma outra forma.
Com a morte de seu pai, em 30 de agosto de 1892, mudou-se para Paris, correu atrás dos seus sonhos e conseguiu em 22 de março de 1898, fez a sua primeira ascensão aerostática.
Decidido a aperfeiçoar seus balões, fez em julho sua primeira ascensão livre com o balão de nome "Brasil", que mandou construir para seu uso pessoal. No mesmo ano, ainda em 18 de setembro, realizou a primeira experiência com o seu balão dirigível nº 01, sendo a primeira vez que um motor à explosão, adaptado a um veículo aéreo, funcionava no ar.
Na primeira tentativa de decolagem, chocou-se contra as árvores por ter decolado a favor do vento. Dois dias depois, a 20 de setembro de 1898, decolou contra o vento, conforme sua concepção. Para espanto da assistência, pela primeira vez na história da humanidade, um balão evolui no espaço, propulsionado por um motor a petróleo. Após este evento, aperfeiçoou, sua criação nos dirigíveis 2 e 3.
Até o balão dirigível nº 14, houve uma infinidade de experiências diversas que o deixaram famoso. A sua hélice e o motor serviram para as primeiras experiências com o aeroplano nº 14 Bis.
Entre os dias 25 de julho e 23 de outubro de 1898, no Campo de Bagatelle, em Paris, voou perante a Comissão Fiscalizadora do Aeroclube da França, ganhando a taça ARCH-DEACON, por realizar o primeiro vôo de aparelho mais pesado que o ar. Posteriormente, ele criou o nº 16, usando um motor. Santos Dumont subvencionava suas atividades aeronáuticas com seu próprio dinheiro. Em 1901, encher um balão de 620 metros cúbicos com hidrogênio custava-lhe aproximadamente US$ 500,00.
Mais tarde foi transformado em biplano. No nº 18, a principal experiência foi um deslizador aquático e a tentativa foi demonstrada no Rio Sena.
Ele estava inclinado a crer que a verdadeira função dos veículos aéreos consistiria no transporte rápido de passageiros, correspondências e cargas. Santos Dumont tentou levar o mundo a partilhar de suas idéias em vão.
Os homens mais eminentes não as aceitavam e a imprensa, noticiando os seus desastres, apelidava-o de "Santos Desmonta". Em 1902, entretanto, o Príncipe de Mônaco se ofereceu para construir um hangar, caso Santos Dumont quisesse levar os seus dirigíveis para Monte Carlo, durante o inverno.
Santos Dumont aceitou. Logo célebres corredores de automóvel aceleravam os seus carros na estrada do litoral, chegando a ultrapassar 60 quilômetros por hora, para acompanhar o seu vôo.
Como ganhador do prêmio Nobel, Santos Dumont acreditava que as suas invenções haviam de tornar tão terrível a guerra, que os homens não pensariam mais nela. Tal convicção sofreu um rude golpe quando foi declarada a Primeira Grande Guerra Mundial. O aeronauta então, isolou-se na sua casa, nos arredores de Paris., onde sofreu e adoeceu. Voltando de navio para o Brasil, em 1928, ele presenciou um avião da Condor caindo no mar, matando seus tripulantes. Santos Dumont assistiu aos funerais e, depois, encerrou-se por vários dias num quarto de hotel. Quando aconteceu o desastre do dirigível R.101, tentou se suicidar.
Durante a Revolução Paulista de 1932, Santos Dumont viu passar pelos céus de sua terra natal, a máquina concebida por ele, sendo utilizada como poderoso instrumento de destruição. Saiu da vida.
Santos Dumont morreu no dia 23 de julho de 1932, no Guarujá. Desistiu da vida com a mágoa de ver seu invento, criado para servir, sendo usado para destruir o homem.
Seu coração se encontra no salão nobre da Academia da Força Aérea, em Pirassununga, em artístico escrínio de ouro, para que os oficiais que lá se formam possam sentir sua nobreza e seu pulsar indefinidamente, nos corações de todos os brasileiros.
ÚLTIMA CARTA DE SANTOS DUMONT
"São Paulo, 14 de julho de 1.932Meus patrícios. Solicitado pelos meus conterrâneos mineiros moradores neste Estado, para subscrever uma mensagem que se reivindica a ordem constitucional do pais, não me é dado, por motivo de moléstia, sahir do refugio a que forçadamente me acolhi, mas posso, ainda, por essas palavras escriptas, affirmar-lhes, não só o meu inteiro applauso, como também o apello de quem tendo sempre usado a gloria da sua Pátria, dentro do progresso harmônico da humanidade, julga poder dirigir-se em geral a todos os seus patrícios, como um crente sincero em que os problemas de ordem política e econômica, que ora se debatem, somente dentro da lei magna poderão ser resolvidos, de forma a conduzir a nossa Pátria á superior finalidade dos seus altos destinos.Viva o Brasil unido!Santos Dumont"
ANIVERSARIANTES DO DIA:
CARMÉLIA -
Anjos da Humanidade (19/03, 31/05, 12/08, 05/01 e 24/10).
Esta hierarquia é chamada de "Senhores do Sacrifício". A energia por ela utilizada é a do poder do verbo: a linguagem. Foram assim denominados, porque, em outras vidas, deram um nível superior de consciência para o grupo em que viviam. Segundo Helena Blavatsky, estes seres seriam pilares de Luz, o princípio divino que está instalado na forma humana.Se você faz parte dessa categoria deve estar se perguntando: "Então eu não tenho anjo?". A princípio não, pois você já tem uma essência angelical muito forte, em decorrência de atos humanitários, através dos quais sua própria vida foi doada em benefício de um grupo..Os anjos da humanidade possuem costumes e leis admiráveis. Devem aprender a vibrar positivamente, ter mais coragem e não se conformar com as opiniões correntes das massas. Também devem ser inimigos da impureza, da ignorância e da libertinagem.
SALMO ESPECIAL:
DEUS PAI - Mãe Nosso... que estais no céu do cálice do Meu coração... Santificada seja a Vossa Sagrada Chama da Vida Eterna.Venha o Vosso reino... agora, através de Vosso Filho ressuscitado em meu coração, em meu Ser, através de minha alma.Faça-se a Vossa Vontade... Na terra... através do Cristo ressuscitado na família do Homem... como no Céu... através da família dos anjos, Devas e seres Ascencionados.Dai-nos hoje o pão de cada dia... a corrente eterna que sustenta o nosso próprio Ser, e da qual vem toda Perfeição para criar.Perdoai-nos as ofensas... contra a Vossa Grande Lei do Eterno Amor, Qualificação Harmoniosa do Vosso Reino Perfeito da "causa".Mas livrai-nos... da ilusão dos "efeitos" da consciência humana.Porque Vosso é o reino... a Unidade de toda a Vida como Luz.O poder... para Ressuscitar tudo novamente para Vós...e a glória...da Vossa Própria Perfeição Sempre expandindo-se.Para Sempre e para Sempre... no momento Eterno do AgoraAmém e Amém - Como Vosso Nome "Eu Sou”.
- ABRAÇOS:
AMIGOS DA CONFRARIA TUCUJU
COLABORADORES DA CRECHE.
OUVINTES DO DEB. POSITIVO.
AMIGOS DO ZÉ MARIA E DO PIERRE.
COMENTÁRIOS:
- CONFRARIA TUUCUJU
- CAMINHADAS DA CELLI.
- EXPO-FEIRA
- CASO PMDB – BR X AP
- CASO RIO DE JANEIRO - ASSALTO AO DANILO E LOLITO.
- POLICIAMENTO NO RESTO DA CIDADE NO PERIODO DA FEIRA.
Escrito por César Bernardo de Souza às 01h42
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12/10/2009
CIRIO DE NAZARÉ - MACAPÁ
Visita da virgem de Nazaré à Amazônia
Nilson Montoril de Araújo.
Antes dos Abarés (aba=homem e ré=diferente), ou seja, os Padres Jesuítas, iniciarem seus trabalhos de catequese na Amazônia, nossos indígenas possuíam belíssimas lendas sobre a criação do mundo, dilúvio, origem da noite, o justiceiro jurupari, etc. Os personagens dessas lendas eram naturalmente elementos da cultura silvícola. Eles acreditavam que dentro da carcaça de cada ser vivo existia um espírito ou alma, ao qual denominavam de Anga. Se o ser vivo, principalmente o índio fosse cordial, solidário e amigo, dentro do seu corpo habitava uma Angacatú, isto é, alma boa. Caso ocorresse o contrário, no interior do corpo existia uma Angaíba (alma ruim). Uma vez inseridos no meio dos gentios, os religiosos católicos introduziram preceitos cristãos em suas lendas. As divindades femininas dos índios eram: a Iara (senhora das águas) e Jacy (a lua). O índio usava o vocábulo ibaca para identificar o céu, a abóbada celeste, onde residia Tupã. Por influência dos sacerdotes católicos adotaram os neologismos Jandé Jará e Iandeyara para se referir a Deus. Os dois vocábulos significam Nosso Senhor (Jesus Cristo). Aangara ou Anhangá era o tentador, o diabo, o demônio. Quando queriam falar Nossa Senhora ou nossa mãe, usavam o vocábulo Nhandé Cy. Depois que a alma deixava o corpo ela ia habitar o Anguendaba, lugar onde deve estar a alma. A alma que necessitasse passar por espiações de falhas e ficava vagando no plano terrestre era denominada Anguera, alma que está fora do corpo, assombração. A alma cheia de pecados graves ou mortais ia direto para o Anhanguara, buraco do diabo, o inferno. O relato da morte de Jesus Cristo e da vida atribulada da Virgem Maria fascinava os índios. Muitas lendas surgiram sobre as aparições da Mãe de Jesus, notadamente na Europa. Porém, a que publico nesse espaço é uma das mais interessantes que conheço e foi recolhida pelo médico e etnólogo Ary Tupinambá Pena Pinheiro, notável homem de letras que viveu no Território Federal de Rondônia."A Virgem de Nazaré, após a morte de seu amado filho, morto por incompreensão dos homens, subiu viva para a Mansão Celestial, para ficar ao lado dos seus entes queridos. Passaram-se anos e a Santa, sentindo saudades da terra, quis vir até este vale de lágrimas, mesmo porque teve conhecimento de que os ensinamentos do Divino Mestre não eram obedecidos. O ódio, a inveja, o rancor, o egoísmo e a hipocrisia continuavam com a mesmo intensidade das épocas passadas. Entretanto, não quis descer em seu país natural, porque as chagas de seu coração ainda sangravam devido àquela tarde de amargura e de terror, quando foi martirizado, torturado e crucificado o filho de Deus.Escolheu a região banhada pelo rio Tocantins, lugar em que os homens não haviam profanado a fauna e a flora, onde as plantas e os animais falavam.Certo dia, quando o sol brilhava com muita intensidade e o céu parecia mais azul, a Santa desceu incógnita em uma belíssima praias localizada entre os rios Jamundá e o Tapajós. Ficou extasiada quanto ao volume das águas, o esplendor da floresta, a alvura das areias das praias, as cachoeiras imponentes e continuou na sua peregrinação rendendo graças a Deus pela oportunidade que lhe dera de ver uma região tão bela e majestosa. À tarde, antes de regressar à Mansão Celestial, fez uma prece ao Senhor do Universo e prometeu que dentro de duas luas viria de novo continuar as suas andanças. Nossa Senhora pensava que estava incógnita, mas um peixinho amazônico, denominado Aramaça, que devido às suas inúmeras indiscrições, ficou com deformação na cabeça e estrábico, acompanhava todos os passos da Mãe de Jesus.Logo que a Santa subiu aos céus, o linguarudo Aramaça participou a todos os animais, às plantas e aos insetos tudo quanto tinha visto e ouvido. Foi um alvoroço. Imediatamente foram constituídas comissões de quadrúpedes, aves, peixes, répteis, insetos, plantas, para a recepção de Nossa Senhora, daí a duas luas...Foi construído na praia a que a Santa deveria chegar um grande altar, aromatizado com as essências mais perfumadas, tais como: sândalo, cumaru, e o pau rosa. A bicharada, sob a regência do maestro Jabuti, "doublé" e filósofo, ensaiara um hino sacro para saudar a Virgem Maria. Tudo foi preparado com arinho e amor. No dia marcado para a visita da Santa postaram-se nas nuvens o urubu-rei e o gavião real, cujas dispersões de vôos são incomparáveis, para dar notícias da aproximação de Nossa Senhora. Era uma bela manhã de sol. O Céu, sem nuvens, brilhava intensamente. A natureza compartilhava com a bicharada, com sua beleza, para receber a Mãe do Divino Mestre. E, às nove horas da manhã, ouviu-se um grasnar do gavião-real e o crocitar rouquenho de urubu-rei, anunciando a descida da Mãe de Deus. A Santa chegou suavemente e pisou nas areias branquíssimas da praia. Imediatamente partiu da mata uma belíssima e significativa procissão de quadrúpedes, répteis e ofídios tendo à frente, portando um vistoso estandarte, o tamanduá-bandeira. A confraternização dos animais era impressionante. Via-se a onça pintada de braços com a sua fidagal inimiga, a anta; a suçuarana e o veado vinham abraçados; a jararaca, toda risonha estava enrolada no pescoço do queixada; o jacaré, lado a lado com a paca. Bandos de macacos saltando nos cipós balançavam-se nos galhos. Viam-se os macacos: barrigudo, o guariba, o da noite, o do cheiro, o cuxiú, o coatá, comandados pelo prego, que pulava de alegria, chegando até a perturbar o ambiente. Bela confraternização universal que deveria ser imitada pelo homem. Revoadas de bem-te-vis, arapongas, andorinhas, canários-da-terra, pipiras, anus, coleiros, tangarás, tico-ticos, ferreirinhos, urutaus, anambés e tanguruparás coloriam o ambiente como também as borboletas azuis, amarelas, brancas, pardas, furta-cores e listradas. Outra revoada chegava, cada ave procurando ansiosamente uma nesga de chão ou galho desocupado. Eram sanhaçus, arapapás, gaivotas, jaburus, guarás, garças, cojubins, pica-paus, maçaricos, mergulhões, surucuás e piaçocas. Das águas mansas do rio saltaram o boto, o peixe-boi e o pirarucu, seguidos por toda a fauna fluvial. Vinham cantando o hino sacro ensinado pelo maestro Jabuti, que compenetrado empunhava a batuta.Santa Maria, deslumbrada, sentou-se ao trono e a manifestação dos animais foi iniciada. O jacaré-assu, relações públicas, deu a palavra ao intelectual dos sáurios amazônicos, o jacaré-de-lunetas, que proferiu uma belíssima oração de louvor à hóspede, causando lágrimas a todos os presentes. O jacaré-assu abrindo a bocarra, deixou correr pelos olhos grossas bagas de lágrimas, lágrimas de crocodilo. O peixe-boi depositou aos pés da Virgem Santíssima uma esplendida corbelha de flores de mururé, cuja flor lilás condizia o hábito da Santa; o boto, esquecendo por instantes as suas conquistas amorosas, depositou aos pés da Mãe de Jesus uma magnífica vitória-régia, trazida do lago "Espelho de Lua", em Faro, o lago mais bonito da Amazônia; o pirarucu, representante dos peixes, pediu a palavra; porém, não pôde continuar com a sua oração em virtude da sua língua óssea e de ser gago; miríades de andorinhas grifavam ao redor da Divina Santa; os beija-flores trouxeram nos bicos minúsculos e cheirosas flores: violetas, jasmim, mirtos, e pulverizaram a coroa de Mãe de Jesus. Durante a manifestação o cauim, a tiquira, a manicuera e a caussuma corriam em profusão entre a bicharada. E o macaco-prego, na sua euforia e saliência, dava saltos imponentes igual a um atleta de circo, perturbando cada vez mais a reunião. O quati-mundéu, delegado de polícia, que não brincava em serviço, imediatamente o prendeu na sapopema de uma samaumeira. Entardecia. Nesse ínterim, ouviu-se uma linda música saída das capoeiras. Era uma banda regida com maestria pelo mutum, que tocava o seu bombardino; as aracuãs tocavam os pistões; os papagaios, os periquitos, os clarinetes e as requintas. Que música eloqüente e inebriante... dedicada à Mãe mais sofrida do mundo.A festa estava no auge! A Virgem carinhosamente olhava com ternura e amor toda aquela bichara alegre, ruidosa, feliz e mais uma vez, fez uma prece ao Senhor do Mundo, por ter povoado a Amazônia com toda aquela maravilha. A algazarra era imensa, a euforia contagiante, a confraternização emocionante. Nessa ocasião, apareceram os poetas da mata, para prestarem também a sua homenagem. Cantaram as patativas com suas vozes de soprano; depois o mavioso rouxinol, com voz de tenor; em seguida o sabiá-da-mata, com sua voz de barítono, cantou, interpretando a tristeza do entardecer das matas amazônicas. A algazarra continuava hilariante. A Santa pouco podia ouvir. E foi nesse momento que se ouviu o trinar docente, e, como por encantamento, toda a algazarra cessou. Todos escutavam enlevados o Orfeu ornitológico amazônico. Era um passarinho feio, pardusco, o Uirapuru, que parecia ter na sua privilegiada garganta de cristal todas as rimas e todas as estrofes comoventes e arrebatadoras existentes no Universo. O Uirapuru passava do alegre ao grave, do pitoresco ao dramático, da canção à sinfonia. A bicharada imóvel e Nossa Senhora risonha, prestavam viva atenção à música daquela garganta de ouro, que soltava acordes tão inebriantes, tão sedosos, tão sentidos. Ouviu-se um sussurro. Era Nossa Senhora, emocionada até as lágrimas, que se levantou do seu trono e conferiu ao passarinho cantador o condão de pássaro da sorte. E é devido ao presente da Mãe de Jesus que a tradição conta que o individuo que possuir um bico, uma pena ou mesmo uma patinha do Uirapuru, a sorte lhe será perene.A Virgem Santíssima, apesar de estar imensamente comovida e apreciando toda aquela admirável manifestação, tinha de regressar aos céus. Fez uma prece por todos, abençoou toda a bicharada e prometeu voltar brevemente". É provável que algum jesuíta tenha concebido essa narrativa, que foi sendo passada de geração à geração. Há quem afirme ter sido organizada pelos animais da Amazônia a primeira grande homenagem a Virgem de Nazaré, embrião do círio organizado pelos homens, que começou na cidade de Vigia e atualmente também ocorre em outras cidades amazônicas, inclusive em Macapá.*- Professor, Historiador, Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Estado do Amapáa.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h29
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10/08/2009
LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IA História de um VasoEstava descansando sob a sombra do Carvalho de Mambré junto à minha tenda, quando vi chegar apressadamente um dos servos de meu sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia: Houvera no dia anterior uma batalha entre as cidades da planície, envolvendo quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e muitos de seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo tempo em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me fragilizado, sem nenhuma condição.Sempre fui um homem pacifico e detesto aqueles que derramam sangue. Tenho muitos servos, mas poucos sabem manejar espadas e lanças, pois desde à infância são treinados como pastores. Em lugar de espadas e lanças, eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos; Em lugar de escudos, eles carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca, para matarem sua sede e refrigerarem as ovelhas aflitas; Em lugar de vinho para se embebedarem, carregam presos em seus cintos pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com os quais untam as feridas do rebanho; Em lugar de ressonantes trombetas, eles sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o curralImaginando como seria um combate entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis vitoriosos, comecei a rir. Enquanto gargalhava, a voz dAquele que sempre me guia, soou aos meus ouvidos, dizendo:- Abraão, Abraão! Não menospreze os instrumentos dos pastores, pois santificados pelo fogo do sacrifício, haverão de conquistar o grande livramento.O Eterno passou a dar-me ordens, fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento haveria de realizar-se.O primeiro passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos, dirigiram-se ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao todo 600 pastores.Ordenei que esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija.Depois de cumprirem esta ordem, pedi que tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeito dos jarros.Depois destas coisas, Yahwéh mandou-me tomar um grande vaso de barro, enchendo-o até a metade com o azeite das oliveirasAo concluir esta tarefa, o Senhor mandou-me fazer um longo pavio de lã, enfiando a metade dentro do azeite e deixando a outra parte presa acima do vaso.Depois destas coisas, Yahwéh ordenou-me acender o pavio, com o fogo do altar. Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia sobre o sacrifício da manhã, uma pequena fagulha saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se alimentando do azeite, até tornar-se numa labareda que podia ser vista de longe.Capitulo IIA História de um VasoCom o vaso nos ombros, comecei uma caminhada rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos pastores. Logo começaram a surgir escarnecedores que, ao verem-me com aquele vaso incandescente em pleno dia, e passaram a dizer que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro, trazendo conselhos para que eu abandonasse aquele vaso que seria capaz de destruir toda a minha reputação e dignidade diante de todos eles.Quando eu lhes falei sobre os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles concluíram que de fato eu ficara louco. Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas agarrando-me a ele, impedi que o tirassem de mim.Envergonhados diante de tudo isto, muitos pastores começaram a se afastar: alguns retornaram para suas tendas enquanto outros uniram-se àqueles que riam de meu comportamento estranho.Sentindo-me sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me. Ansiava encontrar alguém com quem pudesse compartilhar minha experiência, mas todos lançavam-me olhares de reprovação.Lembrei-me de Sara, minha amada esposa; Em obediência a Voz de Yahwéh havíamos trilhado por muitos caminhos, estando Sara sempre ao meu lado, animando-me a prosseguir mesmo nos momentos mais difíceis.Com certeza Sara me traria consolo e forças para continuar firme, conduzindo o vaso da salvação.Enquanto avançava pelo caminho pensando em Sara, a vi no meio da multidão. Ao dirigir-me a ela, fiquei surpreso e desalentado ao ver em seus olhos o mesmo menosprezo daqueles que me chamavam de louco por conduzir em pleno dia chama que se desprendera do altar.Lembrando-me da ordem de Yahwéh de que teria de libertar meu sobrinho Ló, fui andando sozinho pelo caminho. Ao colocar-me no lugar daqueles que me achavam louco, eu dava-lhes razão, pois em condições normais, nenhuma pessoa coerente sai de casa, sem rumo definido, levando em pleno dia um vaso com uma labareda nas costas, afirmando estar marchando contra o exércitos de cinco reis, para libertar um parente. Realmente dá a entender que se trata da manifestação de uma grande loucura. Mesmo assim, a despeito de todas as humilhações e palavras que falavam contra mim, eu avançava rumo ao vale desconhecido. Toda aquela zombaria foi finalmente diminuindo, à medida em que eu me distanciava do Carvalho de Mambré.Começaram a sobrevir ao meu coração muitas dúvidas quanto ao meu futuro. Ficava às vezes aflito com o pensamento de toda a minha experiência, desde a convocação dos pastores até aquele momento, poderia ser, de fato, demonstrações de uma loucura.Cheio de dúvidas, comecei a pensar na possibilidade abandonar à beira do caminho o vaso, retornando para junto do altar. Esses eram os conselhos de alguns pastores e amigos que, condoídos de minha solidão, ainda vinham ao meu encontro, aconselhando-me a retornar; Ali, diziam, eu poderia conquistar novamente a confiança dos pastores, voltando a ser, quem sabe, até mesmo um sacerdote honrado como outrora. Sobre o altar, diziam, havia um fogo muito maior que aquele que eu carregava nos ombros. Estava a ponto de retornar, quando Sara veio ao meu encontro, contando-me sobre o desprezo que muitos pastores lançavam contra mim; Ela estava consternada, pois toda aquela desonra, recaía também sobre ela, ao ponto de não sentir mais desejo de permanecer junto daquele altar.Depois de alertar-me, Sara passou a falar-me de um plano: Poderíamos, quem sabe, nos mudar para uma cidade distante, onde esqueceríamos todo aquele vexame.Esquecendo-me da voz que mandara-me seguir rumo à planície, respondi para minha esposa que eu estaria disposto a acompanhá-la para qualquer lugar, se ela permitisse que eu levasse o vaso. Ele seria o nosso altar, aquecendo e iluminando nossas noites com sua chama.Ao ouvir sobre o vaso, Sara voltou a irar-se, afirmando não entender minha teimosia em continuar levando sobre os ombros aquele símbolo de vergonha e desprezo. Depois dizer-me tais palavras, voltou-me as costas, retornando para a tenda.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h17
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IIIA História de um VasoAngustiado em não poder realizar o sonho de Sara, prossegui rumo ao futuro incerto, sendo orientado unicamente pela chama, cujo brilho aumentava à medida em que as trevas adensavam-se. Comecei então a meditar sobre aquela chama que acompanhava-me com seu brilho e calor.Eu estava acostumado a ver o Fogo Sagrado entronizado sobre um grande altar de pedras, em meio aos louvores de muitos pastores, dentre os quais eu me destacava como mestre e sacerdote. Naqueles momentos de adoração, eu me vestia com os melhores mantos, e fazia questão de realizar o sacrifício, somente quando todos os meus servos estivessem reunidos ao meu redor, para que ouvissem meus conselhos e advertências. Na hora do sacrifício, eu erguia para o céu minha espada desembainhada, e, com palavras amedrontadoras, proclamava a grandeza do Senhor dos Exércitos, o Deus Todo Poderoso que domina sobre os Céus e a Terra. Vibrando a espada no ar num movimento ameaçador, eu representava diante de meus pastores, a imagem de um Deus severo, que está sempre pronto a revidar qualquer afronta. Depois dessa demonstração de soberania e poder, eu pegava uma ovelha das mãos de um pastor, e a amarrava sobre o altar. Para que ficasse bem patente a ira divina, eu pisava sobre o seu pescoço, golpeando-a severamente, até vê-la perecer. Naquele momento eu descia do altar, e ficava esperando pelo Fogo Sagrado que jamais deixou de manifestar-se sobre o sacrifício.Eu aprendera desde a infância a reverenciar o Fogo Sagrado, crendo ser ele uma revelação visível de Yahwéh, o Grande Deus Invisível. Até então, eu o vira como um Fogo Único e Indivisível. Agora, ao transportar em humilde jarro a chama que se desprendera do Altar, meus pensamentos agitavam-se com o surgimento de um novo conceito sobre o Criador: o conceito de um Deus Sofredor que é capaz de despreender-se do Grande Yahwéh, representado pelo Fogo Sagrado, para acompanhar o pecador em sua jornada.Arrependido, prostrei-me diante do vaso e chorei amargamente. Tinha agora consciência de que todo o zelo demonstrado junto ao Altar, tinha por finalidade a exaltação de meu orgulho, e não do amor daquele que me acompanhava pelo caminho.Subitamente, gravou-se-me na mente a convicção de que aquela pequena chama que se desprendera do Fogo Sagrado, era uma representação do Messias, que Se desprenderia do Grande Yahwéh, para ser o Deus Conosco, companheiro em todas as nossas jornadas. Ao sobrevir-me esta convicção, a chama alegrou-se, tornando-se mais brilhante e calorosa.Com o coração transformado, prossegui pelo caminho rumo ao vale, levando nos ombros o jarro que trouxera-me depois de tanto desprezo, a alegria de uma nova revelação sobre o caráter do Criador.Momentos difíceis começaram a surgir em minha caminhada, quando ventos frios vindos do mar salgado começaram a arremeter-se contra a pequena chama, procurando apagá-la. Eu a amparava com o meu corpo, andando muitas vezes de lado e mesmo de costas, mas sempre avançando rumo ao vale.Ao romper a luz do dia, achei-me a um passo da planície. Comecei a encontrar pelo caminho muitos rebanhos que eram conduzidos por rudes pastores. À medida em que avançava entre eles, surgiam tumultos e confusões, pois muitas ovelhas e cabras assustavam-se com o meu vaso ardente, debandando-se por todas as partes. Isto fez com que a maioria dos pastores ficassem irritados contra minha presença em seu meio.Sabendo que não poderia ficar retido naquele vale, prossegui em frente rumo à Sodoma. Enquanto avançava, começou a acontecer algo interessante: muitas ovelhas, meigas e submissas, começaram a acompanhar-me. Eram poucas a princípio, mas pouco a pouco seu número foi aumentando, até que passei a andar com dificuldade, devido ao grande número de ovelhas que me seguiam. Ao longe eu podia ver os pastores, enfurecidos, pela perda de suas ovelhas mais bonitas.Ao chegar à Cidade de Sodoma, a encontrei vazia e devastada. Seguindo os rastos deixados pelos exércitos e pela multidão de cativos, fui aproximando-me cada vez mais do alvo de minha missão. Ao chegar à campina de Dã, pude avistar ao longe o grande acampamento dos soldados, ao pé de um outeiro. Sem pressa, encaminhei-me para lá, conduzindo o meu novo rebanho.Do alto do monte, pude observar o acampamento em toda a sua extensão. Havia milhares de soldados comemorando sua vitória; Enquanto isso, centenas de cativos jaziam amontoados no meio do arraial, humilhados e sem esperança. Diante desse quadro, fiquei imaginando como poderia se dar o livramento.Minha presença despertou a curiosidade de alguns soldados que, ao ver-me com o vaso fumegante, aproximaram-se e começaram a debochar. Quando perguntaram-me sobre o motivo de minha presença naquele lugar, eu disse-lhes que viera libertar meu sobrinho Ló. Minhas palavras tornaram-se motivo de muitos gracejos em todo o acampamento; Depois disso, passaram a escarnecer de Ló.Em pouco tempo, toda aquela zombaria transformou-se em gritos de vingança, e proclamaram que, na manhã seguinte, todos os cativos seriam exterminados, começando pelo meu sobrinho.Capitulo IVA História de um VasoEnquanto tentava imaginar o que Yahwéh poderia fazer para alcançar tão miraculoso livramento, vi surgir ao longe o vulto de pastores que se encaminhavam em minha direção, vindos de Sodoma. Pensei à princípio que fossem os pastores inimigos que vinham arrancar-me o rebanho conquistado com amor. Tal receio logo desapareceu, dando lugar a um sentimento de muita alegria, quando descobri que eram meus pastores fiéis. Eles foram se aproximando em pequenos grupos de doze, até alcançar o total de 300 pastores. Ao olhar para eles, pude notar em seus semblantes os sinais de uma grande luta espiritual que tiveram de enfrentar, para estarem do meu lado. Contaram-me da experiência de muitos companheiros que, desanimados, haviam lançado fora o azeite e a lã de seus vasos, retornando para as suas tendas. Falaram-me de como, naquela noite passada, haviam aprendido a amar a luz de meu vaso, que para eles tornara-se como uma estrela guia.Alegrava-me com a presença de meus humildes pastores, quando vieram em nossa direção Aner, Escol e Manre, acompanhados por 15 homens armados. Eram fiéis amigos que, conhecendo os perigos que enfrentaríamos naquele vale, vieram em nosso socorro. Para que não atrapalhassem o plano divino, pedi-lhes que permanecessem escondidos até o alvorecer, quando receberiam orientações sobre como participar da missão.Comecei a orientar os pastores, seguindo as instruções da Voz Divina que soava-me de dentro da chama: A primeira tarefa dos pastores, seria cuidar do rebanho até o anoitecer.Ao retornarem, ordenei que amarrassem os novelos de lã embebidos em azeite, na ponta de seus bordões, colocando-os dentro dos vasos que, deveriam ser mantidos suspensos, de boca para baixo.Passei a incendiá-los com o fogo de minha labareda, até que as trezentas tochas ficaram ardendo, porém, ocultas, no interior daqueles vasos.Ordenei à quarenta de meus corajosos pastores que, no momento indicado por um sinal que seria dado, deveriam avançar silentes para o meio do acampamento, circundando todos os cativos que jaziam amontoados no meio do arraial. Ao mesmo tempo, os 260 pastores restantes, deveriam circundar todo o acampamento, aguardando pelo sinal de quebrarem os vasos com os chifres.Orientado pela Voz da Chama, indiquei-lhes os sinais: Quando a última tocha se apagasse no acampamento, deveriam ficar atentos, pois uma pequena lamparina seria acesa por um dos cativos. Assim que a lamparina começasse a arder, deveriam correr cada um para o seu lugar, evitando qualquer ruído, para que não fossem notados.O sinal para quebrarem os vasos com os chifres, erguendo bem alto a tocha, era o apagar da lamparina.Depois dessas orientações, os 260 pastores, ocultos pelas sombras da noite, se espalharam pelo vale, e ficaram esperando pelo momento de se posicionarem ao redor do acampamento. Enquanto isso, os 40 se posicionaram próximos à uma passagem mais vulnerável, através da qual haveriam de alcançar os cativos.Já era alta noite quando a tocha do último soldado apagou-se, sobrevindo completa escuridão e silêncio sobre o arraial.Entre os cativos, havia um homem naquela noite, que vivia a maior angústia de sua vida. Era o meu sobrinho que, depois de tornar-se alvo de tantos abusos e humilhações, tomara conhecimento do castigo que os aguardava pelo alvorecer.Naquela noite, Ló tinha seus pensamentos voltados para o seu tio; Lembrava-se com arrependimento do momento em que me deixara junto ao Carvalho de Mambré, mudando-se para as campinas de Sodoma. Em seu desespero, sentiu desejo de rever minha face e pedir-me perdão por ter-se afastado de mim. Justamente naquele momento, Ló foi atraído pelo brilho de uma tocha que ardia sobre o outeiro. Ao fitar o brilho, imaginou estar tendo uma visão, pois o mesmo revelava-lhe a face de seu querido tio.Querendo mostrar-me o seu rosto, Ló apalpou em meio às trevas, até encontrar uma pequena lamparina que trouxera em seu alforje. Frustrado, percebeu que não havia nela nenhum azeite. Concluiu que aquela lâmpada apagada e seca, era um símbolo de sua vida vazia e sem fé.Sem desviar os olhos de meu rosto iluminado pela chama do vaso, num desesperado gesto de fé, Ló apalpou o pavio de sua lamparina, descobrindo haver nele um restinho de azeite. Curvando-se, passou a ferir as pedras do fogo, até que uma faísca saltou para o pavio. Sem que soubesse, Ló estava comandando com seus gestos, os passos para um grande livramento.Os trezentos pastores ao verem o tênue brilho da lamparina, encaminharam-se rapidamente para os seus postos, e, ficaram aguardando pelo apagar da pequena chama.Desde o momento em que Ló erguera-se com sua diminuta chama, eu fiquei olhando para os seus olhos que fitavam os meus. Vi que sua face trazia sinais de indizível angústia e maus tratos. Mesmo assim, pude ler em seus olhos azuis, que a esperança e a fé ainda não o abandonara. O foguinho da lamparina de Ló, contudo, não resistiria por muito tempo. Era necessário que se apagasse, para sinalizar a grande vitória.Quando a escuridão voltou a cobrir a face de Ló, meus trezentos pastores arremeteram seus chifres contra os vasos que mantinham ocultas as tochas ardendo. Um grande ruído, como de cavalaria em combate ecoou por todas as partes, enquanto as tochas eram suspensas. Os trezentos chifres usados até então para conduzir o rebanho, soavam agora como trombetas de conquistadores.Todo o acampamento despertou-se num único salto, e, sem saber como escapar de tão terrível investida que partia de fora e de dentro, os soldados começaram a lutar entre si, enquanto meus pastores permaneciam em seus lugares, fazendo soar os chifres.Os cativos, ficaram muito espantados à princípio, mas pouco a pouco foram tomando consciência do grande livramento que estava se operando em seu favor.Quando amanheceu, revelou-se aos nossos olhos um cenário de completa destruição; Todo o arraial estava coberto por milhares de corpos rasgados pelas próprias espadas e lanças. Somente uns poucos conseguiram fugir daquele acampamento de morte, mas foram perseguidos pelos meus 18 aliados que estavam armados, sendo alcançados em Hobá, que fica à esquerda de Damasco. Enquanto isso, os cativos, agora libertos, recuperavam todas as riquezas que haviam sido saqueadas pelos inimigos.
Capitulo VA História de um VasoDo cimo do outeiro, enquanto eu vibrava com a alegria dos cativos naquela manhã de liberdade, ouvi a Voz de Yahwéh falando-me do meio da chama:- Este livramento que hoje se concretiza ,representa o livramento que hei de operar nos últimos dias, salvando os remanescentes de teus filhos, do cerco de numerosas nações que se aliarão a Gog com o propósito de destruí-los. Naquele dia em que triunfarem sobre o meu povo, a minha indignação será mui grande, e contenderei com ele por meio da peste e do sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor. E sobre a casa de Daví e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de Graça e de Súplicas; olharão para Mim a quem traspassaram, pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele comos e chora amargamente pelo primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Daví e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza" (Ezequiel 38; Zacarias 12,13).Consciente da importância histórica daquele dia de livramento, tomei um calendário e, fiquei surpreso, pois era Rosh Hashaná, o dia das trombetas. Aquele era o primeiro dia de um novo ano; Dez dias depois viria o Yom Kipur, o dia da purificação dos pecados; No dia 15, teria lugar a festa de Sukot, a alegre festa das colheitas do outono.A chama que para mim tornara-se numa representação do Messias Prometido, apagou-se no momento em que desci ao encontro dos pastores e dos muitos cativos agora libertos. Cheios de alegria e de admiração, todos queriam saber como tornara-se possível tão grande livramento, somente com a utilização daquelas tochas e chifres. Falei-lhes então da importância daquele fogo que se desprendera do Altar, para libertá-los naquele vale, identificando-o com o Messias Salvador.Ao ver que todos carregavam em seus corpos e mantos a sujeira da escravidão, convidei-os a seguirem-me até ao rio Jordão, onde todos poderiam banhar-se, para purificação de seus pecados.Somente três pessoas atenderam ao convite: Ló e suas duas filhas mais novas. Os demais, retornaram, contaminados para suas casas.Antes de partir, o rei de Sodoma veio ao meu encontro, prometendo dar-me todas as riquezas recuperadas naquela manhã. Eu recusei sua oferta, para que jamais alguém possa dizer que eu me enriqueci com aquele saque.Permanecemos acampados às margens do rio Jordão, nas proximidades de Jericó por doze dias. Naqueles dias de refrigério, todos ficaram livres das impurezas, deixando-as nas águas do Jordão. Este era um preparo especial para a festa de Sukot que decidimos comemorar em Salém.Cheios de alegria, iniciamos uma caminhada ascendente rumo à cidade de Salém, inconscientes da feliz surpresa que nos aguardava. Eu seguia à frente tendo ao meu lado Ló e suas duas filhas, e atrás vinham os 300 pastores, conduzindo o grande rebanho.À medida que avançávamos, comecei a notar que o meu vaso que se esvaziara no alvorecer, tornara-se muito pesado. Ao baixá-lo, fiquei surpreso ao descobrir dentro dele muitas pérolas de variados tamanhos e brilhos que se formaram misteriosamente.Ao avistarmos ao longe a alva cidade, começamos a ouvir sons de uma grande festa. Acordes harmoniosos repercutiam pelos montes, enquanto avançávamos pelo caminho.Minha curiosidade em conhecer aquela cidade e o seu jovem rei era imensa, pois da boca de muitos já ouvira sobre sua grandeza e fama. Tratava-se um reino diferente de todos os demais, onde os súditos eram treinados não no manejo de arcos e flechas, mas no domínio de instrumentos musicais. Melquisedeque, o seu jovem rei, regia a todos com um cetro muito especial : um alaúde, pelo qual pagara um preço elevado.Enquanto crescia em mim a alegria por estar nos aproximando da Cidade do Grande Rei, vimos uma multidão vestida de linho fino, puro e resplandecente, saindo ao nosso encontro. Todos tangiam instrumentos musicais, enquanto cantavam um hino de vitória. À frente da multidão vinha um jovem tocando um alaúde, trazendo na fronte uma coroa repleta de pedras preciosas, que brilhavam sob a claridade do sol poente. Eu tive a certeza de que aquele era o tão aclamado rei de Salém.Ao nos encontrarmos, ficamos surpresos com a saudação que nos fizeram; Inclinando-se diante de mim, Melquisedeque afirmou:- Bendito és tu Abraão, servo do Deus Altíssimo, que possui os Céus e a Terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos".
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h15
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo VIA História de um VasoSurpresos pela festiva recepção, fomos introduzidos na cidade, onde a beleza das mansões e jardins nos causou muita admiração. Tudo ali era puro e cheio de paz.Fomos recebidos no palácio real, edificado sobre o monte Sião. Ali, uma nova surpresa nos aguardava:A grande sala do trono, estava toda adornada com representações de nossa vitória sobre os inimigos. Havia no meio da sala uma mesa muito comprida, coberta por toalhas de linho fino adornadas com fios de ouro e pedras preciosas. Sobre a mesa havia 304 coroas, cada uma trazendo a inscrição do nome de um vencedor. Num gesto que novamente nos surpreendeu, Melquisedeque, tomando as coroas, começou a colocá-las na cabeça de cada um de nós, começando por Ló e suas filhas. Estávamos todos admirados pelo fato do rei de Salém conhecer-nos individualmente, e por ter preparado aquelas coroas muito antes de sermos vencedores.Eu observava a alegria de meus companheiros coroados, quando, tomando uma coroa semelhante à sua, o rei de Salém dirigiu-se a mim com um sorriso. Ao levantá-la sobre minha cabeça, notei algo que até então não havia percebido: Suas mãos traziam cicatrizes de profundos ferimentos. Vencido por um sentimento de gratidão, prostrei-me aos seus pés e, comovido, beijei suas bondosas mãos, banhando-as com minhas lágrimas.Ao levantar-me, perguntei-lhe o significado daquelas cicatrizes. Com um meigo sorriso, ele prometeu que iria contar-me toda a história daquele próspero reino, e do quanto lhe custou a sua paz.Depois de coroar-nos, Melquisedeque nos fez assentar ao redor da grande mesa, e passou a servir-nos pão e vinho; A partir daquele momento, passamos a honrá-lo como Sacerdote do Deus Altíssimo.Num gesto de gratidão, tomei o vaso repleto de pérolas, e o coloquei aos pés do rei. Tomando-o nos braços, ele passou a acariciá-lo, sem atentar para o brilho das pérolas. Expressando-me a gratidão por aquela oferta, disse-me que aceitaria o vaso e, das pérolas, somente aceitaria o dízimo.Imediatamente passei a contar as jóias, separando as mais belas para o rei. Haviam um total de 1.440 pérolas, das quais lhe entreguei 144. Ele as guardou cuidadosamente em uma caixinha feita de ouro puro, em cuja tampa havia lindos adornos marchetados de pequenas pedras preciosas.Depois de receber o dízimo que simbolizava o grande livramento operado por Yahwéh na planície, Melquisedeque chamou para junto de si um de seus súditos que era mestre em adornos e pinturas, ordenando-lhe a honrar o vaso com uma linda gravura que retratasse o momento em que eu o ofertei.Enquanto o jarro era pintado, Melquisedeque passou a contar-me a história de seu reino, desde sua fundação até aquele momento em que estávamos comemorando a grande vitória sobre os inimigos.Ao devolver-me o vaso, agora honrado pela mais bela gravura e inscrições que exaltavam a justiça, a humildade e o amor, o rei de Salém ordenou-me a levar comigo o vaso com aquelas pérolas. Durante seis anos eu e meus pastores deveríamos contar para todos a história daquele vaso que fora vitorioso por causa da chama do altar. A todos aqueles que, com arrependimento, aceitassem a salvação representada por sua história, deveríamos oferecer uma pérola. Ao fim dos seis anos, as pérolas acabariam; Já não haveria oportunidade de salvação. Sobreviria então o sétimo ano, no qual haveria um tempo de grande angústia e destruição, quando somente haveria proteção para aqueles que possuíssem as pérolas. Por essa ocasião, as cidades da planície seriam totalmente destruídas pelo fogo do juízo, e os demais povos impenitentes, seriam dizimados por grandes pragas.
Capitulo VIIA História de um VasoSobre o triunfo que acabávamos de obter sobre numerosos exércitos, Melquisedeque, depois de repetir-me as palavras ditas pelo Messias, deixou um sinal que seria importante para aqueles que vivessem por ocasião do grande livramento de Israel. Afirmou que, multiplicando as 144 pérolas do dízimo pelo número de colunas de seu palácio, encontraria o ano que traria em sua consumação o grande livramento de Israel. Movido pela curiosidade, comecei imediatamente a contar as colunas; Eram 40 colunas de mármore, adornadas com pedras preciosas.Ao retornar ao rei com o resultado dos cálculos, ele passou a fazer predições sobre os grandes acontecimentos que teriam lugar ao fim daquele ano:- Ao chegar a plenitude dos tempos, todos os esforços humanos em busca da paz se frustrarão. Naquele tempo, numerosos nações se aliarão contra o reino de Salém; Haverá uma batalha como nunca houve, e toda a terra será castigada pelo fogo; Depois de esgotarem todos os recursos em sua defesa, Israel verá, com desespero, incontáveis inimigos marchando contra eles, com o propósito de eliminá-los. Como Ló em sua noite de angustia, eles verão morrer sua esperança, quando, em Rosh Hashanah, ouvir-se-á em meio às ruínas de Salém, os acordes harmoniosos de um alaúde, tocado por um beduíno da tribo de Taamireh; Sua música fará renascer a fé e a esperança em um mundo melhor, onde nação não se levantará contra nação; onde as lágrimas, a dor e a morte não mais existirão.Depois de consolar os aflitos com os acordes de seu alaúde, o beduíno tomará o vaso com os pergaminhos da Tumba de Davi, e o levará sobre os ombros. Naquele dia, estarão os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, e, ao clamar pelo livramento de Israel, haverá um forte terremoto que rachará o monte pela metade, surgindo do oriente para o ocidente um enorme vale. Naquele dia, toda a terra de Israel será fortemente sacudida, sobrevindo total destruição para todos os exércitos inimigos; Haverá, contudo, salvação para todos aqueles que, com arrependimento, refugiarem-se sob as asas do Eterno, lançando para longe de si os instrumentos de violência.Toda a humanidade testemunhará, com espanto, as cenas de livramento dos filhos de Israel. Naquele dia, muitos povos e poderosas nações se posicionarão ao lado de Yahwéh dos Exércitos; Multidões se aproximarão dos judeus da diáspora, dizendo: Nós iremos convosco, porque sabemos que o Eterno está do vosso lado.O Yom Kipur que seguirá ao livramento, será um dia de purificação das impurezas de todos aqueles que aceitarem a salvação; Naquele dia acabará a cegueira dos filhos de Jacó, e olharão para Aquele a quem traspassaram, e chorarão amargamente por ele como se chora por um filho unigênito. (Zacarias 12,13).Na festa de Sukot (colheitas) será derramado o Espírito de Deus sobre toda a carne; E há de ser que, todo aquele que invocar o nome de Yahwéh, será salvo, recebendo uma pérola do vaso (Joel 3).No decorrer dos dias de Sukot, chuvas de bênçãos cairão sobre o imenso vale, fazendo surgir à vista de todos os povos, em toda a Terra Santa, um paraíso repleto de alegria e paz.Naquele dia os eleitos de Deus compreenderão as palavras do Livro:"Ouvi-me, vós, que estais à procura da justiça, vós que buscais a Yahwéh. Olhai para a rocha da qual fostes cavados, para a caverna da qual fostes tirados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu a luz. Ele estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei. Yahwéh consolou a Sião, consolou todas as suas ruínas; ele transformará o seu deserto em um Éden e as suas estepes em um jardim. Nela encontrarão gozo e alegria, cânticos de ações de graças e som de música"(Isaías 51:1-3).Naquele dia os remidos olharão para o humilde beduíno que libertou da caverna o vaso de Abraão, e cantarão com alegria:"Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina! Porque Yahwéh consolou o seu povo, ele redimiu Jerusalém. Yahwéh descobriu o seu braço santo aos olhos de todas as nações, e todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus" (Isaías 52:7-10).Durante seis anos, toda a humanidade, iluminada pela maior revelação do amor e da justiça de Yahwéh, terá oportunidade de romper com o império do pecado, unindo-se aos filhos de Israel em sua marcha de purificação e restauração do reino da luz..Então acontecerá que, todos os sobreviventes das nações que marcharam contra Jerusalém, subirão, ano após ano, para prostrar-se diante do rei Yahwéh dos Exércitos, e para celebrar a festa de Sukot. E acontecerá que aquele das famílias da Terra que não subir e não vier, haverá contra ele a praga com que Yahwéh ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa de Sukot (Zacarias 14: 16- 18).Naqueles anos de oportunidade, soará por todas as partes do mundo o último convite de misericórdia, num apelo para que todos os pecadores se arrependam e se unam numa eterna aliança com Yahwéh, dizendo:"Assim diz Yahwéh: Observai o direito e praticai a justiça, porque a minha salvação está prestes a chegar e a minha justiça, a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que assim procede, o filho do homem que nisto se firma, que guarda o sábado e não o profana e que guarda sua mão de praticar o mal. Não diga o estrangeiro que se entregou a Yahwéh: - Naturalmente Yahwéh vai excluir-me do seu povo, nem diga o eunuco: -Não há dúvida, eu não passo de uma árvore seca". Pois assim diz Yahwéh aos eunucos que guardam os meus sábados e optam por aquilo que é a minha vontade, permanecendo fiéis à minha aliança: Hei de dar-lhes, na minha casa e dentro dos meus muros, um monumento e um nome mais precioso do que teriam com filhos e filhas; hei de dar-lhes um eterno nome, que não será extirpado. E, quanto aos estrangeiros que se entregarem a Yahwéh para servi-lo, sim, para amar o nome de Yahwéh e tornarem-se servos seus, a saber, todos os que se abstêm de profanar o sábado e que se mantêm fiéis à minha aliança, trá-los-ei ao meu santo monte e os cobrirei de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão bem aceitos no meu altar. Com efeito, a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos" (Isaías 56: 1 - 7).Nos seis anos de oportunidade, Samael, o grande enganador, num gesto de desespero, empregará todos os recursos possíveis para impedir a realização de Yahwéh através de Seu povo. Em oposição à santificação do sábado que é o sinal da aliança entre Yahwéh e seus escolhidos, numerosas religiões, aliadas a governantes ímpios, imporá outro dia para o culto, não podendo comprar nem vender todos aqueles que mantiverem-se fiéis à aliança de Yahwéh (Ver Ezequiel 20:20;Apocalípse 13).Naqueles anos de provas, os eleitos de Deus sobreviverão mediante o cuidado dos anjos, que os conduzirá para distante das populosas cidades que serão castigadas pelas sete últimas pragas que cairão sobre os impenitentes ao fim dos seis anos( Apocalipse 15).Durante os seis anos da colheita final, o Messias edificará uma Nova e Eterna Jerusalém, adornando-a com os atos de justiça de Seus escolhidos. (Êxodo 25: 1 - 8) Isaías 60: 10 -22 ; Zacarias 6: 12 - 15; Apocalipse 3:12) Essa Nova Jerusalém somente será revelada ao completar-se toda a justiça divina, ao fim do sétimo ano, período em que os eleitos de Deus terão como desafio viver uma vida sem culpas, pois qualquer ato de rebeldia naquele tempo, ficaria sem expiação, significando eterna vergonha para o Criador.Ao completarem-se os sete anos, ,o Messias aparecerá nas nuvens do céu, acompanhado por todas as hostes celestes; Ao tocar Sua trombeta naquele grande Rosh Hashanáh, os fiéis falecidos, ressuscitarão revestidos de glória; os vivos vitoriosos, serão transformados num abrir e fechar de olhos , recebendo corpos perfeitos; Juntos, todos os remidos serão arrebatados para a Nova Jerusalém, numa viagem inesquecível que começará no primeiro dia da festa de Sukot; Depois de sete dias de feliz ascensão, chegarão à Cidade Santa para comemorarem, diante do trono, o oitavo dia da festa. Como que a sonhar, os resgatados do Senhor entrarão na Cidade Santa, encontrando ao seu norte, o jardim do Éden, no meio do qual eleva-se o monte Sião, o lugar do trono de Yahwéh. Coroados pelo Messias, os remidos entoarão o cântico da vitória, fazendo vibrar por todo o espaço os acordes de suas harpas, alaúdes e flautas.Capitulo VIIIA História de um VasoDepois de proferir todas essas predições, Melquisedeque disse-me que toda a experiência que estávamos vivendo, era prefigurativa. Para que todo o drama se consumasse, tínhamos ainda diante de nós acontecimentos importantes: Primeiramente, eu deveria retornar ao Carvalho de Mambré juntamente com os meus pastores, para proclamar a todos a salvação representada pela história daquele vaso. Todo aquele que, com arrependimento, aceitasse o Messias revelado, teria seus pecados perdoados, recebendo uma pérola. Ao fim de seis anos, ao chegar à véspera de Rosh Hashaná, as pérolas acabariam, não havendo mais oportunidade de salvação. Por aquele tempo, o fogo do juízo cairia sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, havendo terríveis pragas sobre todos os infiéis.Ao ouvir tais palavras do rei de Salém, sobreveio-me grande angústia, ao lembrar-me dos últimos passos de Sara; Eu temia que ela, em sua incredulidade, não aceitasse uma pérola. Se isto acontecesse, os meus lindos sonhos ruiriam por terra, pois não conseguiria ser feliz em sua ausência. Lendo nos meus olhos a angústia, Melquisedeque consolou-me com uma promessa:- Abraão, daqui a seis anos Yahwéh te visitará em sua tenda, e sua esposa será curada de sua aridez. Ela se converterá e lhe dará um filho que se chamará Isaque.Ao findar a festa de Sukot, retornamos às nossas tendas junto ao Carvalho de Mambré. À medida em que íamos avançando pelo caminho, muitas pessoas nos cercavam, admirados pela beleza do vaso repleto de pérolas; A todos contávamos a história de sua chama redentora, e oferecíamos as pérolas a todos que crendo, aceitavam a salvação.Quando chegamos ao Carvalho de Mambré, uma multidão de pessoas no esperava; Muitos tinham ouvido falar do miraculoso livramento operado através daquele vaso que fora alvo de tanto menosprezo. Agora, todos estavam emudecidos ao vê-lo glorificado.Juntamente com os meus pastores, continuamos a proclamar o infinito amor de Yahwéh revelado pela chama. O número daqueles que procuravam pelas pérolas foi aumentando, dia após dia, e todos éramos felizes.Os dias, os meses e anos foram-se passando, e a quantidade de pérolas foram diminuindo dentro do vaso. Estávamos vivendo agora os últimos meses do sexto ano, que era o último da oportunidade. À medida em que os dias se passavam, aumentava em meu coração uma preocupação e uma angústia, pois Sara até então não tomara interesse em apossar-se de sua pérola, apesar de meus constantes rogos.Naqueles momentos de aflição em que clamava a Deus pela salvação de Sara, meu único consolo eram as últimas palavras do rei de Salém, de que ao fim dos seis anos ela seria transformada.Vivíamos agora os últimos dias do sexto ano; A consciência de que o tempo estava esgotando, fazia com que muitas pessoas me procurassem de manhã até à noite, para apossarem-se das pérolas da salvação.Com o coração ferido por indizível aflição, eu insistia com Sara, procurando convencê-la de sua necessidade em tomar, o quanto antes, uma pérola, pois as mesmas estavam ficando a cada dia mais escassas. Sem atentar para a minha angústia, Sara desdenhava de meus apelos, afirmando que aquelas pérolas não tinham nenhum significado para ela.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h10
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IXA História de um VasoDepois de uma noite de vigília em que, desesperadamente, procurei convencer minha amada a apossar-se se sua pérola, aceitando a salvação representada por aquele vaso, vi o sol surgir trazendo a luz do último dia - véspera de Rosh Hashaná. Ao olhar para dentro do vaso naquela manhã, vi que restavam apenas três pérolas. Ao admirar-lhes o brilho, comecei a imaginar que a mais brilhante seria para o meu filho prometido, a de brilho intermediário seria a de Sara, e a última seria a minha. Esse pensamento trouxe-me alívio e esperança; Mas, ao mesmo tempo, comecei a preocupar-me com a possibilidade de chegar pessoas procurando por elas; Se viessem, eu não poderia negar-lhes o direito à elas.Tomado por essa preocupação, permaneci sentado sob o Carvalho de Mambré. Na viração do dia, sobreveio-me um grande estremecimento quando vi ao longe três peregrinos que caminhavam rumo à nossa tenda. Comecei a clamar a Deus que eles mudassem de rumo, mas meus clamores não foram atendidos. Dominado por uma grande amargura, corri até eles, e, depois de prostrar-me, convidei-os para a sombra.Tomando uma bacia com água, passei a lavar-lhes os pés, limpando-os da poeira do caminho. Ao ver os pés feridos e calejados daqueles homens, senti compaixão por eles; Compreendi que haviam vindo de muito longe, enfrentado perigos e desafios, com o propósito de pegarem em tempo as pérolas. Vi que eles eram muito mais merecedores do que eu, Sara e nosso filho prometido.Ao lavar os pés do terceiro, meu coração que até então estava aflito, encheu-se de paz e alegria; Imaginava naquele momento, quão terrível seria se aquele terceiro peregrino, não houvesse se unido aos dois primeiros naquela caminhada; Nesse caso eu seria obrigado a tomar da última pérola, subindo sem minha amada à Salém. Se eu tivesse de passar por essa experiência, a pérola que simboliza a alegria da salvação, se tornaria para mim num símbolo de solidão e tristeza, pois a vida longe do carinho de Sara, seria para mim o maior castigo, como a própria morte.Depois de lavar-lhes os pés, comecei a servir-lhes o alimento que foi especialmente preparado para eles. Enquanto os servia em silêncio, eu ficava esperando pelo momento em que eles me perguntariam pelas pérolas. Mas sem revelar nenhuma pressa, eles falavam sobre a longa caminhada que fizeram, sobre as cidades por onde haviam passado. Eu perguntei-lhes se conheciam Salém; Eles responderam-me afirmativamente, acrescentando que naqueles seis anos, muitas obras haviam sido realizadas naquela cidade, em preparação para uma grande festa que estava para realizar-se dentro de mais um ano, por ocasião de Sukot.As palavras daquele terceiro peregrino, o mais falante dos três, começaram a trazer-me, misteriosamente, um sentimento de esperança. Ao olhar para os seus olhos azuis, vi que ele se parecia com Melquisedeque.Lembrava-me da última promessa feita pelo rei de Salém, quando o terceiro peregrino perguntou-me com um sorriso:- Abraão, onde está Sara tua mulher?!Atônito, perguntei-lhe:- Como você sabe o meu nome e o nome de minha esposa?O peregrino, respondeu-me:- Não somente sei o nome de vocês, como também sei que, daqui a um ano vocês terão um filho que será chamado Isaque.Ao ouvir as palavras do visitante, corri para dentro da tenda afim de chamar minha esposa, para que ouvisse as palavras daquele peregrino.Ao vê-la, o peregrino perguntou-lhe:- Sara, porque você riu de minhas palavras?Assustada, Sara, respondeu:- Eu não ri meu senhor!- Não diga que não riu, pois eu a vi rindo dentro da tenda. Afirmou o peregrino.Consciente de estar diante de alguém que conhecia o seu íntimo, Sara perguntou-lhe:- Quem és tu Senhor?!- Eu Sou a chama que desprendeu-se do Fogo do Altar para estar no vaso de seu esposo! Eu Sou o Messias, o Yahwéh que sofre humilhações e desprezo por amor ao Seu povo!.Tendo feito esta revelação, o peregrino estendeu Suas mãos sobre a cabeça de Sara para abençoá-la; Somente então vi que elas estavam marcadas por cicatrizes semelhantes às do rei de Salém.O peregrino, com muita ternura, começou a falar ao coração de minha amada, resgatando-a de sua caverna de incredulidade:- Sara, você é preciosa aos meus olhos! Todo o seu passado de descrença e infertilidade está perdoado! Tenho para você um futuro glorioso, pois você se tornará mãe de muitos povos e nações!Depois de dizer estas palavras, o nobre visitante encaminhou-se para o vaso e, inclinando-se, tomou dele as três pérolas restantes. Dirigindo-se a Sara, entregou-lhe duas pérolas, e disse-lhe:- Uma é para você e a outra é para o teu filho Isaque.Com a vida transformada pelo amor de Yahwéh, Sara prostrou-se agradecida aos pés daquele peregrino que a salvara no último momento de oportunidade. Quando a vi prostrar-se submissa, meu coração por tantos anos aflito, rompeu-se em lágrimas de alegria e gratidão, e caí aos pés de meu Redentor e Rei.Depois de consolar-nos com a certeza de nossa eterna salvação, o peregrino entregou-me a última pérola. Quando apertei-a em minhas mãos senti grande luz de alegria e paz penetrar-me todo o ser, e passei a louvar ao Eterno pela certeza de que teria para sempre ao meu lado minha querida Sara e o filho da promessa que, dentro de um ano nasceriaCapitulo XA História de um VasoDepois destas coisas, Yahwéh despediu-se de Sara e dos pastores que ali se encontravam, e convidou-me a acompanhá-los até o outeiro que fica defronte do vale. Ao chegarmos àquele lugar, o Eterno despediu-se de seus dois companheiros, enviando-os para uma missão especial em Sodoma.Do cimo do monte contemplávamos os férteis vales e florestas que, como um paraíso, estendiam-se em ambas as margens do rio Jordão, circundando as prósperas cidades, dentre as quais destacavam-se Sodoma e Gomorra.Fora sobre aquela colina que, depois da contenda entre os meus pastores e os pastores de Ló, dei-lhe a oportunidade de escolher o rumo a seguir, pois não poderíamos permanecer juntos. Atraído pelas riquezas da campina, ele decidiu mudar-se para lá.Ao olhar para o meu companheiro que ficara silente desde o momento em que avistamos a campina, fiquei surpreso ao vê-lo chorando. Perguntei-lhe o motivo de sua tristeza, e Ele, soluçando respondeu:- Este é para mim um dia de muita tristeza, pois pela última vez meus olhos podem pousar sobre este vale fértil. Choro pelos habitantes dessas cidades que não sabem que os seus dias acabaram!A declaração de Yahwéh trouxe-me à lembrança todos aqueles cativos que haviam sido libertos seis anos antes; Infelizmente, quase todos rejeitaram o banho da purificação, retornando imundos para suas casas; Unicamente Ló e suas filhas aceitaram a salvação, tomando posse de suas pérolas. Pensando numa possibilidade de livramento para aquele povo, perguntei ao Senhor:- E se por acaso existir naquelas cidades, cinqüenta pessoas justas, mesmo assim elas serão destruídas?Yahwéh disse-me que se houvesse cinqüenta justos, toda a planície seria poupada.- E se hover 45 justos?.Se houvesse ali 45 justos, toda aquelas cidades seriam poupadas.Continuei com minhas indagações até chegar ao número dez. Yahwéh disse-me que se houvesse 10 justos naquelas cidades, toda a planície seria poupada.Torturado por uma indizível agonia de espírito, Yahwéh voltou a chorar amargamente, enquanto com voz embargada, pronunciava um triste lamento:- Sodoma e Gomorra, quantas vezes quis Eu ajuntar os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintainhos debaixo das asas, mas você não aceitou minha proteção. Por que você trocou a luz da minha salvação, pelas trevas deste reino de morte?! Meus ouvidos estão atentos em busca de, pelo menos uma prece, mas tudo é silêncio! Minhas mãos estão estendidas, prontas a impedir o fogo do juízo, mas vocês recusam o meu socorro!Curvando-me ao lado de meu companheiro sofredor, uni-me a Ele na lamentação. Naquele momento de dor, tive a certeza de que Melquisedeque também sofria por todos aqueles que haviam trocaram o amor e a paz de Salém, pelas ilusões daquele vale de destruição.Depois de um longo pranto, Yahwéh consolou-me, com a revelação de os seus dois companheiros, encontravam-se naquele momento em Sodoma, com a missão de salvar Ló e suas filhas, livrando-os da morte. Suas palavras trouxeram-me grande alívio, e prostrei-me agradecido aos seus pés.
Capitulo XIA História de um VasoAntes de partir, Yahwéh encarregou-me de uma missão, dizendo:- Tome um rolo vazio e registre nele a história do vaso e a história de Salém, conforme ouviste dos lábios de Melquisedeque. Dentro de um ano, você e todos aqueles que aceitaram a salvação, deverão subir à Salém para a festa de Sukot; Naquele dia, devolverá ao rei de Salém o vaso, oferecendo dentro dele como presente, o rolo.Naquela mesma tarde, em obediência às ordens de Yahwéh, comecei a registrar a história vivida por mim e por meus pastores, desde o momento em que parti rumo ao vale, levando sobre as costas o vaso com sua labareda.No dia seguinte, o sol já ia alto, quando, ao mencionar a cidade de Sodoma no manuscrito, lembrei-me que aquele era o dia de sua destruição.Com o coração acelerado, corri para lá e fiquei espantado com o cenário que estendeu-se diante de meus olhos: Em lugar daquele vale fértil, semelhante a um paraíso, havia um deserto fumegante, sem nenhuma vida; No lugar das cidades de Sodoma e Gomorra, havia uma profunda cratera, para onde as águas do mar salgado escorriam.Abalado ante essa visão de destruição, retornei à tenda com o coração entristecido . A lembrança de tantas pessoas que, por rejeitarem o perdão divino, haviam sido consumidas pelo fogo, deixava-me profundamente abalado. Nos dias seguintes, não encontrei forças para escrever; Retornei outras vezes ao outeiro, com a esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas em lugar do vale fértil eu somente conseguia enxergar aquele caos.Demorou vários dias para que eu voltasse a ter ânimo para prosseguir com os escritos do rolo.Fim da primeira parte.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h08
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IA História de Salém
Esta é a história de Salém segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por ocasião da festa de Sukot, quinze dias depois do livramento de Ló e suas filhas.Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias; Ele possuía de muitas riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a paz que nascem da sabedoria e do amor.Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã, Adonias resolveu edificar um reino que fosse regido por leis de amor e de justiça. O nome da capital desse reino seria Salém, a Cidade da Paz.Os súditos de Salém não empunhariam arcos e flechas, mas seriam treinados na arte musical; Cada habitante de Salém teria sempre ao alcance de suas mãos um instrumento musical, para expressar por meio dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos, formariam uma poderosa orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do egoísmo.O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi elaborar as leis do novo reino, as quais ele as escreveu em um pergaminho. Os súditos de Salém não poderiam mentir, furtar, odiar, nem matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa de todo o mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz..As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade, da amizade, e, acima de tudo, do amor que é a maior de todas as virtudes.Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino, Adonias passou a arquitetar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena, com habitações para mil e duzentas pessoas. Como lugar de sua edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte das Oliveiras.Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de todas as partes que, de perto e de longe, vinham para conhecerem os palácios e as mansões que estavam sendo edificados. Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que Salém destinava-se aos limpos de coração - aqueles que estivessem dispostos a obedecerem suas leis.Capitulo IIA História de SalémA edificação da cidade foi finalmente concluída e Salém revelou-se formosa como uma noiva adornada, à espera de seu esposo.Assentado em seu trono, Adonias examinava agora os numerosos pretendentes a súditos que chegavam de todas as partes. Aqueles que, prometendo fidelidade às leis, eram aprovados, recebiam três dotes do rei: o direito à uma mansão, vestes de linho fino e um instrumento musical no qual deveriam praticar.A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no decorrer da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele reino, dizendo:- A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados, nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles que permanecerem leais, progredindo na prática das leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz. Aqueles que forem enlaçados por culpas e transgressões, serão banidos pelo juízo.As palavras do rei levou a todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são as raízes de todos os males.Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque. A beleza, ternura e sabedoria desse filho amado, haviam sido sua inspiração para a edificação fundação de seu reino.Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada. Era plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos. Este plano, o manteria em segredo até o momento devido.O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito querido de todos em Salém. Ele tinha sempre nos lábios um sorriso e uma palavra de carinho. Apreciava estar junto aos súditos em seus lares, recitando-lhes as leis do pergaminho em forma de lindas canções que vivia a compor. Sua presença trazia ao ambiente uma atmosfera de felicidade e paz. Esse amado príncipe possuía, de fato, todas as virtudes necessárias para ser rei de uma Salém vitoriosa.Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho. Diariamente ele observava os moradores, procurando entre eles essa pessoa a quem desejava honrar.Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros, Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era, encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias alegrou-se por haver encontrado aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia fiel do príncipe, chamava-se Samael.Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde, recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre os quais o direito de estar sempre ao seu lado.Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o qual todos foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o aclamaram com alegria, acreditando ser o próprio príncipe.Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai.No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das virtudes que coroavam o amado príncipe.Capitulo IIIA História de SalémSalém crescia em felicidade e paz.Com alegria, os súditos reuniam-se a cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz.Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa, sobressaia aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão do monte, Samael tornara-se seu companheiro constante. Passavam longas horas juntos, meditando sobre as leis do pergaminho.Com admiração, o súdito honrado via o filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções. As doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor.Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe, além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de seu íntimo.Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no pergaminho, convocou-os para um banquete, no qual faria importantes revelações.Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael.Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém, eram em grande medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o autor daquelas doces canções.Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos mantidos até então em segredo.Com voz pausada, disse-lhes:- Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras, como quando as recebestes de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e instrumentos, hoje são maiores.Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:-Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo fiéis como até aqui, sereis honrados confirmados como súditos deste reino de paz. Contudo, se alguém for achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos traga muita tristeza e sofrimento.As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se, indagavam reverentes: - Estaremos aprovados?!Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes seu grande segredo:- Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o meu filho , a quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes revelara todo o seu plano, por isso pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:- O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio seu cetro , simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe prostrando-se aos pés de seu pai, chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando ver o raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa.Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:- No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o guardião da honra desse reino triunfante.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h04
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IVA História de SalémSamael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia. Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de glória. Considerando as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser dominado por um sentimento de exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do pergaminho, vivera uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição. Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés, aclamando com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse sentimento, não dava por conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira, estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça.Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o pensamento de ser deixado em segundo plano. Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?! Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade.Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe, recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções. Agora, tais momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam os seus ideais. Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria o antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do novo reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião daquelas leis? Essa "vitória" procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria.Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das glórias do reino vindouro, onde os dois, cobertos de honras, desfrutariam dos louvores de uma Salém vitoriosa. Seriam eles os heróis do mais perfeito reino estabelecido entre os homens.As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao coração do jovem príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e humildade do pergaminho.Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler compassadamente os seguintes parágrafos:- O reino de Salém será firmado sobre a humildade ,pois esta virtude é a base de toda verdadeira grandeza.A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações ,iludindo-a como se as mesmas fossem de infinito valor.A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço pelos semelhantes.Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo:- Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito acima deste pergaminho ,cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses anos de prova. A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não coexistirá com estas leis, cujo objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós dois coroarmos Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim. Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho.O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura. Como libertá-lo desse caminho de morte?!Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis não podiam jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz.Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso.Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo.Os dias que seguiram-se à libertação, foram cheios de realizações; O príncipe revelava-se ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir triunfante no caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de conhecer o cetro que estava sendo moldado.Num momento de descuido, Samael que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça lhe sobreveio no momento em que o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde, no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.
Capitulo VA História de SalémDe sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a, qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a formular planos de conquista. Já podia sentir-se exaltado sobre o seu trono, tendo nas mãos o cetro precioso. Todos aclamariam-no como o libertador da opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer. Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista.Samael decidiu agir sutilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho um impecílio à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade, revelando interesse pelo crescimento da felicidade de todos.Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das glórias do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade.Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o como um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que em meio àquela atmosfera de júbilo e gratidão uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras da qual muitos poderiam cair por descuido.Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver exercido naqueles seis anos prestes a findarem ,uma missão de prova. Em sua lógica, contudo, procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho, seria um entrave à concretização da verdadeira liberdade.As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos seria selado. Um terço dos habitantes ,seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora, em completo desprezo às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados.Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições.Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam, dando lugar ao caos.Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz cheia de bondade ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no caminho da paz. Suas palavras a todos emocionou, ficando até mesmo Samael ficou a princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira, o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho, endureceu-se em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano.Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom que ficava fora dos muros de Salém.Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, ,começou a falar-lhes de seus planos de vingança e traição:- Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como rei em lugar de Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações sobre a maneira de agirem a partir daquela data:- Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação. À meia-noite, furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, juntos, fugiremos para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. Ali nos armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos. Acabaremos então com o pergaminho e com todos aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo.Capitulo VIA História de SalémSobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz Samael, fingindo fidelidade, estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os seguidores de Samael, da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que expressavam a grandeza dos princípios aos quais repugnavam.Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação, ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente para aquela ocasião.Com felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar Salém cada vez mais honrada por sua beleza e harmonia.Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria o golpe da traição.Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe todo o segredo: a sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro. Contemplando-o o astuto Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o selo do domínio; Compreendeu que, aquele que o possuísse, teria nas mãos o reino de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele instrumento precioso.O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota.Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação. Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso maldoso. Como ansiara por aquela noite!Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória , revisavam sob a luz de candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus últimos preparativos para desferirem o golpe.À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom, onde esperariam pelo seu novo rei.amael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal, dirigindo-se silentemente à sala que guardava o precioso cetro.Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo, dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo:- Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:- Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os momentos festivos da coroação. Enquanto isso, o rebelde com as mãos trêmulas, apossava-se do cetro. Naquele momento, teve a idéia de levar somente o alaúde, deixando o estojo em seu devido lugar.Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio.Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando:- Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a terra e o mar.A minha força está nas trevas , pois através dela o conquistei.Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur)..Despertando de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação. Vestes especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas, foram-lhe preparadas. Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro de seus súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião.Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento. Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul, levando consigo seus instrumentos musicais.Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos. Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava-lhe a face mais querida de seu amigo Samael.Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael; Sua voz, contudo, não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em sua glória, através de conselhos sábios. Recordou daqueles dias que seguiram à sua recuperação; Como se alegrara com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! Levando-o a pressentir a tragédia, veio-lhe a lembrança as indagações de Samael sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade. A memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite, deu-lhe a certeza que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem dedicara tanto amor.Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo. Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos da rebeldia.Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis. Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe guiou-os em marcha triunfal rumo ao palácio.
Escrito por César Bernardo de Souza às 18h58
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo XIIA História de SalémOs súditos triunfantes que, reverentes, haviam sido conduzidos a todo aquele passado de felicidade, traição, dor e triunfo, uniram finalmente as vozes numa jubilosa proclamação:Verdadeiros e justos são os teus princípios, ó rei de Salém. Digno és de reinar em glória e majestade entre os louvores de teus fiéis, porque em teu sacrifício nos livraste das ameaças das trevas, fazendo renascer em nosso coração a alegria do alvorecer.Esse cântico de exaltação foi seguido pela cerimônia de confirmação de todos os fiéis em sua vitória. O filho de Adonias, com o seu cetro redimido, passou a selar com um toque especial do cetro, a vitória de cada um. Formou-se para tanto uma longa fila de fiéis exultantes.Os súditos confirmados, à medida em que iam recebendo o toque de aprovação do rei, posicionavam-se ao lado direito do trono, onde permaneciam aguardando pela confirmação dos outros.Os olhares que, iluminados de alegria, haviam acompanhado o selamento dos últimos justos, pousaram sobre a figura estranha de Samael que, dominado por uma força irresistível, encaminhava-se cabisbaixo em direção do trono. Seu aspecto era horrível: seu semblante havia sido deformado pelo mal; suas vestes estavam sujas e mal cheirosas; tudo nele repugnava, ao ponto de ninguém reconhecê-lo.Em meio ao espanto dos súditos, Melquisedeque ergueu-se de seu trono como que ferido por uma grande dor; De seus lábios os súditos ouvem uma dolorosa exclamação:- Samael, Samael!!!A figura deplorável daquele que fora tão belo, encheu a todos de tristeza, e começaram a prantear. Eles lamentavam por saber que o destino de Samael e de todos aqueles que o seguiram, poderia ter sido muito diferente, se eles houvessem atendido aos rogos de amor de Adonias e de seu filho. Não era o plano do rei e o sonho de Melquisedeque tê-lo como o guardião do pergaminho, sendo o segundo em honra naquele reino?Samael que, reconhecendo sua desventura, aproximara-se cabisbaixo do trono, ao presenciar toda aquela lamentação, é novamente iludido pelo orgulho, julgando tratar-se de uma demonstração de fraqueza de seus inimigos. A lembrança de seu exército que fortalecido o aguarda na planície, ilude-o com a certeza de que será vitorioso sobre Salém.Com esse pensamento, ergue a fronte marcada pelo ódio e, fitando o rei, levanta o punho cerrado e o desafia, desdenhando de sua autoridade, com a ameaça de tomar-lhe o trono.Ainda que condoídos por sua perdição, os súditos de Salém não suportaram a ousada afronta daquele enlouquecido jovem que, depois de causar tanto sofrimento, ainda era capaz de erguer-se com tamanho desafio.O vitorioso rei que com tanto prazer selara com o seu cetro a conquista dos fiéis, ergueu-o dolorosamente para o selamento da triste sorte dos rebeldes. Imobilizado por uma força estranha, Samael, sem desviar os olhos do cetro, ouviu dos lábios do rei a proclamação de seu julgamento e de todos os seguidores:Prisioneiros de uma força invisível, ficariam retidos em suas cavernas por seis anos, sendo depois visitados pelo fogo do juízo que os destruiria juntamente com as cidades que a eles se aliaram.
A História de SalémCapitulo XIIIAo ir para a cama depois daquele dia de tantas emoções, o jovem rei, imerso nas lembranças daquele passado de felicidade e dor, rolava em sua cama insone. Quando finalmente adormeceu, teve um sonho muito significativo.No sonho, apareceu-lhe um anjo luminoso, que saudou-o com um sorriso, dizendo-lhe que todo o Universo acompanhava com atenção todo aquele drama que estavam vivendo, que o mesmo tinha um sentido prefigurativo, retratando acontecimentos passados e futuros, que envolvia todo o vasto universo.As palavras do anjo despertaram em Melquisedeque um grande desejo de conhecer a história desse drama cósmico.Conhecendo o seu anseio, o anjo arrebatou-o no sonho revelando-lhe um distante futuro. Diante de seus olhos manifestaram-se as glórias de uma nova e esplêndida Salém, cujas muralhas e mansões eram feitas de pedras preciosas; Os portais da cidade eram de pérolas. Suas amplas avenidas eram de ouro puro. A cidade era quadrangular e se estendia por centenas de quilômetros. Estava dividida em dois setores distintos: Norte e Sul. Ao Sul elevavam-se incontáveis mansões, habitações eternas de anjos e de seres humanos redimidos; Ao Norte havia um lindo paraíso ao qual o anjo revelou ser o jardim do Éden. Ali, em ambas as margens do rio da vida, havia campos repletos de todo tipo de vegetação, com flores e frutos em abundância. Viviam ali em perfeita harmonia, todas as espécies de insetos, aves e animais.No meio do paraíso podia-se ver uma montanha fulgurante, a qual o anjo afirmou ser o monte Sião, o lugar do trono de Deus. Era daquele monte que emanava o rio da vida, fluindo por toda a cidade.Quando alcançaram o topo da montanha sagrada, o rei de Salém ficou deslumbrado com o cenário visto ao seu redor. Encontrava-se na parte mais elevada de Sião a mais linda de todas as edificações revelado pelo anjo como o palácio de Deus. Aquela magnífica construção era sustentada por sete colunas, todas de ouro transparente, engastadas de lindas pérolas. Ao redor do palácio, floresciam a mais exuberante vegetação: havia ali o pinheiro, o cipreste, a oliveira, a murta, a romãzeira e a figueira, curvada ao peso de seus figos maduros.Enquanto admirava-se ante a beleza daquele lugar, o anjo disse-lhe que a nenhum ser humano fora dado o privilégio de ver o interior daquele palácio de Deus. A ele seria dada esta honra, pois fora escolhido para ser o portador das mais amplas revelações sobre o reino da luz.Ao transporem com reverência um dos portais de pérolas, prostraram-se em adoração, enquanto ouviam o cântico de uma multidão de serafins, que circundavam o trono, em constante louvor Àquele que Era, que É e que Sempre Será.Ao olhar para Aquele que estava assentado sobre o trono, Melquisedeque ficou surpreso ao descobrir a figura de um homem. Ele estava coberto por um manto de linho fino, de uma alvura sem igual, e tinha sobre a cabeça uma coroa formada por sete coroas sobrepostas, repletas de pedras preciosas.Ao olhar para as mãos que sustentavam o cetro, o filho de Adonias ficou surpreso ao descobrir nelas cicatrizes de ferimentos, semelhantes àquelas em suas mãos. O anjo afirmou-lhe ser o Messias, a manifestação visível de Yahwéh, o Deus Invisível.Atraído para o cetro resplandecente, com o qual o Messias governava sobre todo o Universo, o rei de Salém viu nele o selo do domínio, e nele escrito o nome: Israel.Tomado por profunda emoção, Melquisedeque prostrou-se ante o Rei daquela eterna Salém, e, revivendo ali a história de sua pequena cidade, teve desejo de conhecer o grande drama da história universal. Conhecendo o desejo de seu coração, o anjo disse-lhe:- Agora lhe farei conhecer a história desta gloriosa Salém. Tudo o que lhe for mostrado na visão, você deverá registrar fielmente em seis pergaminhos que serão costurados um ao outro, formando um único rolo. Você terá seis anos para escrevê-los. Ao fim dos sete anos, você receberá das mãos de um ancião um vaso contendo um rolo especial, com muitas revelações importantes, destacando-se a história de Salém. Você tomará esse rolo, e o costurará como o primeiro dos sete, formando um único rolo. Depois de selá-lo, você e o ancião o guardarão no vaso, levando-o para uma caverna que eu lhes mostrarei ao norte do mar salgado, onde permanecerá esquecido até que chegue os últimos dias, quando será resgatado e revelado ao mundo por meio de um pequeno beduíno.Depois de falar ao rei de Salém estas palavras, o anjo conduziu-o em visão a um infinito passado, quando o Universo ainda não existia.Uma história muito parecida com a de Salém passou a desdobrar-se diante de seus olhos; porém, numa dimensão infinitamente maior, começando pela criação do reino da luz.Com admiração contemplou a formação de bilhões de mundos e estrelas, repletos de vida e felicidade que passaram a girar em torno da Salém Celeste, o paraíso de Deus.Sua atenção voltou-se depois para o mais belo de todos os querubins que, honrado pelo Criador, passou a residir com Ele em Seu palácio. Uma eternidade de felicidade e paz parecia embalar aquele reino, quando a mesma experiência de egoísmo e rebeldia vivida por Samael, começou a repetir-se na vida daquele anjo amado.Cenas de uma grande rebelião começaram a ser mostradas a Melquisedeque, envolvendo todos os habitantes do Universo. O querubim honrado, semelhante a Samael, seduzira um terço das hostes que, passaram a reverenciá-lo como rei.Em meio às cenas daquele grande conflito, o rei de Salém testemunhou a criação do planeta Terra, sobre a qual surgiu o homem como cetro racional daquele reino disputado.Com agonia viu o momento em que o chefe da rebelião aproximou-se sutilmente do paraíso, apossando-se do ser humano, depois de seduzi-lo com tentações. Ouviu então o seu brado, numa proclamação de vitória. A partir daquele momento, o inimigo de Deus passou a arruinar o ser humano, apagando nele todos os traços da glória divina, como Samael fizera com o cetro.A sua própria experiência, ao declarar naquela manhã aos súditos de Salém sua decisão de ir em busca do cetro perdido, começou a repetir-se diante de Seus olhos.Reunindo as hostes que haviam permanecido fiéis ao Seu governo, o Criador passou a revelar um plano de resgate: Ele haveria de ir em busca do homem, e o remiria, ainda que isto lhe custasse infinito sacrifício. Diante desta revelação, o filho de Adonias prostrou-se comovido, ao descobrir que em sua vida tivera a honra de retratara o próprio Messias.Todo o drama vivido pelo filho de Adonias em sua angustiante busca, até o momento de seu suplício pela redenção do cetro, foi ganhando amplitude naquela visão que abarcava toda uma eternidade. Diante de seus olhos desfilavam cenas de uma grande batalha que, sem trégua se estenderia até o dia do juízo final, quando o Messias vitorioso empunhará o cetro redimido, selando com ele a condenação de todas as hostes rebeldes.
Escrito por César Bernardo de Souza às 18h51
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo XIVA História de SalémAtravés das revelações recebidas do anjo, Melquisedeque tomou conhecimento do grande livramento alcançado dez dias antes de sua coroação, em Rosh Hashaná, quando diante de trezentos pastores com seus vasos incendiados, exércitos de cinco reis tombaram, saindo livres os cativos.Conhecendo nossa intenção de subir à Salém por ocasião de Sukot, o rei fez preparativos para uma grande festa, na qual comemoraríamos juntos a vitória sobre toda a desarmonia gerada pelo orgulho e pelo egoísmo.Foi por isso que ao chegarmos a Salém, ficamos surpresos com toda aquela honrada recepção.Ocupar-me com o relato de todos esses acontecimentos, fez-me passar por todo este sétimo ano, quase sem notar os seus dias, que passaram velozes. Estamos hoje às portas de um novo Rosh Hashanah, quando os 300 pastores tocarão os chifres, convocando todos aqueles que possuem as pérolas, para a reunião solene de Yom Kipur. Cinco dias depois seremos recebidos em Salém para a festa de Sukot.A certeza de que acontecimentos importantes ainda deverão ser relatados até o momento em que o vaso será deixado na caverna, fez-me reservar um espaço no rolo, no qual registrarei, dia após dia, os fatos, até a consumação desta história.Hoje é Rosh Hashaná, o dia mais feliz de minha vida, pois meus braços puderam envolver finalmente o filho da promessa. A primeira coisa que Sara fez ao recebê-lo, foi colocar-lhe em sua mãozinha direita a segunda pérola que o Messias lhe dera no dia de sua conversão, na qual estava escrito nome Isaque que significa "riso", o nome de Melquisedeque e o nome de Salém.Dois dias antes do Yom Kipur, Isaque foi circuncidado, conforme a ordem de Yahwéh.Desde que os pastores começaram a tocar seus chifres em Rosh Hashanah, todos aqueles que possuíam pérolas do vaso, deixaram suas tendas, dirigindo-se em pequenos grupos, para junto do Carvalho de Mambré.Ao chegar o Yom Kipur, o dia da reunião solene, meus pastores informaram-me que todos que aqueles que haviam recebido pérolas, haviam comparecido ao encontro, não faltando nenhuma pessoa. Era maravilhoso ver a alegria estampada no semblante de toda aquela multidão, que ansiava pela subida à Salém. Todos tinham uma história para contar, de como foram mal compreendidos e humilhados por aqueles que não receberam a salvação representada pelas pérolas. O único consolo que tinham naquele tempo, vinha da certeza de que subiriam a Salém para a festa de Sukot.No primeiro dia da festa de Sukot, a multidão foi subdividida pequenos grupos de doze pessoas, para subirmos em ordem à Salém.Tendo o vaso com o rolo em minhas costas, posicionei-me à frente da multidão, sendo seguido por Sara e Isaque, que vinham montados num camelo; Logo atrás vinha Ló e suas filhas; um pouco atrás, os trezentos pastores seguidos por todos os fiéis.Iniciávamos nossa escalada quando, acompanhado por todos os seus súditos, surgiu Melquisedeque vindo ao nosso encontro, fazendo vibrar pelos ares o som festivo de muitos instrumentos musicais, comemorando a grande vitória.Depois de saudar-nos, o filho de Adonias conduziu-nos numa marcha festiva até adentrarmos os portais de Salém, que encontra-se agora mais bonita que outrora.Diante do trono, todos os remidos foram coroados por Melquisedeque,começando em seguida o grande banquete.Grande foi a alegria do rei de Salém quando entreguei-lhe o vaso com o meu manuscrito. Levando-me para uma sala especial do palácio, ele mostrou-me os seis manuscritos nos quais registrara a história do Universo, segundo fora-lhe mostrada em sonho.Ao receber o meu manuscrito, ele o costurou aos demais, vindo a ser o primeiro do grande rolo.No último dia da festa de Sukot, o rolo foi aberto diante de toda a multidão de fiéis. Depois de ler uma boa parte do meu manuscrito, o filho de Adonias, tomando em seus braços o pequeno Isaque, afirmou:- Na descendência desta criança haverá de cumprir-se todas as coisas escritas neste manuscrito.Tendo dito isto, o rei o abençoou, devolvendo-o à Sara.Depois de abençoar Isaque, Melquisedeque passou a falar sobre o futuro do rolo que permaneceria por quase quatro milênios ocultos em uma caverna, sendo finalmente encontrado por um beduíno da tribo de Taamireh. Ao sair de sua caverna, o rolo enfrentaria a oposição de muitos eruditos que o declarariam apócrifo. Viria, contudo, o momento, em que suas revelações seriam confirmadas, e muitos seriam transformados pelas suas mensagens, preparando-se para o dia do juízo final.
Escrito por César Bernardo de Souza às 18h47
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13/11/2008
Religião
Consagração à Nossa Senhora de Nazaré Senhora de Nazaré, da antiga raiz de Jessé, da casa real de Davi, descendente de São Joaquim e de Sant'Ana, sempre que a angústia, o medo e a solidão me abatem, me entrego em teus braços ó Mãe; Como uma criança carente em busca de alívio, carinho e proteção, mergulho em teu Coração Imaculado e consagro a ti, querida Mãe, o meu passado e todas as minhas lembranças, o momento presente e todas as suas aflições, o meu futuro e a vida eterna que Deus me reserva no céu. O Sacramento do Batismo, que um dia recebi, me tornou filho(a) de Deus e filho teu ó Mãe; me fez também herdeiro(a) de Seu Reino. Por isso venho agora renovar, diante de ti, Virgem de Nazaré, as promessas do meu Batismo; e para que eu possa ser fiel a elas até o fim de minha vida, peço a tua intercessão por mim junto ao teu filho Jesus. Doce Senhora de Nazaré, a ti consagro agora, as minhas aspirações, meus projetos, meus sonhos, minha missão, minhas realizações: tudo o que tenho e tudo o que sou; consagro também todos os dias restantes de minha vida terrena, pedindo por eles a tua intercessão e a tua bênção materna, para que sejam dias serenos, cheios de paz e de muitas graças. Quero também te consagrar já, Senhora de Nazaré, o momento de minha morte quando, por tuas mãos e amparado(a) pelos braços de seu esposo São José, poderei finalmente, ver o teu rosto e abraçar teu filho Jesus e contemplar a Glória de Deus Pai, no amor infinito do Espírito Santo. Amém.
ORAR
(Frei Beto)
Orar é entrar em sintonia com Deus. Há muitas maneiras de fazê-lo e não se pode dizer que esta é melhor que aquela. Há orações individuais ou coletivas, baseadas em fórmulas ou espontâneas, cantadas ou recitadas. Os salmos, por exemplo, são orações poéticas, das quais cerca de 100 expressam lamentação ou denúncia, e 50, louvor.
Nós, ocidentais, temos dificuldade de orar devido ao nosso racionalismo. Em geral, ficamos na soleira da porta, entregues à oração que se apóia nos sentidos (música, dança, mirar vitrais ou paisagens etc.) ou na razão (fórmulas, leituras, reflexões etc.).
Orar é entrar em relação de amor. Como ocorre entre um casal, há níveis de aprofundamento entre o fiel e Deus. Uns oram como o namorado que fala demais no ouvido da namorada. Como se Deus fosse surdo e burro. Parecem aquela tia que liga e fala tanto, tanto, que minha mãe deixa o fone, mexe a comida nas panelas e retorna sem que sua ausência seja percebida.
Jesus sugeriu não multiplicar as palavras. Deus conhece os nossos anseios e necessidades. O próprio Jesus, narra o Evangelho, gostava de retirar-se para lugares ermos para entrar em oração. Jesus foi para a montanha a fim de rezar. E passou toda a noite em oração a Deus (Lucas 6,12).
Na oração, é preciso entregar-se a Deus. Deixar que ele ore em nós. Se temos resistência à oração é porque, muitas vezes, tememos a exigência de conversão que ela encerra. Parar diante de Deus é parar diante de si mesmo. Como num espelho, ao orar vemos o nosso verdadeiro perfil - dobras do egoísmo realçadas, mágoas acumuladas, inveja entranhada, apegos enrijecidos. Daí a tendência a não orar ou fazer orações que não revirem ao avesso a nossa subjetividade.
Os místicos, mestres da oração, sugerem aprendermos a meditar. Esvaziar a mente de todas as fantasias e idéias e deixar fluir o sopro do espírito no silêncio do coração. É um exercício cujo método a literatura mística ensina. Mas é preciso, como Jesus, reservar tempo para isso. Assim como a relação de um casal arrefece se não há momentos de intimidade, do mesmo modo a fé se debilita se não nos recolhemos em oração.
Oramos para aprender a amar como Jesus amava. Só a força do espírito dilata o coração. Portanto, uma vida de oração se avalia não pelos momentos entregues a ela, mas pelos frutos na vida cotidiana: os valores elencados como bem-aventuranças no Sermão da montanha (Mateus 5, 1-12). Ou seja, pureza de coração, desprendimento, fome de justiça, compaixão, destemor nas perseguições etc.
Orar é deixar-se amar por Deus. É deixar o silêncio de Deus ressoar em nosso espírito. É permitir que Ele faça morada em nós. Sem cair no farisaísmo de achar que a minha oração é melhor do que a sua, como aquele fariseu frente ao publicano (Lucas 18,9-14). Quem ora procura agir como Jesus agiria. Sem temer os conflitos decorrentes de atitudes que contradizem os antivalores da sociedade consumista e individualista em que vivemos.
Orar é subverter-se a si próprio. Centrado em Deus, o orante descentra-se nos outros e imprime à vida a felicidade de amar porque se sabe amado. Parafraseando Jó, antes de orar se conhece a Deus por ouvir falar. Depois, por experimentar. O que levou Jung a exclamar: Eu não creio. Eu sei
Oração dos Anjos
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
Senhor,concedei a paz aos que têm fé, para que se cumpram as palavras do Profeta:"ouvi as orações do Vosso servo e do Vosso povo de Israel".
Santos Anjos, que estais eternamente cantando as glórias do Altíssimo Senhor Deus! Arcanjo São Miguel, que triunfastes e vencestes as potências infernais!Anjo São Rafael, previdente guia do jovem Tobias no deserto! Anjo São Gabriel, que anunciastes à Virgem Maria a concepção do Filho, Verbo de D eus-Pai!
Luminares acesos, por todos os séculos dos séculos, em volta do trono do Altíssimo, que para sempre seja louvado. Anael, Asrael, Gamaliel, Samuel, Zacariel, Uriel, sete espíritos puros, sete luzeiros, hierarquias celestes, sede minha luz, minha proteção, minha força, minha coragem, para que enfrente todos os males, todas as adversidades, todos os inimigos.
Afugentai de mim, de minha casa, de minha família, os espíritos do mal, os invejosos, os malfeitores, os hipócritas e os interesseiros.
Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potesdates, Arcanjos e Anjos, afastai de mim, de minha família, de minha casa os espíritos enviados por Satanás. os espíritos tentadores, que nos desviam do caminho do bem e nos arrastam à perdição eterna.
Assim seja
UMA LINDA MENSAGEM
Hoje, ao atender o telefone que insistentemente exigia atenção, o meu mundo desabou.
Entre soluços e lamentos, a voz do outro lado da linha me informava que o meu melhor amigo, meu companheiro de jornada, meu ombro camarada tinha sofrido um grave acidente, vindo a falecer quase que instantaneamente. Lembro de ter desligado o telefone e caminhado a passos lentos para meu quarto, meu refugio particular.
As imagens de minha juventude vieram quase que instantaneamente à minha mente: a faculdade, as bebedeiras, as conversas em volta da lareira ate altas horas da noite, os amores não correspondidos, as confidencias ao pé do ouvido, as colas, a cumplicidade, os sorrisos. Ah! Ah! Ah! Os sorrisos, como eram fáceis de surgir naquela época.
Lembrei da formatura, de um novo horizonte surgindo, das lagrimas e despedidas e, principalmente, das promessas de novos encontros. Lembro perfeitamente de cada feição do melhor amigo que já tive em toda a vida. Em seus olhos a promessa de que eu nunca seria esquecido – e realmente, nunca fui.
Perdi a conta das vezes em que ele carinhosamente me ligava quando eu estava no fundo do poço e, ou das mensagens que nunca respondi, as quais constantemente me enviava, enchendo minha caixa postal eletrônica de esperança e promessas de um futuro melhor.
Lembro que foi o seu rosto preocupado que vi quando acordei de minha cirurgia para a retirada do apêndice. Lembro que foi em seu ombro que chorei a perda de meu amado pai. Foi em seu ouvido que derramei as lamentações do meu noivado desfeito.
Apesar do esforço para vasculhar minha mente, não consegui me lembrar de uma só vez em que tenha pego o telefone para ligar e dizer a ele o quanto era importante para mim contar com a sua amizade, afinal, eu era muito ocupado!!! Eu não tinha tempo!!!
Não lembro de uma só vez em que me preocupei de procurar um texto edificante e enviar para ele, ou qualquer outro amigo, com o intuito de tornar o seu dia melhor: Eu não tinha tempo!!!
Não lembro ter feito qualquer tipo de surpresa, como aparecer de repente com uma garrafa de vinho e um coração aberto disposto a ouvir: Eu não tinha tempo!!! Não lembro de qualquer dia em que eu estivesse disposto a ouvir os seus problemas: Eu não tinha tempo!!! Acho que eu nunca sequer imaginei que ele tinha problemas. Não me dignei a reparar que constantemente meu amigo passava da conta na bebida. Achava divertido o seu jeito bêbado de ser. Afinal, bêbado ou não ele era uma companhia para mim. Só agora vejo com clareza\o meu egoísmo.
Talvez, e este talvez vai me acompanhar eternamente, talvez se eu tivesse saído do meu pedestal egocêntrico e prestado um pouco de atenção, e despendido um pouqunho de meu sagrado tempo, meu grande amigo não teria bebido ate não agüentar mais, e não teria jogado sua vida fora ao perder o controle de um carro que com certeza, não tinha a mínima condição de dirigir.
Talvez ele, que sempre inundou o meu mundo com sua iluminada presença, estivesse se sentindo sozinho. Ate mesmo as mensagens engraçadas que ele constantemente deixava em minha secretária eletrônica, poderiam ser seu jeito de pedir ajuda.
Aquelas mesmas mensagens que simplesmente apaguei da secretária eletrônica jamais se apagarão da minha consciência. Estas indagações que inundam agora o meu ser nunca mais terão resposta. A minha falta de tempo me impediu de respondê-las. Agora, lentamente, escolho uma roupa preta – digna do meu estado de espírito – e pego o telefone. Aviso o meu chefe que não irei trabalhar hoje, e quem sabe, nem amanhã nem depois, pois irei tirar o dia para Homenagear com meu pranto a uma das pessoas que mais amei nesta vida.
Ao desligar o telefone, com surpresa eu vejo, entre lagrimas e remorços, que para isto, para acompanhar durante um dia inteiro o seu corpo sem vida EU tive tempo.
Descobri que se você não toma as rédeas da tua vida, o Tempo te engole e te escravisa.
Escrito por César Bernardo de Souza às 20h58
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15/10/2008
BELA POESIA
1ª PARTE DE CATULO
Crônica do “Mercure de France”
CATULLO Cearense est unique en son genre et il nous a donné le frisson nouveau. La matière de sés poèmes est simple, vaste et riche.
Elle est la contemplation du monde et contemporaine de tous les âges. Ele a l’image forte, profonde, cosmique. Sou âme est au centre de la forêt, comme un écho sonore, tele l’âme de Victor Hugo au centre de tout, selon le vers célèbre. Il a une façon aisée et sure d’entrer en matière, une famíliarité jamais vulgaire, qui me fait penser à l’incomparable Lafontaine. Catulo ne dit point ses vers ni les declame. Il les vit. La voix, le geste, la masque et les mouvements, tout a cette verité, cette force spontanée et juste d’un art qui rejoint la vie. Il est simples, naturel et exact, comme un chant d’oiseau.
(Mercure de France, Paris,1 de Maio de 1919).
EM CAMINHO DO SERTÃO
(Asterio de Campos)
BARDO ou Poeta, cujas rimassão da poesia o tesouro,que cantas em rimas de ouroa tua consagração,fecha os cristais dos ouvidos,não ouças, por caridade,a virgem rusticidadedesta viola do sertão. Esta linguagem bravia, como aquela natureza, não contém essa beleza paciente do teu buril! São os versos deste livro como as águas das cascatas e o vento, açoitando as matas das florestas do Brasil.Tange as cordas da tua liranos seus dulcíssimos trenos!Entoa canções à Vênusno teu rítmo lapidar,mas deixa-me a liberdadede descantar n’uma prima,sem arte, sem voz, sem rima,uma cabocla a sambar. Quisera ser ignorante, como um cantor sertanejo!... Era esse o meu desejo!... Não ter nenhuma instrução, mas ter o dom do improviso, para dizer, de momento, as dores do pensamento e as mágoas do coração.Excelso, divino poeta,que levas um mês inteiro,beliscando no tinteiro,para um soneto compor,deixa um momento a Avenida,vai lá nos matos sombriosouvir esses desafiosde um cabra improvisador. Não vais sentir a rijeza de eretos alexandrinos! Vais ouvir os dons divinos, que Deus concede a um mortal! Não te importes com a sintaxe, que isso é coisa sem valia! Sorve somente a poesia, que é um licor celestial.Basta de Pan, de Netuno!Deixa a Grécia! Deixa a Itália!...Deixa a fonte de Castália,que, de há muito, já secou!Vai beber as águas frescasde uma cacimba, que é tua,onde, à noite, a nívea luaseus versos brancos deixou. Musset, D’Annunzio e Leconte, Byron, Hugo, Campoamor, já te imploram, por favor, que os deixes lá descansar. Demos um pouco de tréguas a tanta coisa estrangeira, que esta terra brasileira tem muito e muito que dar.Eu bem sei que esses poemasnunca serão recitadosnos salões opulentados,por um moço de altivez.Seria um crime ultrajantedizer estas frioleirasnessas rodas brasileiras,onde se diz em francês. Mas, que importa? Nada aspiro neste país, nesta terra, que tantos bardos encerra, e tanto filho abandona! Eles têm a lira ebúrnea! São Orfeus!... São divindades! E eu só sei cantar saudades nesta inefável sanfona.Se não traduzo, a contento,as queixas lá da viola,uma coisa me consola: —é cantar tudo o que ouvi!E embora vilipendiadocom inofensível fereza,pertencer à naturezadesta terra em que nasci. Nada achareis neste livro, Narcisos afrancezados! Vós estais acostumados com essas liras de além mar! Este instrumento que eu trago aqui, por cima do peito, é tão bárbaro e imperfeito, que só eu posso escutar.Nesta floresta de versos,nesta espessa mataria,não se escuta a melodiade um CHANTECLER de Rostand!No sertão destes poemas,não canta um galo estrangeiro,mas um galo brasileiro,saudando a luz da manhã.Quereis saber de que corsão estes meus pobres trenos?São da cor das folhas verdes,pisadas pelos serenos! Nos dedos rudes que escrevem estas cantigas bucólicas, não reluzem os fulgores de anéis de pedras simbólicas. Qual seria o anel do poeta, se o poeta fosse um doutor? Uma Saudade brilhando na cravação de uma Dor! E vós, gentis senhoritas,que falais o italiano,como o francês soberano,as línguas em que cantais,cuidado com a língua bárbaradesses sertões lá do Norte,trescalando o cheiro fortedos gigantes vegetais! Fechai meu livro, senhoras! Com o vestido decotado, com o cabelo penteado, e esses finos sapatinhos, voltareis arrependidas, trazendo os vossos sapatos cheirando a folha dos matos, e as vestes cheias de espinhos.Nada, pois, de sacrifícios,sem colher um resultado!Cuidado! Muito cuidadocom os acúleos... do espinheiro!Em vez de um terno “je t’aime;”de um moço guapo e bonito,ouvireis somente o gritoda paixão de um marroeiro. Nada, pois, de sacrifícios! Nas margens de uma Avenida, não se vê “Terra caída”, coisa que não tem valor! Não crescem árvores rudes que depois de decepadas, nós já vimos revoltadas contra um fero “lenhador”!Fechai meu livro, Senhoras!Certo, eu sei, não interessaa história de uma “Promessa”,uma flor do coração!Um meigo e simples transumptodas saudades sertanejasdas noites de São João. Que há n’um “passador de gado”, (direis vós) um homem rude, com sua bronca virtude, que vem ver a Capital, e volta vociferando, comparando esta cidade com a rudeza e a soledade da sua terra natal?!Não! Lêde-a com dor, com magua,essa história, essa romançade um homem feito criança,esse “Quinca Micuá”,alma pura, nobre e santa,como uma flor redolente,que, talvez, tão inocente,não exista igual por cá. Não reciteis, senhoritas, o poema religioso de um “cangaceiro” extremoso, o matador das estradas, porque vereis, sem surpresa, esses moços que escutarem, as gargantas rebentarem em tremendas gargalhadas!!Vós, que lágrimas verteis,lendo a insulsa serenatade um poeta nefilibata,um poetastro verlainal,admirai, na “vaquejada”,como um rude boiadeirorespeita o seu companheiro,mesmo sendo um animal! Com prazer ouço uma orquestra no multicor dos sonidos e, logo após, os carpidos da viola, cantando a dor, assim como, lendo o Dante, logo depois ouviria um canto dessa poesia, que tem cheiro de verdor!Tenho lido, desde Homero,tudo o que se tem escritoem versos de ouro e granito,de impecável perfeição, mas,(talvez seja ignorância),ás vezes fico encantadocom um verso imetrificadode um Manoel do Riachão!!!(*) Formosos, doces Narcisos, que andais vestidos de Imprensa, cheios de orgulho, a doença dos “Grandes”, dos “Imortais”, que de cinco em cinco dias tendes o rosto gravado sob um soneto plagiado, nas colunas dos jornais!...Vates, Poetas principescos,vestidos de seda e de ouro,a minha veste é de couro,são rudes os versos meus!Mas só reconheço um Príncipeda Universal Monarquia,Rei e Papa da Poesia,cujo nome é — Deus! Só Deus!
Escrito por César Bernardo de Souza às 10h34
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BELA POESIA
2ª PARTE DE CATULOPatrão, este seu criado,o seu Quinca Micuá,uvíndo o que ela dizia,trimía, patrão, trimía,cumo o junco da lagôaim dia de ventania! P’rá pude me arritirá, ante da festa acabá, foi perciso que eu jurasse p’ra sá dona Cunceição que eu ia no outro dia, sem fárta, tocá sanfona no samba do Zé Chícão. _________Quando eu cheguei, no outro dia,na guarapêra do cabra,já Cunceição incontrei.Óie, patrão: a verdadenunca mereceu castigo! Eu tombêm me apaxonei!!!No samba do Zé Chicão,foi o diabo, patrão! Um cantadô de viola fez esta impruvisação: —“Eu já vi um sapo-boi,“n’um aguaçá d’um bréjão,“dizendo que a sua gaita“parecia um azulão”.Preguntando um outro cabra:— E o que tu disse, Janjão?!O prêmêro arrespondeu: —“Eu varejei uma pedra“no fucinho desse cão”. Puxei pula intiligença, e arrespundi pró zangão: “Estes verso bem amostra “que saiu dessa cachóla! “O sapo-boi, que tu viu, “táva tocando viola”.O cabôco tiriúmacuspiu do couro o quicé! Eu, no meio das cabôca, isgruvitava cum os pé!Se as muié não cunsintíaque eu me ispaiásse à vontade.(não minto, não, falo séro!)garrei na minha sanfona,e... perna p’rá quê te quero! Apois, esse violêro do samba do Zé Chicão, o cabra da gaforinha, se as muié não me garrasse, não cumía mais farinha!Apois, dona Cunceiçãome pidía!... Supricavapula santa de seu nôme!!Caxinxe, é sêmpe caxinxe,e um hôme, é macaco é hôme! Ao despois, o seu Lotéro, sabendo daquelas coisa, disse a sinhá Cunceição p’rá não fala mais cumigo!Ora, vêje que pirigo! Sá Cunceição, que era fina, cumo a gente diz prú cá, de minhã, todos os dia, imquanto os véio drumia, lá ia assuntá cumigo, imbáxo d’um biribá.Eu nunca vi coisa ansim:a muié, que era inducada,gostava mêmo de mim!Caisse as água do céo,ou fizesse o Só bom dia,certinho, toda a minhã,o biribá já me viatocaiando a Cunceição! Na minhã que ela não vinha, era que o véio babão e a rabujenta madrinha tinha acordado mais cedo.Ora, um dia eu tive medo! O coirão da marvadinha me catucou p’rá fugi!“Sá dona!” eu arrespundi:“váincê é moça inducada!“Eu sou um pobre gaitêro,“um tocadô de sanfona!“Isso é coisa munto feia“p’ra uma mocinha dizê!“Não fale nisso, sá dona!...“Óie, Sá dona, o Tinhoso“tá tentando vasmincê!” Inda eu táva supricando, e a muié me dava as costa, indo imbóra, arresmungando. *Passêmo duas sumana,sem tá junto... sem nos vê!Despois que a gente arengou,de minhã, naquela hora,eu passava munto longe,iscundido atrás das moitadas verde jaráuácíca,p’rá vê se via o diaboda mocinha tiririca! Tinha perdido a aligria!Nunca mais toquei n’um samba! E a minha gaita gimia, cumo a curuja avuando, quando a noite côme o dia!A tia Angérca, uma véiada casa de seu Lótéro,que cumigo se incontrou,me disse que o tá doutôfazia cêra cum ela!...Cum ela!... Sim!... Sim, sinhô!Senti nos bófe um calô!... O carcanhá me trocêu!... Eu juro a váíncê, eu juro, que, sem tocá cum estes dêdo, a minha gaita gemêu!Naquela noite eu andei!...Andei pulas mataria!...A sanfona não tocava!...Táva muda!... Não gimia!Eu apertava... afróxava!!...táva sem voz!... Só bufava! Quando se perde a vrégonha, abasta o amô querê, faz do hôme uma pamonha!Fui pedi a tia Angércap’rá dizê p’rá Cunceiçãoque eu táva isperando ela,ante do Só acordá,no outro dia, cumo sêmpe,imbáxo do biribá.Dito e feito. No outro dia,naquela hora marcada,eu isperava a marvada!A sanfona, pinduradan’um ramo, a se imbalançá,quando uviu ela falá,sem eu tocá cum estes dêdo,introu de novo a cantá! Pula arage balançada, no ramo, d’aqui p’ra lá, parecia inté, patrão, que a gaita era o coração do férmoso biribá!!!Eu entonce pregunteise ainda me tinha amô. Não disse nada!... Calou!Eu falei nesse inxirído,no moço... no... no doutô! Foi entonce que falou, dizendo que ela falava siturdia cum esse moço, prú via d’um má de rengo... e prú via d’uma dô.D’outra feita, foi prú viad’uma grande narvragíano miolo do coração! Mas porém já táva boa, despois que o doutô fisgou nos dois braço uma injerção.. (lá nela)... de fôia sêca, e simente de gervão.Despois, zangada, me disseque eu amava sem calô!!!Que eu tinha sido o prêmêro,o prêmêro que ela amou! Que tinha munto dinhêro p’rá nós vivê afórgado, sem se importá cum o Lótéro, nem cum o diabo do doutô.Entonce, apouzando o braçocá prú-riba do meu ômbo,sintí cumo uma friágenos grugumío do istômbo! Trimí, seu patrão, trimí! Mas porém, quando outra vez me catucou p’rá fugí, não sei cumo não murri!Ai, que moça tão marvada,mas porém... tão bunitinha!Despois, me disse no uvido:“Micuá, uma boquinha!...”Apois, juro a vasmincê!...Eu não sabia o sintidoda palavra... Pode crê!Quando ela me disse o que era,gritei: “Dona Cunceição!!!“Não quero sabe de nada!!!“Eu amo váincê, sá dona,“cum todo este coração,“que bate aqui neste peito!“Não tire paluxo, não!...“Não me farte cum o arrêspeito!” O sinhô Carácará, que já tinha alevantado, uvindo eu falá mais arto, como uma onça n’um sarto, garrou na minha gaitinha, que nem cachorro inraivado! Eu fiquei ajuêiádo, sem pude arrispirá, vendo que o hôme quiria a sanfôninha quebrá!!!Quando eu disse pró padrinhoque a sua linda afiadafoi e haverá de sé semprecá prú mim arrespeitada,cumo sempre arrespeitei, o raio da iscummungada me fez cum os dêdo... uma figa, que eu nem sei cumo fiquei!!Seu patrão, não digo nada!!!A muié táva ispritada!!! O véio tinha o insturmento alevantado nas mão, me óiando cumo o capêta, cum uns óio de sucuri!Foi quando, entonce, n’um grito,ela gritou: “Meu padrinho,“este hôme sem vrêgonha,“me achando sozinha aqui,“me pidíu uma boquinha,“me catucou p’ra fugi,“dizendo umas coisa feia,“que váincê nem faz indéa!” O hôme entonce, o mardito, cumo uma fera acuada, fisgou-me im riba do quengo a minha gaita adorada!A minha gaita, a sanfonaque eu não trocava prú nada!Quanto tempo, quantas hora,eu ali fiquei ansim! E, quando dei fé de mim, táva no meio do véio e d’uns cabra da Fazenda, que o diabo mandou chamá!Entonce levei no lombolevei tanta gurungumba,cumo se fosse um zabumba...tanta corda de crôá,que se eu vivesse cem ano,inda guardava siná!!!Correu prú todo o sertãoque o seu Quinca Micuátinha tirado paluxocum a dona!... a miúdamurzéla,afiada do Seu Lótéro!...A Sá dona Cunceição!Todo mundo preguntava:“Cumo é que esse Micuá,“um sanfonero de nome,“foi se inxirí cum uma moça,“que era noiva d’um doutô,“e afiada desse hôme?!” Tudo virou contra mim!Fugi de lá do sertão,da minha terra!... De lá!! Despois daquela muxinga, vim drúmindo pulos mato, im caminho da cidade, ispinhando de sôdade da minha pobre sanfona, que lá ficou dispenáda imbáxo do biribá!Ai, quantas noite, sozinho,nos mato da minha terra,gemendo na sanfôninha,e de barriga prô à,óiáva o céo e me riade vê cumo as istrelinhalá no céo táva a sambá! A vida é um samba, patrão! Apois, quem é que na vida samba mais? É o coração!Leva a cabeça assuntandotodo o dia, mas porém,de noite, vai discançá!Somentes o coração,ante da gente nacê,inté a gente morrê,leva a sambá... a sambá!!!O coração é fié!... A cabeça, ai, a cabeça é que é maléva e crué!Foi a cabeça, foi elaque me perdeu!... me impuiôu! Quantas vez o coração não chorou... e... arresmungou!Dêxei a Luiza, a Tudinha,a Inluminata, a Rosinha,a Craciúna, a Lulú,a Bastiana Sanhassú,a Sanda, a Felicidade,a Vitóca das Sôdade,a fia do Zé Chicão,a Chica do Zé da Serra,a cabôca mais bunitados mato da minha terra...prú móde dessa murzélaou dessa miúdamurzéla,dessa dona Cunceição!!!A Inluminata, a Rosinha,a Bastiana, a Tudinha,nenhuma sabia lê!Mas porém, p’rá quê? P’rá quê?!Só p’rá vregônha perdê?!P’rá jura farso e mintí?!P’rá cunvidá p’rá fugí?! P’rá té o discaramento de me querê dishonrá, pidindo um bêjo, que é coisa que a gente não deve dá, sem prêmêro arrecebê a santa benção de Deus, n’uma ingrêja, ao pé do artá?! Tudinha era uma muié inguinorante, sarvage!... Tudo o que váíncê quizé!!Mas porém, meu patrãozinho,aquilo é que era muié!Muié, que teve a corage,a corage, sim, sinhô,d’uma noite, lá n’um samba,no meio de toda a gente,tirá do pé a chinela,a chinela, Seu doutô,p’rá me castigá na cara,só prú via de eu tê dadop’rá uma cabôca uma frô! Isso, sim, é que é muié!... Isso, sim, é que é o amô!!A outra butou a rosanos cabelo, e, orguiósa,se pôs-se logo a sambá!Mas porém, aqui, na cara,ficou tômbém outra rosa,vremêia, grande e férmosa,a frô da dó de canela,do disispero do amô,o siná lá da chinela,que tômbém era uma frô! Óie, o ciúme é treidô! É o fio mais macriado que tem a Amizade e o Amô!Seus pae, o Amô e a Amizade,tem munta e munta vontadede vê seu fio inducado!O minino é discarado!!Mas porém, óie!!... é bom fio!Quando ele vê sua mãee seu pae amachucado, si da muié cá da Corte faz um bruto assarvajado, se faz d’um hôme outro bruto, crué, disprepositado, séje, como eu, um gaitêro, ou sêje um doutô fromádo, quanto mais um coração, um coração de cabôca, que não foi cirvilizado!?Patrão, agora, eu pregunto:o que era aquilo? O que era? Vasmincê vai me dizê que aquilo era estupideza da muié lá do sertão!... Que a muié tinha a fêrêza d’um urutu, d’uma fera! E vasmincê tem rézão!Era uma fera, firidano fundo do coração! Isto, sim, é que é muié que sabe amá, meu patrão!Vindo do amô, do ciúme,das mãos do amô, das mão dela,ante o siná da chinelana cara, cum um bofetão,que um bêjo, um bêjo de Judana boca da Inducação! A Tudinha não prendeu a batê língua, ispritada, cumo essa moça inducada, que tinha o tempo vadio!... Mas porém a Cunceição não sabia batê roupa, cumo a Tudinha, a cabôca, lavando à bêra do rio!!Eu ánte quiria séa pedra adonde lavavasua roupa a lavadêra,do que sê todos os livroque ensinava a Cunceiçãop’ra falá tanta porquêra! A muié mais sem vrêgonha é a Sinhora Inducação! Inducação!!? Que hirizia!Danada! Eu te discunjuro,im nome da Mãe de Deus,da Santa Virge Maria!Os mato, as árve, as choupana,os rio, os córgo, a boiada,as roça e mais as quêmada,o machado, a foice, a inxada,a lua, as noite istrelada,as viola e as magua choradano coração das tuada,o canto da passarada...não pércisa de ti, não!Inducaçãoü Prú piadade!Tu naceu cá na cidade!! Não vai mexê cum essa gente das terra do meu sertão.
Escrito por César Bernardo de Souza às 10h27
Sapiência divina
Por que caminho de animais domésticos e silvestres, rios, riachos e igarapés nunca são totalmente retos? Se os cursos d'água fossem retilíneos, nas enchentes, a correnteza seria tão forte e gigantesca que as terras marginais seriam solapadas, desagregadas e arrastadas rio abaixo, levando consigo as árvores reguadas e arrancadas. Todos os animais aquáticos, com exceções de jacarés, tracajás e peixes que moram em buracos na terra, na pedra ou em árvores ocas, acamadas no leito do rio, seriam arremessados e impactados violentamente contra obstáculos: ribanceira, pedras e árvores caídas. Na natureza, a linha curva tem enorme destaque. Na mulher, apesar da beleza e maciez do rosto, dos olhos fulgurantes e magnéticos e da voz ciciante e cheia de blandícias, as suas curvas é que, em segundos, imantizam, encantam, estonteiam, arrebatam e apaixonam os homens!O maior inimigo do jacaré, depois do homem, é a anaconda. Ao ser mordido e envolto por seus potentes e quase infalíveis anéis constritores, lança fortes e apavorantes bramidos, salta, forceja, se contorce e dá violentas rabanadas. Quanto mais estrebucha, mais a sucuri aumenta a potência do seu arrocho até quebrar-lhe os ossos mais finos e fracos, e estourá-lo de vez, quando parte das vísceras é expelida pela boca, parte pelo ânus, Em seguida, engole-o inteiro, de cabeça, auxiliada por abundante muco.Existem peixes canibais de água doce, tais como o pirarucu, o tucunaré, o aruanã, a traíra-igapó, a trairaçu, a uéua e a piranha.No rio Urubu, Estado do Amazonas, em 1976, um ônibus caiu de uma balsa na água, com 38 passageiros. Algumas horas depois tiraram o veículo, mas no seu bojo só restava a ossada dos seus ocupantes, que foram devorados por um enorme cardume de piranhas-vermelhas.A piranha-vermelha, mesmo já empanturrada, não para de morder os peixes. Se vê ou sente o cheiro de sangue de outra piranha, ataca-a e come-a, Em cardume, muitas vezes, se entredevoram em horripilantes cenas de canibalismo.No verão uma búfala foi atravessar o rio Aporema, mas antes de alcançar a margem oposta, ficou presa por uma galhada de itaubarana. Por fazer muito esforço e barulho, atraiu um extraordinário cardume de "piranhas-encarnadas" que a atacaram com redobrado ímpeto, a partir da vagina e ânus e, em seguida, roeram-lhe a espessa pele da barriga aí fazendo um grande buraco, por onde penetraram até às vísceras.Os predadores da piranha são: o jacaré, o boto, a lontra, a ariranha, o pirarucu, o tucunaré-açu, o trairão, o "borrega", o carapirá, a traíra-igapó, a ariramba e o mergulhão. O carapirá e o borrega pegam piranhas até abaixo de médias. O mergulhão e a ariramba comem piranhas bem-pequenas.Os quero-queros (téu-téus) em noites de luar cantam festivamente, não o fazendo em noites escuras por temor de ataque de jacurutus e corujões, seus temíveis predadores.O cachorro, quando acua uma onça-pintada no chão, numa ilha de vegetação densa, evita aproximar-se dela. Por prudência, muda de quando em quando de posição e sacode o rabo para os lados e um pouco para cima, para contactar com os obstáculos que estão ao seu redor. Se a onça disparar sobre ele, já sabe por onde deve retroceder com rapidez e segurança.Patos-domésticos copulam em rios povoados de piranhas, contudo logo depois que terminam o coito, retiram e recolhem o pênis com rapidez.A rolinha-do-campo, vendo o homem às proximidades dó seu ninho, sai batendo as asas na terra e vai-se afastando cada vez mais do ninho. Assim, ela procura desviar-lhe a atenção do local onde estão seus ovos ou filhos,Curiangos (bacuraus) e piaçocas também fazem uso desse prático e eficaz despistamento.Se uma caveira de boi ou de búfalo está apoiada na ponta de uma estaca de curral ou caiçara, vem a maria-mulata (guarandi ou catipuruí) e nela faz o ninho no lugar do miolo. As cavidades orbitárias servem-lhe de portas e janelas por onde ela espia se há predador por perto ou se vai cair chuva."O maior inimigo do jacaré, depois do homem, é a anaconda. Ao ser mordido e envolto por seus potentes e quase infalíveis anéis constritores, lança fortes e apavorantes bramidos, salta, forceja, se contorce e dá violentas rabanadas."
Escrito por César Bernardo de Souza às 21h13
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15/11/2009
Prof. Raimundo Lobo
O Joio e o Trigo*
Raimundo Lobo**
É comum se verem coisas que nascem com uma finalidade e, depois, ampliam-na, desvirtuam e até passam a ter outras, extremamente opostas àquela para que foram criadas ou inventadas. Se não, vejamos: o avião foi inventado para transportar pessoas, livros, jornais, e todo gênero de mercadorias. Depois passou a ser usado como arma de guerra, levando sob suas asas metralhadoras, canhões e foguetes. Por fim, transporta bombas atômicas, químicas e bacteriológicas. Já houve até avião-bomba usado pelos camicases na Segunda Guerra Mundial.Milhões de carros, mototáxis, ônibus, trens, patróis, tratores, voadeiras, lanchas, barcos, balsas, navios, submarinos, porta-aviões, foguetes, milhões de motores com finalidades diversas poluem os rios, lagos, lagoas, baías, golfos, estreitos, canais, mares e oceanos. Lançam na atmosfera terrestre o dióxido de carbono, poluindo-a, causando o aquecimento global e alterações climáticas. Os agrotóxicos, com exceções, prestam um desserviço à humanidade, causando-lhe graves doenças e milhares de mortes.O fogo foi descoberto e usado para assar ou cozinhar alimentos e queimar roçados. Depois deu origem à fusão dos metais, o que favoreceu o homem na fabricação de inúmeros artefatos. Mas, inegavelmente, é na guerra que ele teve o seu maior e mais poderoso emprego, ferindo e matando milhões de seres humanos.O carro de linha vem prestando grandes serviços à população rural. Porém, a par com tudo isso, transporta também os instrumentos de devastação da nossa fauna: o sal, o gelo, a tarrafa, a malhadeira, o tramalho, o arpão, o tapuá, a lanterna, o farol de milha, a dinamite e as armas de fogo pesadas ou de alta precisão. Desses instrumentos de destruição da fauna, destacam-se o gelo, porque conserva os animais abatidos por tempo indeterminado, e o farol de milha tanto na caça quanto na pesca, pelo seu grande raio de ação e o poder de ofuscar a presa. A cana-de-açúcar, a princípio, foi cultivada para produzir o açúcar, o mel e a rapadura. Contudo, alguém pensou em fabricar a cachaça, uma das maiores desgraças da humanidade, causadora de brigas violentas, problemas familiares, malquerenças entre amigos, colegas e vizinhos. A cachaça e as bebidas de alto teor alcoólico vêm causando ferimentos, aleijões, paralisias e um sem-número de mortes em todo o mundo.A faca, ferramenta multiuso, talvez tenha sua origem nos estilhaços de sílex, à época dos trogloditas. Depois evoluiu para faca de alumínio, ferro, aço, etc. Só no Brasil, nos feriados de fim de semana, em que as bebidas alcoólicas e as drogas sobem o pódio, são milhares de pessoas vitimadas por faca e terçado.Os países que mais pregam a paz, a ordem e a segurança são, exatamente, os que mais fomentam as guerras, fabricam e vendem armas."Milhões de carros, mototáxis, ônibus, trens, patróis, tratores, voadeiras, lanchas, barcos, balsas, navios, submarinos, porta-aviões, foguetes, milhões de motores com finalidades diversas poluem os rios, lagos, lagoas, baías, golfos, estreitos, canais, mares e oceanos. "
*-Publicado em O Diário do Amapá em 15 Nov 2009
**-É Professor, Dicionarista, Vencedor do Troféu Pitombora 2009, do Conselho Estadual de Cultura do Amapá.
Escrito por César Bernardo de Souza às 23h07
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24/10/2009
NO RADIO
24 OUT. D. POSITIVO
EDITORIAL:
No Dia do Aviador cultivamos a memória de uma das nossas mais valiosas figuras históricas - Alberto Santos Dumont, um brasileiro reconhecido e condecorado em vários países. Um gênio criativo, nascido em 20 de julho de 1873, em Palmira, cidade hoje denominada Santos Dumont, em Minas Gerais.
Na cidade de São Paulo, em 1888, ele viu pela primeira vez um balão aerostático numa feira,. ali mesmo percebeu que o homem podia voar de alguma outra forma.
Com a morte de seu pai, em 30 de agosto de 1892, mudou-se para Paris, correu atrás dos seus sonhos e conseguiu em 22 de março de 1898, fez a sua primeira ascensão aerostática.
Decidido a aperfeiçoar seus balões, fez em julho sua primeira ascensão livre com o balão de nome "Brasil", que mandou construir para seu uso pessoal. No mesmo ano, ainda em 18 de setembro, realizou a primeira experiência com o seu balão dirigível nº 01, sendo a primeira vez que um motor à explosão, adaptado a um veículo aéreo, funcionava no ar.
Na primeira tentativa de decolagem, chocou-se contra as árvores por ter decolado a favor do vento. Dois dias depois, a 20 de setembro de 1898, decolou contra o vento, conforme sua concepção. Para espanto da assistência, pela primeira vez na história da humanidade, um balão evolui no espaço, propulsionado por um motor a petróleo. Após este evento, aperfeiçoou, sua criação nos dirigíveis 2 e 3.
Até o balão dirigível nº 14, houve uma infinidade de experiências diversas que o deixaram famoso. A sua hélice e o motor serviram para as primeiras experiências com o aeroplano nº 14 Bis.
Entre os dias 25 de julho e 23 de outubro de 1898, no Campo de Bagatelle, em Paris, voou perante a Comissão Fiscalizadora do Aeroclube da França, ganhando a taça ARCH-DEACON, por realizar o primeiro vôo de aparelho mais pesado que o ar. Posteriormente, ele criou o nº 16, usando um motor. Santos Dumont subvencionava suas atividades aeronáuticas com seu próprio dinheiro. Em 1901, encher um balão de 620 metros cúbicos com hidrogênio custava-lhe aproximadamente US$ 500,00.
Mais tarde foi transformado em biplano. No nº 18, a principal experiência foi um deslizador aquático e a tentativa foi demonstrada no Rio Sena.
Ele estava inclinado a crer que a verdadeira função dos veículos aéreos consistiria no transporte rápido de passageiros, correspondências e cargas. Santos Dumont tentou levar o mundo a partilhar de suas idéias em vão.
Os homens mais eminentes não as aceitavam e a imprensa, noticiando os seus desastres, apelidava-o de "Santos Desmonta". Em 1902, entretanto, o Príncipe de Mônaco se ofereceu para construir um hangar, caso Santos Dumont quisesse levar os seus dirigíveis para Monte Carlo, durante o inverno.
Santos Dumont aceitou. Logo célebres corredores de automóvel aceleravam os seus carros na estrada do litoral, chegando a ultrapassar 60 quilômetros por hora, para acompanhar o seu vôo.
Como ganhador do prêmio Nobel, Santos Dumont acreditava que as suas invenções haviam de tornar tão terrível a guerra, que os homens não pensariam mais nela. Tal convicção sofreu um rude golpe quando foi declarada a Primeira Grande Guerra Mundial. O aeronauta então, isolou-se na sua casa, nos arredores de Paris., onde sofreu e adoeceu. Voltando de navio para o Brasil, em 1928, ele presenciou um avião da Condor caindo no mar, matando seus tripulantes. Santos Dumont assistiu aos funerais e, depois, encerrou-se por vários dias num quarto de hotel. Quando aconteceu o desastre do dirigível R.101, tentou se suicidar.
Durante a Revolução Paulista de 1932, Santos Dumont viu passar pelos céus de sua terra natal, a máquina concebida por ele, sendo utilizada como poderoso instrumento de destruição. Saiu da vida.
Santos Dumont morreu no dia 23 de julho de 1932, no Guarujá. Desistiu da vida com a mágoa de ver seu invento, criado para servir, sendo usado para destruir o homem.
Seu coração se encontra no salão nobre da Academia da Força Aérea, em Pirassununga, em artístico escrínio de ouro, para que os oficiais que lá se formam possam sentir sua nobreza e seu pulsar indefinidamente, nos corações de todos os brasileiros.
ÚLTIMA CARTA DE SANTOS DUMONT
"São Paulo, 14 de julho de 1.932Meus patrícios. Solicitado pelos meus conterrâneos mineiros moradores neste Estado, para subscrever uma mensagem que se reivindica a ordem constitucional do pais, não me é dado, por motivo de moléstia, sahir do refugio a que forçadamente me acolhi, mas posso, ainda, por essas palavras escriptas, affirmar-lhes, não só o meu inteiro applauso, como também o apello de quem tendo sempre usado a gloria da sua Pátria, dentro do progresso harmônico da humanidade, julga poder dirigir-se em geral a todos os seus patrícios, como um crente sincero em que os problemas de ordem política e econômica, que ora se debatem, somente dentro da lei magna poderão ser resolvidos, de forma a conduzir a nossa Pátria á superior finalidade dos seus altos destinos.Viva o Brasil unido!Santos Dumont"
ANIVERSARIANTES DO DIA:
CARMÉLIA -
Anjos da Humanidade (19/03, 31/05, 12/08, 05/01 e 24/10).
Esta hierarquia é chamada de "Senhores do Sacrifício". A energia por ela utilizada é a do poder do verbo: a linguagem. Foram assim denominados, porque, em outras vidas, deram um nível superior de consciência para o grupo em que viviam. Segundo Helena Blavatsky, estes seres seriam pilares de Luz, o princípio divino que está instalado na forma humana.Se você faz parte dessa categoria deve estar se perguntando: "Então eu não tenho anjo?". A princípio não, pois você já tem uma essência angelical muito forte, em decorrência de atos humanitários, através dos quais sua própria vida foi doada em benefício de um grupo..Os anjos da humanidade possuem costumes e leis admiráveis. Devem aprender a vibrar positivamente, ter mais coragem e não se conformar com as opiniões correntes das massas. Também devem ser inimigos da impureza, da ignorância e da libertinagem.
SALMO ESPECIAL:
DEUS PAI - Mãe Nosso... que estais no céu do cálice do Meu coração... Santificada seja a Vossa Sagrada Chama da Vida Eterna.Venha o Vosso reino... agora, através de Vosso Filho ressuscitado em meu coração, em meu Ser, através de minha alma.Faça-se a Vossa Vontade... Na terra... através do Cristo ressuscitado na família do Homem... como no Céu... através da família dos anjos, Devas e seres Ascencionados.Dai-nos hoje o pão de cada dia... a corrente eterna que sustenta o nosso próprio Ser, e da qual vem toda Perfeição para criar.Perdoai-nos as ofensas... contra a Vossa Grande Lei do Eterno Amor, Qualificação Harmoniosa do Vosso Reino Perfeito da "causa".Mas livrai-nos... da ilusão dos "efeitos" da consciência humana.Porque Vosso é o reino... a Unidade de toda a Vida como Luz.O poder... para Ressuscitar tudo novamente para Vós...e a glória...da Vossa Própria Perfeição Sempre expandindo-se.Para Sempre e para Sempre... no momento Eterno do AgoraAmém e Amém - Como Vosso Nome "Eu Sou”.
- ABRAÇOS:
AMIGOS DA CONFRARIA TUCUJU
COLABORADORES DA CRECHE.
OUVINTES DO DEB. POSITIVO.
AMIGOS DO ZÉ MARIA E DO PIERRE.
COMENTÁRIOS:
- CONFRARIA TUUCUJU
- CAMINHADAS DA CELLI.
- EXPO-FEIRA
- CASO PMDB – BR X AP
- CASO RIO DE JANEIRO - ASSALTO AO DANILO E LOLITO.
- POLICIAMENTO NO RESTO DA CIDADE NO PERIODO DA FEIRA.
Escrito por César Bernardo de Souza às 01h42
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12/10/2009
CIRIO DE NAZARÉ - MACAPÁ
Visita da virgem de Nazaré à Amazônia
Nilson Montoril de Araújo.
Antes dos Abarés (aba=homem e ré=diferente), ou seja, os Padres Jesuítas, iniciarem seus trabalhos de catequese na Amazônia, nossos indígenas possuíam belíssimas lendas sobre a criação do mundo, dilúvio, origem da noite, o justiceiro jurupari, etc. Os personagens dessas lendas eram naturalmente elementos da cultura silvícola. Eles acreditavam que dentro da carcaça de cada ser vivo existia um espírito ou alma, ao qual denominavam de Anga. Se o ser vivo, principalmente o índio fosse cordial, solidário e amigo, dentro do seu corpo habitava uma Angacatú, isto é, alma boa. Caso ocorresse o contrário, no interior do corpo existia uma Angaíba (alma ruim). Uma vez inseridos no meio dos gentios, os religiosos católicos introduziram preceitos cristãos em suas lendas. As divindades femininas dos índios eram: a Iara (senhora das águas) e Jacy (a lua). O índio usava o vocábulo ibaca para identificar o céu, a abóbada celeste, onde residia Tupã. Por influência dos sacerdotes católicos adotaram os neologismos Jandé Jará e Iandeyara para se referir a Deus. Os dois vocábulos significam Nosso Senhor (Jesus Cristo). Aangara ou Anhangá era o tentador, o diabo, o demônio. Quando queriam falar Nossa Senhora ou nossa mãe, usavam o vocábulo Nhandé Cy. Depois que a alma deixava o corpo ela ia habitar o Anguendaba, lugar onde deve estar a alma. A alma que necessitasse passar por espiações de falhas e ficava vagando no plano terrestre era denominada Anguera, alma que está fora do corpo, assombração. A alma cheia de pecados graves ou mortais ia direto para o Anhanguara, buraco do diabo, o inferno. O relato da morte de Jesus Cristo e da vida atribulada da Virgem Maria fascinava os índios. Muitas lendas surgiram sobre as aparições da Mãe de Jesus, notadamente na Europa. Porém, a que publico nesse espaço é uma das mais interessantes que conheço e foi recolhida pelo médico e etnólogo Ary Tupinambá Pena Pinheiro, notável homem de letras que viveu no Território Federal de Rondônia."A Virgem de Nazaré, após a morte de seu amado filho, morto por incompreensão dos homens, subiu viva para a Mansão Celestial, para ficar ao lado dos seus entes queridos. Passaram-se anos e a Santa, sentindo saudades da terra, quis vir até este vale de lágrimas, mesmo porque teve conhecimento de que os ensinamentos do Divino Mestre não eram obedecidos. O ódio, a inveja, o rancor, o egoísmo e a hipocrisia continuavam com a mesmo intensidade das épocas passadas. Entretanto, não quis descer em seu país natural, porque as chagas de seu coração ainda sangravam devido àquela tarde de amargura e de terror, quando foi martirizado, torturado e crucificado o filho de Deus.Escolheu a região banhada pelo rio Tocantins, lugar em que os homens não haviam profanado a fauna e a flora, onde as plantas e os animais falavam.Certo dia, quando o sol brilhava com muita intensidade e o céu parecia mais azul, a Santa desceu incógnita em uma belíssima praias localizada entre os rios Jamundá e o Tapajós. Ficou extasiada quanto ao volume das águas, o esplendor da floresta, a alvura das areias das praias, as cachoeiras imponentes e continuou na sua peregrinação rendendo graças a Deus pela oportunidade que lhe dera de ver uma região tão bela e majestosa. À tarde, antes de regressar à Mansão Celestial, fez uma prece ao Senhor do Universo e prometeu que dentro de duas luas viria de novo continuar as suas andanças. Nossa Senhora pensava que estava incógnita, mas um peixinho amazônico, denominado Aramaça, que devido às suas inúmeras indiscrições, ficou com deformação na cabeça e estrábico, acompanhava todos os passos da Mãe de Jesus.Logo que a Santa subiu aos céus, o linguarudo Aramaça participou a todos os animais, às plantas e aos insetos tudo quanto tinha visto e ouvido. Foi um alvoroço. Imediatamente foram constituídas comissões de quadrúpedes, aves, peixes, répteis, insetos, plantas, para a recepção de Nossa Senhora, daí a duas luas...Foi construído na praia a que a Santa deveria chegar um grande altar, aromatizado com as essências mais perfumadas, tais como: sândalo, cumaru, e o pau rosa. A bicharada, sob a regência do maestro Jabuti, "doublé" e filósofo, ensaiara um hino sacro para saudar a Virgem Maria. Tudo foi preparado com arinho e amor. No dia marcado para a visita da Santa postaram-se nas nuvens o urubu-rei e o gavião real, cujas dispersões de vôos são incomparáveis, para dar notícias da aproximação de Nossa Senhora. Era uma bela manhã de sol. O Céu, sem nuvens, brilhava intensamente. A natureza compartilhava com a bicharada, com sua beleza, para receber a Mãe do Divino Mestre. E, às nove horas da manhã, ouviu-se um grasnar do gavião-real e o crocitar rouquenho de urubu-rei, anunciando a descida da Mãe de Deus. A Santa chegou suavemente e pisou nas areias branquíssimas da praia. Imediatamente partiu da mata uma belíssima e significativa procissão de quadrúpedes, répteis e ofídios tendo à frente, portando um vistoso estandarte, o tamanduá-bandeira. A confraternização dos animais era impressionante. Via-se a onça pintada de braços com a sua fidagal inimiga, a anta; a suçuarana e o veado vinham abraçados; a jararaca, toda risonha estava enrolada no pescoço do queixada; o jacaré, lado a lado com a paca. Bandos de macacos saltando nos cipós balançavam-se nos galhos. Viam-se os macacos: barrigudo, o guariba, o da noite, o do cheiro, o cuxiú, o coatá, comandados pelo prego, que pulava de alegria, chegando até a perturbar o ambiente. Bela confraternização universal que deveria ser imitada pelo homem. Revoadas de bem-te-vis, arapongas, andorinhas, canários-da-terra, pipiras, anus, coleiros, tangarás, tico-ticos, ferreirinhos, urutaus, anambés e tanguruparás coloriam o ambiente como também as borboletas azuis, amarelas, brancas, pardas, furta-cores e listradas. Outra revoada chegava, cada ave procurando ansiosamente uma nesga de chão ou galho desocupado. Eram sanhaçus, arapapás, gaivotas, jaburus, guarás, garças, cojubins, pica-paus, maçaricos, mergulhões, surucuás e piaçocas. Das águas mansas do rio saltaram o boto, o peixe-boi e o pirarucu, seguidos por toda a fauna fluvial. Vinham cantando o hino sacro ensinado pelo maestro Jabuti, que compenetrado empunhava a batuta.Santa Maria, deslumbrada, sentou-se ao trono e a manifestação dos animais foi iniciada. O jacaré-assu, relações públicas, deu a palavra ao intelectual dos sáurios amazônicos, o jacaré-de-lunetas, que proferiu uma belíssima oração de louvor à hóspede, causando lágrimas a todos os presentes. O jacaré-assu abrindo a bocarra, deixou correr pelos olhos grossas bagas de lágrimas, lágrimas de crocodilo. O peixe-boi depositou aos pés da Virgem Santíssima uma esplendida corbelha de flores de mururé, cuja flor lilás condizia o hábito da Santa; o boto, esquecendo por instantes as suas conquistas amorosas, depositou aos pés da Mãe de Jesus uma magnífica vitória-régia, trazida do lago "Espelho de Lua", em Faro, o lago mais bonito da Amazônia; o pirarucu, representante dos peixes, pediu a palavra; porém, não pôde continuar com a sua oração em virtude da sua língua óssea e de ser gago; miríades de andorinhas grifavam ao redor da Divina Santa; os beija-flores trouxeram nos bicos minúsculos e cheirosas flores: violetas, jasmim, mirtos, e pulverizaram a coroa de Mãe de Jesus. Durante a manifestação o cauim, a tiquira, a manicuera e a caussuma corriam em profusão entre a bicharada. E o macaco-prego, na sua euforia e saliência, dava saltos imponentes igual a um atleta de circo, perturbando cada vez mais a reunião. O quati-mundéu, delegado de polícia, que não brincava em serviço, imediatamente o prendeu na sapopema de uma samaumeira. Entardecia. Nesse ínterim, ouviu-se uma linda música saída das capoeiras. Era uma banda regida com maestria pelo mutum, que tocava o seu bombardino; as aracuãs tocavam os pistões; os papagaios, os periquitos, os clarinetes e as requintas. Que música eloqüente e inebriante... dedicada à Mãe mais sofrida do mundo.A festa estava no auge! A Virgem carinhosamente olhava com ternura e amor toda aquela bichara alegre, ruidosa, feliz e mais uma vez, fez uma prece ao Senhor do Mundo, por ter povoado a Amazônia com toda aquela maravilha. A algazarra era imensa, a euforia contagiante, a confraternização emocionante. Nessa ocasião, apareceram os poetas da mata, para prestarem também a sua homenagem. Cantaram as patativas com suas vozes de soprano; depois o mavioso rouxinol, com voz de tenor; em seguida o sabiá-da-mata, com sua voz de barítono, cantou, interpretando a tristeza do entardecer das matas amazônicas. A algazarra continuava hilariante. A Santa pouco podia ouvir. E foi nesse momento que se ouviu o trinar docente, e, como por encantamento, toda a algazarra cessou. Todos escutavam enlevados o Orfeu ornitológico amazônico. Era um passarinho feio, pardusco, o Uirapuru, que parecia ter na sua privilegiada garganta de cristal todas as rimas e todas as estrofes comoventes e arrebatadoras existentes no Universo. O Uirapuru passava do alegre ao grave, do pitoresco ao dramático, da canção à sinfonia. A bicharada imóvel e Nossa Senhora risonha, prestavam viva atenção à música daquela garganta de ouro, que soltava acordes tão inebriantes, tão sedosos, tão sentidos. Ouviu-se um sussurro. Era Nossa Senhora, emocionada até as lágrimas, que se levantou do seu trono e conferiu ao passarinho cantador o condão de pássaro da sorte. E é devido ao presente da Mãe de Jesus que a tradição conta que o individuo que possuir um bico, uma pena ou mesmo uma patinha do Uirapuru, a sorte lhe será perene.A Virgem Santíssima, apesar de estar imensamente comovida e apreciando toda aquela admirável manifestação, tinha de regressar aos céus. Fez uma prece por todos, abençoou toda a bicharada e prometeu voltar brevemente". É provável que algum jesuíta tenha concebido essa narrativa, que foi sendo passada de geração à geração. Há quem afirme ter sido organizada pelos animais da Amazônia a primeira grande homenagem a Virgem de Nazaré, embrião do círio organizado pelos homens, que começou na cidade de Vigia e atualmente também ocorre em outras cidades amazônicas, inclusive em Macapá.*- Professor, Historiador, Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Estado do Estado do Amapáa.
Escrito por César Bernardo de Souza às 12h29
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10/08/2009
LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IA História de um VasoEstava descansando sob a sombra do Carvalho de Mambré junto à minha tenda, quando vi chegar apressadamente um dos servos de meu sobrinho Ló. Quase sem fôlego, ele passou a relatar-me sobre a tragédia: Houvera no dia anterior uma batalha entre as cidades da planície, envolvendo quatro reis contra cinco. Como resultado, Sodoma fora derrotada e muitos de seus habitantes levados cativos, entre eles o meu sobrinho Ló. A notícia deixou-me muito aflito, pois ao mesmo tempo em que sentia que precisaria sair em seu socorro, via-me fragilizado, sem nenhuma condição.Sempre fui um homem pacifico e detesto aqueles que derramam sangue. Tenho muitos servos, mas poucos sabem manejar espadas e lanças, pois desde à infância são treinados como pastores. Em lugar de espadas e lanças, eles manejam bordões com os quais conduzem os rebanhos; Em lugar de escudos, eles carregam vasos em suas cinturas, sempre cheios de água fresca, para matarem sua sede e refrigerarem as ovelhas aflitas; Em lugar de vinho para se embebedarem, carregam presos em seus cintos pequenas botijas com o azeite das oliveiras, com os quais untam as feridas do rebanho; Em lugar de ressonantes trombetas, eles sopram pequenos chifres, com os quais convocam o rebanho para o curralImaginando como seria um combate entre os meus servos e os exércitos daqueles cinco reis vitoriosos, comecei a rir. Enquanto gargalhava, a voz dAquele que sempre me guia, soou aos meus ouvidos, dizendo:- Abraão, Abraão! Não menospreze os instrumentos dos pastores, pois santificados pelo fogo do sacrifício, haverão de conquistar o grande livramento.O Eterno passou a dar-me ordens, fazendo-me avançar pela fé, sem saber como tal livramento haveria de realizar-se.O primeiro passo foi a convocação de todos os pastores que, deixando seus rebanhos, dirigiram-se ao Carvalho de Mambré, trazendo seus instrumentos pastoris. Eram ao todo 600 pastores.Ordenei que esvaziassem os jarros, colocando neles o azeite da botija.Depois de cumprirem esta ordem, pedi que tomassem cada um a lã de uma ovelha, misturando-a com o azeito dos jarros.Depois destas coisas, Yahwéh mandou-me tomar um grande vaso de barro, enchendo-o até a metade com o azeite das oliveirasAo concluir esta tarefa, o Senhor mandou-me fazer um longo pavio de lã, enfiando a metade dentro do azeite e deixando a outra parte presa acima do vaso.Depois destas coisas, Yahwéh ordenou-me acender o pavio, com o fogo do altar. Ao aproximar-me do fogo sagrado que ainda ardia sobre o sacrifício da manhã, uma pequena fagulha saltou para o pavio, e pouco a pouco foi-se alimentando do azeite, até tornar-se numa labareda que podia ser vista de longe.Capitulo IIA História de um VasoCom o vaso nos ombros, comecei uma caminhada rumo às cidades da planície, sendo acompanhado pelos pastores. Logo começaram a surgir escarnecedores que, ao verem-me com aquele vaso incandescente em pleno dia, e passaram a dizer que eu ficara louco. Ao espalhar esta notícia, muitos vieram ao meu encontro, trazendo conselhos para que eu abandonasse aquele vaso que seria capaz de destruir toda a minha reputação e dignidade diante de todos eles.Quando eu lhes falei sobre os exércitos e sobre minha missão juntamente com os pastores, eles concluíram que de fato eu ficara louco. Tentaram tirar-me o vaso pela força, mas agarrando-me a ele, impedi que o tirassem de mim.Envergonhados diante de tudo isto, muitos pastores começaram a se afastar: alguns retornaram para suas tendas enquanto outros uniram-se àqueles que riam de meu comportamento estranho.Sentindo-me sozinho com aquele pesado vaso sobre os ombros, comecei a angustiar-me. Ansiava encontrar alguém com quem pudesse compartilhar minha experiência, mas todos lançavam-me olhares de reprovação.Lembrei-me de Sara, minha amada esposa; Em obediência a Voz de Yahwéh havíamos trilhado por muitos caminhos, estando Sara sempre ao meu lado, animando-me a prosseguir mesmo nos momentos mais difíceis.Com certeza Sara me traria consolo e forças para continuar firme, conduzindo o vaso da salvação.Enquanto avançava pelo caminho pensando em Sara, a vi no meio da multidão. Ao dirigir-me a ela, fiquei surpreso e desalentado ao ver em seus olhos o mesmo menosprezo daqueles que me chamavam de louco por conduzir em pleno dia chama que se desprendera do altar.Lembrando-me da ordem de Yahwéh de que teria de libertar meu sobrinho Ló, fui andando sozinho pelo caminho. Ao colocar-me no lugar daqueles que me achavam louco, eu dava-lhes razão, pois em condições normais, nenhuma pessoa coerente sai de casa, sem rumo definido, levando em pleno dia um vaso com uma labareda nas costas, afirmando estar marchando contra o exércitos de cinco reis, para libertar um parente. Realmente dá a entender que se trata da manifestação de uma grande loucura. Mesmo assim, a despeito de todas as humilhações e palavras que falavam contra mim, eu avançava rumo ao vale desconhecido. Toda aquela zombaria foi finalmente diminuindo, à medida em que eu me distanciava do Carvalho de Mambré.Começaram a sobrevir ao meu coração muitas dúvidas quanto ao meu futuro. Ficava às vezes aflito com o pensamento de toda a minha experiência, desde a convocação dos pastores até aquele momento, poderia ser, de fato, demonstrações de uma loucura.Cheio de dúvidas, comecei a pensar na possibilidade abandonar à beira do caminho o vaso, retornando para junto do altar. Esses eram os conselhos de alguns pastores e amigos que, condoídos de minha solidão, ainda vinham ao meu encontro, aconselhando-me a retornar; Ali, diziam, eu poderia conquistar novamente a confiança dos pastores, voltando a ser, quem sabe, até mesmo um sacerdote honrado como outrora. Sobre o altar, diziam, havia um fogo muito maior que aquele que eu carregava nos ombros. Estava a ponto de retornar, quando Sara veio ao meu encontro, contando-me sobre o desprezo que muitos pastores lançavam contra mim; Ela estava consternada, pois toda aquela desonra, recaía também sobre ela, ao ponto de não sentir mais desejo de permanecer junto daquele altar.Depois de alertar-me, Sara passou a falar-me de um plano: Poderíamos, quem sabe, nos mudar para uma cidade distante, onde esqueceríamos todo aquele vexame.Esquecendo-me da voz que mandara-me seguir rumo à planície, respondi para minha esposa que eu estaria disposto a acompanhá-la para qualquer lugar, se ela permitisse que eu levasse o vaso. Ele seria o nosso altar, aquecendo e iluminando nossas noites com sua chama.Ao ouvir sobre o vaso, Sara voltou a irar-se, afirmando não entender minha teimosia em continuar levando sobre os ombros aquele símbolo de vergonha e desprezo. Depois dizer-me tais palavras, voltou-me as costas, retornando para a tenda.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h17
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IIIA História de um VasoAngustiado em não poder realizar o sonho de Sara, prossegui rumo ao futuro incerto, sendo orientado unicamente pela chama, cujo brilho aumentava à medida em que as trevas adensavam-se. Comecei então a meditar sobre aquela chama que acompanhava-me com seu brilho e calor.Eu estava acostumado a ver o Fogo Sagrado entronizado sobre um grande altar de pedras, em meio aos louvores de muitos pastores, dentre os quais eu me destacava como mestre e sacerdote. Naqueles momentos de adoração, eu me vestia com os melhores mantos, e fazia questão de realizar o sacrifício, somente quando todos os meus servos estivessem reunidos ao meu redor, para que ouvissem meus conselhos e advertências. Na hora do sacrifício, eu erguia para o céu minha espada desembainhada, e, com palavras amedrontadoras, proclamava a grandeza do Senhor dos Exércitos, o Deus Todo Poderoso que domina sobre os Céus e a Terra. Vibrando a espada no ar num movimento ameaçador, eu representava diante de meus pastores, a imagem de um Deus severo, que está sempre pronto a revidar qualquer afronta. Depois dessa demonstração de soberania e poder, eu pegava uma ovelha das mãos de um pastor, e a amarrava sobre o altar. Para que ficasse bem patente a ira divina, eu pisava sobre o seu pescoço, golpeando-a severamente, até vê-la perecer. Naquele momento eu descia do altar, e ficava esperando pelo Fogo Sagrado que jamais deixou de manifestar-se sobre o sacrifício.Eu aprendera desde a infância a reverenciar o Fogo Sagrado, crendo ser ele uma revelação visível de Yahwéh, o Grande Deus Invisível. Até então, eu o vira como um Fogo Único e Indivisível. Agora, ao transportar em humilde jarro a chama que se desprendera do Altar, meus pensamentos agitavam-se com o surgimento de um novo conceito sobre o Criador: o conceito de um Deus Sofredor que é capaz de despreender-se do Grande Yahwéh, representado pelo Fogo Sagrado, para acompanhar o pecador em sua jornada.Arrependido, prostrei-me diante do vaso e chorei amargamente. Tinha agora consciência de que todo o zelo demonstrado junto ao Altar, tinha por finalidade a exaltação de meu orgulho, e não do amor daquele que me acompanhava pelo caminho.Subitamente, gravou-se-me na mente a convicção de que aquela pequena chama que se desprendera do Fogo Sagrado, era uma representação do Messias, que Se desprenderia do Grande Yahwéh, para ser o Deus Conosco, companheiro em todas as nossas jornadas. Ao sobrevir-me esta convicção, a chama alegrou-se, tornando-se mais brilhante e calorosa.Com o coração transformado, prossegui pelo caminho rumo ao vale, levando nos ombros o jarro que trouxera-me depois de tanto desprezo, a alegria de uma nova revelação sobre o caráter do Criador.Momentos difíceis começaram a surgir em minha caminhada, quando ventos frios vindos do mar salgado começaram a arremeter-se contra a pequena chama, procurando apagá-la. Eu a amparava com o meu corpo, andando muitas vezes de lado e mesmo de costas, mas sempre avançando rumo ao vale.Ao romper a luz do dia, achei-me a um passo da planície. Comecei a encontrar pelo caminho muitos rebanhos que eram conduzidos por rudes pastores. À medida em que avançava entre eles, surgiam tumultos e confusões, pois muitas ovelhas e cabras assustavam-se com o meu vaso ardente, debandando-se por todas as partes. Isto fez com que a maioria dos pastores ficassem irritados contra minha presença em seu meio.Sabendo que não poderia ficar retido naquele vale, prossegui em frente rumo à Sodoma. Enquanto avançava, começou a acontecer algo interessante: muitas ovelhas, meigas e submissas, começaram a acompanhar-me. Eram poucas a princípio, mas pouco a pouco seu número foi aumentando, até que passei a andar com dificuldade, devido ao grande número de ovelhas que me seguiam. Ao longe eu podia ver os pastores, enfurecidos, pela perda de suas ovelhas mais bonitas.Ao chegar à Cidade de Sodoma, a encontrei vazia e devastada. Seguindo os rastos deixados pelos exércitos e pela multidão de cativos, fui aproximando-me cada vez mais do alvo de minha missão. Ao chegar à campina de Dã, pude avistar ao longe o grande acampamento dos soldados, ao pé de um outeiro. Sem pressa, encaminhei-me para lá, conduzindo o meu novo rebanho.Do alto do monte, pude observar o acampamento em toda a sua extensão. Havia milhares de soldados comemorando sua vitória; Enquanto isso, centenas de cativos jaziam amontoados no meio do arraial, humilhados e sem esperança. Diante desse quadro, fiquei imaginando como poderia se dar o livramento.Minha presença despertou a curiosidade de alguns soldados que, ao ver-me com o vaso fumegante, aproximaram-se e começaram a debochar. Quando perguntaram-me sobre o motivo de minha presença naquele lugar, eu disse-lhes que viera libertar meu sobrinho Ló. Minhas palavras tornaram-se motivo de muitos gracejos em todo o acampamento; Depois disso, passaram a escarnecer de Ló.Em pouco tempo, toda aquela zombaria transformou-se em gritos de vingança, e proclamaram que, na manhã seguinte, todos os cativos seriam exterminados, começando pelo meu sobrinho.Capitulo IVA História de um VasoEnquanto tentava imaginar o que Yahwéh poderia fazer para alcançar tão miraculoso livramento, vi surgir ao longe o vulto de pastores que se encaminhavam em minha direção, vindos de Sodoma. Pensei à princípio que fossem os pastores inimigos que vinham arrancar-me o rebanho conquistado com amor. Tal receio logo desapareceu, dando lugar a um sentimento de muita alegria, quando descobri que eram meus pastores fiéis. Eles foram se aproximando em pequenos grupos de doze, até alcançar o total de 300 pastores. Ao olhar para eles, pude notar em seus semblantes os sinais de uma grande luta espiritual que tiveram de enfrentar, para estarem do meu lado. Contaram-me da experiência de muitos companheiros que, desanimados, haviam lançado fora o azeite e a lã de seus vasos, retornando para as suas tendas. Falaram-me de como, naquela noite passada, haviam aprendido a amar a luz de meu vaso, que para eles tornara-se como uma estrela guia.Alegrava-me com a presença de meus humildes pastores, quando vieram em nossa direção Aner, Escol e Manre, acompanhados por 15 homens armados. Eram fiéis amigos que, conhecendo os perigos que enfrentaríamos naquele vale, vieram em nosso socorro. Para que não atrapalhassem o plano divino, pedi-lhes que permanecessem escondidos até o alvorecer, quando receberiam orientações sobre como participar da missão.Comecei a orientar os pastores, seguindo as instruções da Voz Divina que soava-me de dentro da chama: A primeira tarefa dos pastores, seria cuidar do rebanho até o anoitecer.Ao retornarem, ordenei que amarrassem os novelos de lã embebidos em azeite, na ponta de seus bordões, colocando-os dentro dos vasos que, deveriam ser mantidos suspensos, de boca para baixo.Passei a incendiá-los com o fogo de minha labareda, até que as trezentas tochas ficaram ardendo, porém, ocultas, no interior daqueles vasos.Ordenei à quarenta de meus corajosos pastores que, no momento indicado por um sinal que seria dado, deveriam avançar silentes para o meio do acampamento, circundando todos os cativos que jaziam amontoados no meio do arraial. Ao mesmo tempo, os 260 pastores restantes, deveriam circundar todo o acampamento, aguardando pelo sinal de quebrarem os vasos com os chifres.Orientado pela Voz da Chama, indiquei-lhes os sinais: Quando a última tocha se apagasse no acampamento, deveriam ficar atentos, pois uma pequena lamparina seria acesa por um dos cativos. Assim que a lamparina começasse a arder, deveriam correr cada um para o seu lugar, evitando qualquer ruído, para que não fossem notados.O sinal para quebrarem os vasos com os chifres, erguendo bem alto a tocha, era o apagar da lamparina.Depois dessas orientações, os 260 pastores, ocultos pelas sombras da noite, se espalharam pelo vale, e ficaram esperando pelo momento de se posicionarem ao redor do acampamento. Enquanto isso, os 40 se posicionaram próximos à uma passagem mais vulnerável, através da qual haveriam de alcançar os cativos.Já era alta noite quando a tocha do último soldado apagou-se, sobrevindo completa escuridão e silêncio sobre o arraial.Entre os cativos, havia um homem naquela noite, que vivia a maior angústia de sua vida. Era o meu sobrinho que, depois de tornar-se alvo de tantos abusos e humilhações, tomara conhecimento do castigo que os aguardava pelo alvorecer.Naquela noite, Ló tinha seus pensamentos voltados para o seu tio; Lembrava-se com arrependimento do momento em que me deixara junto ao Carvalho de Mambré, mudando-se para as campinas de Sodoma. Em seu desespero, sentiu desejo de rever minha face e pedir-me perdão por ter-se afastado de mim. Justamente naquele momento, Ló foi atraído pelo brilho de uma tocha que ardia sobre o outeiro. Ao fitar o brilho, imaginou estar tendo uma visão, pois o mesmo revelava-lhe a face de seu querido tio.Querendo mostrar-me o seu rosto, Ló apalpou em meio às trevas, até encontrar uma pequena lamparina que trouxera em seu alforje. Frustrado, percebeu que não havia nela nenhum azeite. Concluiu que aquela lâmpada apagada e seca, era um símbolo de sua vida vazia e sem fé.Sem desviar os olhos de meu rosto iluminado pela chama do vaso, num desesperado gesto de fé, Ló apalpou o pavio de sua lamparina, descobrindo haver nele um restinho de azeite. Curvando-se, passou a ferir as pedras do fogo, até que uma faísca saltou para o pavio. Sem que soubesse, Ló estava comandando com seus gestos, os passos para um grande livramento.Os trezentos pastores ao verem o tênue brilho da lamparina, encaminharam-se rapidamente para os seus postos, e, ficaram aguardando pelo apagar da pequena chama.Desde o momento em que Ló erguera-se com sua diminuta chama, eu fiquei olhando para os seus olhos que fitavam os meus. Vi que sua face trazia sinais de indizível angústia e maus tratos. Mesmo assim, pude ler em seus olhos azuis, que a esperança e a fé ainda não o abandonara. O foguinho da lamparina de Ló, contudo, não resistiria por muito tempo. Era necessário que se apagasse, para sinalizar a grande vitória.Quando a escuridão voltou a cobrir a face de Ló, meus trezentos pastores arremeteram seus chifres contra os vasos que mantinham ocultas as tochas ardendo. Um grande ruído, como de cavalaria em combate ecoou por todas as partes, enquanto as tochas eram suspensas. Os trezentos chifres usados até então para conduzir o rebanho, soavam agora como trombetas de conquistadores.Todo o acampamento despertou-se num único salto, e, sem saber como escapar de tão terrível investida que partia de fora e de dentro, os soldados começaram a lutar entre si, enquanto meus pastores permaneciam em seus lugares, fazendo soar os chifres.Os cativos, ficaram muito espantados à princípio, mas pouco a pouco foram tomando consciência do grande livramento que estava se operando em seu favor.Quando amanheceu, revelou-se aos nossos olhos um cenário de completa destruição; Todo o arraial estava coberto por milhares de corpos rasgados pelas próprias espadas e lanças. Somente uns poucos conseguiram fugir daquele acampamento de morte, mas foram perseguidos pelos meus 18 aliados que estavam armados, sendo alcançados em Hobá, que fica à esquerda de Damasco. Enquanto isso, os cativos, agora libertos, recuperavam todas as riquezas que haviam sido saqueadas pelos inimigos.
Capitulo VA História de um VasoDo cimo do outeiro, enquanto eu vibrava com a alegria dos cativos naquela manhã de liberdade, ouvi a Voz de Yahwéh falando-me do meio da chama:- Este livramento que hoje se concretiza ,representa o livramento que hei de operar nos últimos dias, salvando os remanescentes de teus filhos, do cerco de numerosas nações que se aliarão a Gog com o propósito de destruí-los. Naquele dia em que triunfarem sobre o meu povo, a minha indignação será mui grande, e contenderei com ele por meio da peste e do sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos que estiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minha santidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que eu sou o Senhor. E sobre a casa de Daví e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o Espírito de Graça e de Súplicas; olharão para Mim a quem traspassaram, pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele comos e chora amargamente pelo primogênito. Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Daví e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza" (Ezequiel 38; Zacarias 12,13).Consciente da importância histórica daquele dia de livramento, tomei um calendário e, fiquei surpreso, pois era Rosh Hashaná, o dia das trombetas. Aquele era o primeiro dia de um novo ano; Dez dias depois viria o Yom Kipur, o dia da purificação dos pecados; No dia 15, teria lugar a festa de Sukot, a alegre festa das colheitas do outono.A chama que para mim tornara-se numa representação do Messias Prometido, apagou-se no momento em que desci ao encontro dos pastores e dos muitos cativos agora libertos. Cheios de alegria e de admiração, todos queriam saber como tornara-se possível tão grande livramento, somente com a utilização daquelas tochas e chifres. Falei-lhes então da importância daquele fogo que se desprendera do Altar, para libertá-los naquele vale, identificando-o com o Messias Salvador.Ao ver que todos carregavam em seus corpos e mantos a sujeira da escravidão, convidei-os a seguirem-me até ao rio Jordão, onde todos poderiam banhar-se, para purificação de seus pecados.Somente três pessoas atenderam ao convite: Ló e suas duas filhas mais novas. Os demais, retornaram, contaminados para suas casas.Antes de partir, o rei de Sodoma veio ao meu encontro, prometendo dar-me todas as riquezas recuperadas naquela manhã. Eu recusei sua oferta, para que jamais alguém possa dizer que eu me enriqueci com aquele saque.Permanecemos acampados às margens do rio Jordão, nas proximidades de Jericó por doze dias. Naqueles dias de refrigério, todos ficaram livres das impurezas, deixando-as nas águas do Jordão. Este era um preparo especial para a festa de Sukot que decidimos comemorar em Salém.Cheios de alegria, iniciamos uma caminhada ascendente rumo à cidade de Salém, inconscientes da feliz surpresa que nos aguardava. Eu seguia à frente tendo ao meu lado Ló e suas duas filhas, e atrás vinham os 300 pastores, conduzindo o grande rebanho.À medida que avançávamos, comecei a notar que o meu vaso que se esvaziara no alvorecer, tornara-se muito pesado. Ao baixá-lo, fiquei surpreso ao descobrir dentro dele muitas pérolas de variados tamanhos e brilhos que se formaram misteriosamente.Ao avistarmos ao longe a alva cidade, começamos a ouvir sons de uma grande festa. Acordes harmoniosos repercutiam pelos montes, enquanto avançávamos pelo caminho.Minha curiosidade em conhecer aquela cidade e o seu jovem rei era imensa, pois da boca de muitos já ouvira sobre sua grandeza e fama. Tratava-se um reino diferente de todos os demais, onde os súditos eram treinados não no manejo de arcos e flechas, mas no domínio de instrumentos musicais. Melquisedeque, o seu jovem rei, regia a todos com um cetro muito especial : um alaúde, pelo qual pagara um preço elevado.Enquanto crescia em mim a alegria por estar nos aproximando da Cidade do Grande Rei, vimos uma multidão vestida de linho fino, puro e resplandecente, saindo ao nosso encontro. Todos tangiam instrumentos musicais, enquanto cantavam um hino de vitória. À frente da multidão vinha um jovem tocando um alaúde, trazendo na fronte uma coroa repleta de pedras preciosas, que brilhavam sob a claridade do sol poente. Eu tive a certeza de que aquele era o tão aclamado rei de Salém.Ao nos encontrarmos, ficamos surpresos com a saudação que nos fizeram; Inclinando-se diante de mim, Melquisedeque afirmou:- Bendito és tu Abraão, servo do Deus Altíssimo, que possui os Céus e a Terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos".
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h15
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo VIA História de um VasoSurpresos pela festiva recepção, fomos introduzidos na cidade, onde a beleza das mansões e jardins nos causou muita admiração. Tudo ali era puro e cheio de paz.Fomos recebidos no palácio real, edificado sobre o monte Sião. Ali, uma nova surpresa nos aguardava:A grande sala do trono, estava toda adornada com representações de nossa vitória sobre os inimigos. Havia no meio da sala uma mesa muito comprida, coberta por toalhas de linho fino adornadas com fios de ouro e pedras preciosas. Sobre a mesa havia 304 coroas, cada uma trazendo a inscrição do nome de um vencedor. Num gesto que novamente nos surpreendeu, Melquisedeque, tomando as coroas, começou a colocá-las na cabeça de cada um de nós, começando por Ló e suas filhas. Estávamos todos admirados pelo fato do rei de Salém conhecer-nos individualmente, e por ter preparado aquelas coroas muito antes de sermos vencedores.Eu observava a alegria de meus companheiros coroados, quando, tomando uma coroa semelhante à sua, o rei de Salém dirigiu-se a mim com um sorriso. Ao levantá-la sobre minha cabeça, notei algo que até então não havia percebido: Suas mãos traziam cicatrizes de profundos ferimentos. Vencido por um sentimento de gratidão, prostrei-me aos seus pés e, comovido, beijei suas bondosas mãos, banhando-as com minhas lágrimas.Ao levantar-me, perguntei-lhe o significado daquelas cicatrizes. Com um meigo sorriso, ele prometeu que iria contar-me toda a história daquele próspero reino, e do quanto lhe custou a sua paz.Depois de coroar-nos, Melquisedeque nos fez assentar ao redor da grande mesa, e passou a servir-nos pão e vinho; A partir daquele momento, passamos a honrá-lo como Sacerdote do Deus Altíssimo.Num gesto de gratidão, tomei o vaso repleto de pérolas, e o coloquei aos pés do rei. Tomando-o nos braços, ele passou a acariciá-lo, sem atentar para o brilho das pérolas. Expressando-me a gratidão por aquela oferta, disse-me que aceitaria o vaso e, das pérolas, somente aceitaria o dízimo.Imediatamente passei a contar as jóias, separando as mais belas para o rei. Haviam um total de 1.440 pérolas, das quais lhe entreguei 144. Ele as guardou cuidadosamente em uma caixinha feita de ouro puro, em cuja tampa havia lindos adornos marchetados de pequenas pedras preciosas.Depois de receber o dízimo que simbolizava o grande livramento operado por Yahwéh na planície, Melquisedeque chamou para junto de si um de seus súditos que era mestre em adornos e pinturas, ordenando-lhe a honrar o vaso com uma linda gravura que retratasse o momento em que eu o ofertei.Enquanto o jarro era pintado, Melquisedeque passou a contar-me a história de seu reino, desde sua fundação até aquele momento em que estávamos comemorando a grande vitória sobre os inimigos.Ao devolver-me o vaso, agora honrado pela mais bela gravura e inscrições que exaltavam a justiça, a humildade e o amor, o rei de Salém ordenou-me a levar comigo o vaso com aquelas pérolas. Durante seis anos eu e meus pastores deveríamos contar para todos a história daquele vaso que fora vitorioso por causa da chama do altar. A todos aqueles que, com arrependimento, aceitassem a salvação representada por sua história, deveríamos oferecer uma pérola. Ao fim dos seis anos, as pérolas acabariam; Já não haveria oportunidade de salvação. Sobreviria então o sétimo ano, no qual haveria um tempo de grande angústia e destruição, quando somente haveria proteção para aqueles que possuíssem as pérolas. Por essa ocasião, as cidades da planície seriam totalmente destruídas pelo fogo do juízo, e os demais povos impenitentes, seriam dizimados por grandes pragas.
Capitulo VIIA História de um VasoSobre o triunfo que acabávamos de obter sobre numerosos exércitos, Melquisedeque, depois de repetir-me as palavras ditas pelo Messias, deixou um sinal que seria importante para aqueles que vivessem por ocasião do grande livramento de Israel. Afirmou que, multiplicando as 144 pérolas do dízimo pelo número de colunas de seu palácio, encontraria o ano que traria em sua consumação o grande livramento de Israel. Movido pela curiosidade, comecei imediatamente a contar as colunas; Eram 40 colunas de mármore, adornadas com pedras preciosas.Ao retornar ao rei com o resultado dos cálculos, ele passou a fazer predições sobre os grandes acontecimentos que teriam lugar ao fim daquele ano:- Ao chegar a plenitude dos tempos, todos os esforços humanos em busca da paz se frustrarão. Naquele tempo, numerosos nações se aliarão contra o reino de Salém; Haverá uma batalha como nunca houve, e toda a terra será castigada pelo fogo; Depois de esgotarem todos os recursos em sua defesa, Israel verá, com desespero, incontáveis inimigos marchando contra eles, com o propósito de eliminá-los. Como Ló em sua noite de angustia, eles verão morrer sua esperança, quando, em Rosh Hashanah, ouvir-se-á em meio às ruínas de Salém, os acordes harmoniosos de um alaúde, tocado por um beduíno da tribo de Taamireh; Sua música fará renascer a fé e a esperança em um mundo melhor, onde nação não se levantará contra nação; onde as lágrimas, a dor e a morte não mais existirão.Depois de consolar os aflitos com os acordes de seu alaúde, o beduíno tomará o vaso com os pergaminhos da Tumba de Davi, e o levará sobre os ombros. Naquele dia, estarão os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, e, ao clamar pelo livramento de Israel, haverá um forte terremoto que rachará o monte pela metade, surgindo do oriente para o ocidente um enorme vale. Naquele dia, toda a terra de Israel será fortemente sacudida, sobrevindo total destruição para todos os exércitos inimigos; Haverá, contudo, salvação para todos aqueles que, com arrependimento, refugiarem-se sob as asas do Eterno, lançando para longe de si os instrumentos de violência.Toda a humanidade testemunhará, com espanto, as cenas de livramento dos filhos de Israel. Naquele dia, muitos povos e poderosas nações se posicionarão ao lado de Yahwéh dos Exércitos; Multidões se aproximarão dos judeus da diáspora, dizendo: Nós iremos convosco, porque sabemos que o Eterno está do vosso lado.O Yom Kipur que seguirá ao livramento, será um dia de purificação das impurezas de todos aqueles que aceitarem a salvação; Naquele dia acabará a cegueira dos filhos de Jacó, e olharão para Aquele a quem traspassaram, e chorarão amargamente por ele como se chora por um filho unigênito. (Zacarias 12,13).Na festa de Sukot (colheitas) será derramado o Espírito de Deus sobre toda a carne; E há de ser que, todo aquele que invocar o nome de Yahwéh, será salvo, recebendo uma pérola do vaso (Joel 3).No decorrer dos dias de Sukot, chuvas de bênçãos cairão sobre o imenso vale, fazendo surgir à vista de todos os povos, em toda a Terra Santa, um paraíso repleto de alegria e paz.Naquele dia os eleitos de Deus compreenderão as palavras do Livro:"Ouvi-me, vós, que estais à procura da justiça, vós que buscais a Yahwéh. Olhai para a rocha da qual fostes cavados, para a caverna da qual fostes tirados. Olhai para Abraão, vosso pai, e para Sara, aquela que vos deu a luz. Ele estava só quando o chamei, mas eu o abençoei e o multipliquei. Yahwéh consolou a Sião, consolou todas as suas ruínas; ele transformará o seu deserto em um Éden e as suas estepes em um jardim. Nela encontrarão gozo e alegria, cânticos de ações de graças e som de música"(Isaías 51:1-3).Naquele dia os remidos olharão para o humilde beduíno que libertou da caverna o vaso de Abraão, e cantarão com alegria:"Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina! Porque Yahwéh consolou o seu povo, ele redimiu Jerusalém. Yahwéh descobriu o seu braço santo aos olhos de todas as nações, e todas as extremidades da terra viram a salvação do nosso Deus" (Isaías 52:7-10).Durante seis anos, toda a humanidade, iluminada pela maior revelação do amor e da justiça de Yahwéh, terá oportunidade de romper com o império do pecado, unindo-se aos filhos de Israel em sua marcha de purificação e restauração do reino da luz..Então acontecerá que, todos os sobreviventes das nações que marcharam contra Jerusalém, subirão, ano após ano, para prostrar-se diante do rei Yahwéh dos Exércitos, e para celebrar a festa de Sukot. E acontecerá que aquele das famílias da Terra que não subir e não vier, haverá contra ele a praga com que Yahwéh ferirá as nações que não subirem para celebrar a festa de Sukot (Zacarias 14: 16- 18).Naqueles anos de oportunidade, soará por todas as partes do mundo o último convite de misericórdia, num apelo para que todos os pecadores se arrependam e se unam numa eterna aliança com Yahwéh, dizendo:"Assim diz Yahwéh: Observai o direito e praticai a justiça, porque a minha salvação está prestes a chegar e a minha justiça, a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que assim procede, o filho do homem que nisto se firma, que guarda o sábado e não o profana e que guarda sua mão de praticar o mal. Não diga o estrangeiro que se entregou a Yahwéh: - Naturalmente Yahwéh vai excluir-me do seu povo, nem diga o eunuco: -Não há dúvida, eu não passo de uma árvore seca". Pois assim diz Yahwéh aos eunucos que guardam os meus sábados e optam por aquilo que é a minha vontade, permanecendo fiéis à minha aliança: Hei de dar-lhes, na minha casa e dentro dos meus muros, um monumento e um nome mais precioso do que teriam com filhos e filhas; hei de dar-lhes um eterno nome, que não será extirpado. E, quanto aos estrangeiros que se entregarem a Yahwéh para servi-lo, sim, para amar o nome de Yahwéh e tornarem-se servos seus, a saber, todos os que se abstêm de profanar o sábado e que se mantêm fiéis à minha aliança, trá-los-ei ao meu santo monte e os cobrirei de alegria na minha casa de oração. Os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão bem aceitos no meu altar. Com efeito, a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos" (Isaías 56: 1 - 7).Nos seis anos de oportunidade, Samael, o grande enganador, num gesto de desespero, empregará todos os recursos possíveis para impedir a realização de Yahwéh através de Seu povo. Em oposição à santificação do sábado que é o sinal da aliança entre Yahwéh e seus escolhidos, numerosas religiões, aliadas a governantes ímpios, imporá outro dia para o culto, não podendo comprar nem vender todos aqueles que mantiverem-se fiéis à aliança de Yahwéh (Ver Ezequiel 20:20;Apocalípse 13).Naqueles anos de provas, os eleitos de Deus sobreviverão mediante o cuidado dos anjos, que os conduzirá para distante das populosas cidades que serão castigadas pelas sete últimas pragas que cairão sobre os impenitentes ao fim dos seis anos( Apocalipse 15).Durante os seis anos da colheita final, o Messias edificará uma Nova e Eterna Jerusalém, adornando-a com os atos de justiça de Seus escolhidos. (Êxodo 25: 1 - 8) Isaías 60: 10 -22 ; Zacarias 6: 12 - 15; Apocalipse 3:12) Essa Nova Jerusalém somente será revelada ao completar-se toda a justiça divina, ao fim do sétimo ano, período em que os eleitos de Deus terão como desafio viver uma vida sem culpas, pois qualquer ato de rebeldia naquele tempo, ficaria sem expiação, significando eterna vergonha para o Criador.Ao completarem-se os sete anos, ,o Messias aparecerá nas nuvens do céu, acompanhado por todas as hostes celestes; Ao tocar Sua trombeta naquele grande Rosh Hashanáh, os fiéis falecidos, ressuscitarão revestidos de glória; os vivos vitoriosos, serão transformados num abrir e fechar de olhos , recebendo corpos perfeitos; Juntos, todos os remidos serão arrebatados para a Nova Jerusalém, numa viagem inesquecível que começará no primeiro dia da festa de Sukot; Depois de sete dias de feliz ascensão, chegarão à Cidade Santa para comemorarem, diante do trono, o oitavo dia da festa. Como que a sonhar, os resgatados do Senhor entrarão na Cidade Santa, encontrando ao seu norte, o jardim do Éden, no meio do qual eleva-se o monte Sião, o lugar do trono de Yahwéh. Coroados pelo Messias, os remidos entoarão o cântico da vitória, fazendo vibrar por todo o espaço os acordes de suas harpas, alaúdes e flautas.Capitulo VIIIA História de um VasoDepois de proferir todas essas predições, Melquisedeque disse-me que toda a experiência que estávamos vivendo, era prefigurativa. Para que todo o drama se consumasse, tínhamos ainda diante de nós acontecimentos importantes: Primeiramente, eu deveria retornar ao Carvalho de Mambré juntamente com os meus pastores, para proclamar a todos a salvação representada pela história daquele vaso. Todo aquele que, com arrependimento, aceitasse o Messias revelado, teria seus pecados perdoados, recebendo uma pérola. Ao fim de seis anos, ao chegar à véspera de Rosh Hashaná, as pérolas acabariam, não havendo mais oportunidade de salvação. Por aquele tempo, o fogo do juízo cairia sobre as cidades de Sodoma e Gomorra, havendo terríveis pragas sobre todos os infiéis.Ao ouvir tais palavras do rei de Salém, sobreveio-me grande angústia, ao lembrar-me dos últimos passos de Sara; Eu temia que ela, em sua incredulidade, não aceitasse uma pérola. Se isto acontecesse, os meus lindos sonhos ruiriam por terra, pois não conseguiria ser feliz em sua ausência. Lendo nos meus olhos a angústia, Melquisedeque consolou-me com uma promessa:- Abraão, daqui a seis anos Yahwéh te visitará em sua tenda, e sua esposa será curada de sua aridez. Ela se converterá e lhe dará um filho que se chamará Isaque.Ao findar a festa de Sukot, retornamos às nossas tendas junto ao Carvalho de Mambré. À medida em que íamos avançando pelo caminho, muitas pessoas nos cercavam, admirados pela beleza do vaso repleto de pérolas; A todos contávamos a história de sua chama redentora, e oferecíamos as pérolas a todos que crendo, aceitavam a salvação.Quando chegamos ao Carvalho de Mambré, uma multidão de pessoas no esperava; Muitos tinham ouvido falar do miraculoso livramento operado através daquele vaso que fora alvo de tanto menosprezo. Agora, todos estavam emudecidos ao vê-lo glorificado.Juntamente com os meus pastores, continuamos a proclamar o infinito amor de Yahwéh revelado pela chama. O número daqueles que procuravam pelas pérolas foi aumentando, dia após dia, e todos éramos felizes.Os dias, os meses e anos foram-se passando, e a quantidade de pérolas foram diminuindo dentro do vaso. Estávamos vivendo agora os últimos meses do sexto ano, que era o último da oportunidade. À medida em que os dias se passavam, aumentava em meu coração uma preocupação e uma angústia, pois Sara até então não tomara interesse em apossar-se de sua pérola, apesar de meus constantes rogos.Naqueles momentos de aflição em que clamava a Deus pela salvação de Sara, meu único consolo eram as últimas palavras do rei de Salém, de que ao fim dos seis anos ela seria transformada.Vivíamos agora os últimos dias do sexto ano; A consciência de que o tempo estava esgotando, fazia com que muitas pessoas me procurassem de manhã até à noite, para apossarem-se das pérolas da salvação.Com o coração ferido por indizível aflição, eu insistia com Sara, procurando convencê-la de sua necessidade em tomar, o quanto antes, uma pérola, pois as mesmas estavam ficando a cada dia mais escassas. Sem atentar para a minha angústia, Sara desdenhava de meus apelos, afirmando que aquelas pérolas não tinham nenhum significado para ela.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h10
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IXA História de um VasoDepois de uma noite de vigília em que, desesperadamente, procurei convencer minha amada a apossar-se se sua pérola, aceitando a salvação representada por aquele vaso, vi o sol surgir trazendo a luz do último dia - véspera de Rosh Hashaná. Ao olhar para dentro do vaso naquela manhã, vi que restavam apenas três pérolas. Ao admirar-lhes o brilho, comecei a imaginar que a mais brilhante seria para o meu filho prometido, a de brilho intermediário seria a de Sara, e a última seria a minha. Esse pensamento trouxe-me alívio e esperança; Mas, ao mesmo tempo, comecei a preocupar-me com a possibilidade de chegar pessoas procurando por elas; Se viessem, eu não poderia negar-lhes o direito à elas.Tomado por essa preocupação, permaneci sentado sob o Carvalho de Mambré. Na viração do dia, sobreveio-me um grande estremecimento quando vi ao longe três peregrinos que caminhavam rumo à nossa tenda. Comecei a clamar a Deus que eles mudassem de rumo, mas meus clamores não foram atendidos. Dominado por uma grande amargura, corri até eles, e, depois de prostrar-me, convidei-os para a sombra.Tomando uma bacia com água, passei a lavar-lhes os pés, limpando-os da poeira do caminho. Ao ver os pés feridos e calejados daqueles homens, senti compaixão por eles; Compreendi que haviam vindo de muito longe, enfrentado perigos e desafios, com o propósito de pegarem em tempo as pérolas. Vi que eles eram muito mais merecedores do que eu, Sara e nosso filho prometido.Ao lavar os pés do terceiro, meu coração que até então estava aflito, encheu-se de paz e alegria; Imaginava naquele momento, quão terrível seria se aquele terceiro peregrino, não houvesse se unido aos dois primeiros naquela caminhada; Nesse caso eu seria obrigado a tomar da última pérola, subindo sem minha amada à Salém. Se eu tivesse de passar por essa experiência, a pérola que simboliza a alegria da salvação, se tornaria para mim num símbolo de solidão e tristeza, pois a vida longe do carinho de Sara, seria para mim o maior castigo, como a própria morte.Depois de lavar-lhes os pés, comecei a servir-lhes o alimento que foi especialmente preparado para eles. Enquanto os servia em silêncio, eu ficava esperando pelo momento em que eles me perguntariam pelas pérolas. Mas sem revelar nenhuma pressa, eles falavam sobre a longa caminhada que fizeram, sobre as cidades por onde haviam passado. Eu perguntei-lhes se conheciam Salém; Eles responderam-me afirmativamente, acrescentando que naqueles seis anos, muitas obras haviam sido realizadas naquela cidade, em preparação para uma grande festa que estava para realizar-se dentro de mais um ano, por ocasião de Sukot.As palavras daquele terceiro peregrino, o mais falante dos três, começaram a trazer-me, misteriosamente, um sentimento de esperança. Ao olhar para os seus olhos azuis, vi que ele se parecia com Melquisedeque.Lembrava-me da última promessa feita pelo rei de Salém, quando o terceiro peregrino perguntou-me com um sorriso:- Abraão, onde está Sara tua mulher?!Atônito, perguntei-lhe:- Como você sabe o meu nome e o nome de minha esposa?O peregrino, respondeu-me:- Não somente sei o nome de vocês, como também sei que, daqui a um ano vocês terão um filho que será chamado Isaque.Ao ouvir as palavras do visitante, corri para dentro da tenda afim de chamar minha esposa, para que ouvisse as palavras daquele peregrino.Ao vê-la, o peregrino perguntou-lhe:- Sara, porque você riu de minhas palavras?Assustada, Sara, respondeu:- Eu não ri meu senhor!- Não diga que não riu, pois eu a vi rindo dentro da tenda. Afirmou o peregrino.Consciente de estar diante de alguém que conhecia o seu íntimo, Sara perguntou-lhe:- Quem és tu Senhor?!- Eu Sou a chama que desprendeu-se do Fogo do Altar para estar no vaso de seu esposo! Eu Sou o Messias, o Yahwéh que sofre humilhações e desprezo por amor ao Seu povo!.Tendo feito esta revelação, o peregrino estendeu Suas mãos sobre a cabeça de Sara para abençoá-la; Somente então vi que elas estavam marcadas por cicatrizes semelhantes às do rei de Salém.O peregrino, com muita ternura, começou a falar ao coração de minha amada, resgatando-a de sua caverna de incredulidade:- Sara, você é preciosa aos meus olhos! Todo o seu passado de descrença e infertilidade está perdoado! Tenho para você um futuro glorioso, pois você se tornará mãe de muitos povos e nações!Depois de dizer estas palavras, o nobre visitante encaminhou-se para o vaso e, inclinando-se, tomou dele as três pérolas restantes. Dirigindo-se a Sara, entregou-lhe duas pérolas, e disse-lhe:- Uma é para você e a outra é para o teu filho Isaque.Com a vida transformada pelo amor de Yahwéh, Sara prostrou-se agradecida aos pés daquele peregrino que a salvara no último momento de oportunidade. Quando a vi prostrar-se submissa, meu coração por tantos anos aflito, rompeu-se em lágrimas de alegria e gratidão, e caí aos pés de meu Redentor e Rei.Depois de consolar-nos com a certeza de nossa eterna salvação, o peregrino entregou-me a última pérola. Quando apertei-a em minhas mãos senti grande luz de alegria e paz penetrar-me todo o ser, e passei a louvar ao Eterno pela certeza de que teria para sempre ao meu lado minha querida Sara e o filho da promessa que, dentro de um ano nasceriaCapitulo XA História de um VasoDepois destas coisas, Yahwéh despediu-se de Sara e dos pastores que ali se encontravam, e convidou-me a acompanhá-los até o outeiro que fica defronte do vale. Ao chegarmos àquele lugar, o Eterno despediu-se de seus dois companheiros, enviando-os para uma missão especial em Sodoma.Do cimo do monte contemplávamos os férteis vales e florestas que, como um paraíso, estendiam-se em ambas as margens do rio Jordão, circundando as prósperas cidades, dentre as quais destacavam-se Sodoma e Gomorra.Fora sobre aquela colina que, depois da contenda entre os meus pastores e os pastores de Ló, dei-lhe a oportunidade de escolher o rumo a seguir, pois não poderíamos permanecer juntos. Atraído pelas riquezas da campina, ele decidiu mudar-se para lá.Ao olhar para o meu companheiro que ficara silente desde o momento em que avistamos a campina, fiquei surpreso ao vê-lo chorando. Perguntei-lhe o motivo de sua tristeza, e Ele, soluçando respondeu:- Este é para mim um dia de muita tristeza, pois pela última vez meus olhos podem pousar sobre este vale fértil. Choro pelos habitantes dessas cidades que não sabem que os seus dias acabaram!A declaração de Yahwéh trouxe-me à lembrança todos aqueles cativos que haviam sido libertos seis anos antes; Infelizmente, quase todos rejeitaram o banho da purificação, retornando imundos para suas casas; Unicamente Ló e suas filhas aceitaram a salvação, tomando posse de suas pérolas. Pensando numa possibilidade de livramento para aquele povo, perguntei ao Senhor:- E se por acaso existir naquelas cidades, cinqüenta pessoas justas, mesmo assim elas serão destruídas?Yahwéh disse-me que se houvesse cinqüenta justos, toda a planície seria poupada.- E se hover 45 justos?.Se houvesse ali 45 justos, toda aquelas cidades seriam poupadas.Continuei com minhas indagações até chegar ao número dez. Yahwéh disse-me que se houvesse 10 justos naquelas cidades, toda a planície seria poupada.Torturado por uma indizível agonia de espírito, Yahwéh voltou a chorar amargamente, enquanto com voz embargada, pronunciava um triste lamento:- Sodoma e Gomorra, quantas vezes quis Eu ajuntar os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintainhos debaixo das asas, mas você não aceitou minha proteção. Por que você trocou a luz da minha salvação, pelas trevas deste reino de morte?! Meus ouvidos estão atentos em busca de, pelo menos uma prece, mas tudo é silêncio! Minhas mãos estão estendidas, prontas a impedir o fogo do juízo, mas vocês recusam o meu socorro!Curvando-me ao lado de meu companheiro sofredor, uni-me a Ele na lamentação. Naquele momento de dor, tive a certeza de que Melquisedeque também sofria por todos aqueles que haviam trocaram o amor e a paz de Salém, pelas ilusões daquele vale de destruição.Depois de um longo pranto, Yahwéh consolou-me, com a revelação de os seus dois companheiros, encontravam-se naquele momento em Sodoma, com a missão de salvar Ló e suas filhas, livrando-os da morte. Suas palavras trouxeram-me grande alívio, e prostrei-me agradecido aos seus pés.
Capitulo XIA História de um VasoAntes de partir, Yahwéh encarregou-me de uma missão, dizendo:- Tome um rolo vazio e registre nele a história do vaso e a história de Salém, conforme ouviste dos lábios de Melquisedeque. Dentro de um ano, você e todos aqueles que aceitaram a salvação, deverão subir à Salém para a festa de Sukot; Naquele dia, devolverá ao rei de Salém o vaso, oferecendo dentro dele como presente, o rolo.Naquela mesma tarde, em obediência às ordens de Yahwéh, comecei a registrar a história vivida por mim e por meus pastores, desde o momento em que parti rumo ao vale, levando sobre as costas o vaso com sua labareda.No dia seguinte, o sol já ia alto, quando, ao mencionar a cidade de Sodoma no manuscrito, lembrei-me que aquele era o dia de sua destruição.Com o coração acelerado, corri para lá e fiquei espantado com o cenário que estendeu-se diante de meus olhos: Em lugar daquele vale fértil, semelhante a um paraíso, havia um deserto fumegante, sem nenhuma vida; No lugar das cidades de Sodoma e Gomorra, havia uma profunda cratera, para onde as águas do mar salgado escorriam.Abalado ante essa visão de destruição, retornei à tenda com o coração entristecido . A lembrança de tantas pessoas que, por rejeitarem o perdão divino, haviam sido consumidas pelo fogo, deixava-me profundamente abalado. Nos dias seguintes, não encontrei forças para escrever; Retornei outras vezes ao outeiro, com a esperança de que tudo aquilo fosse um pesadelo, mas em lugar do vale fértil eu somente conseguia enxergar aquele caos.Demorou vários dias para que eu voltasse a ter ânimo para prosseguir com os escritos do rolo.Fim da primeira parte.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h08
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IA História de Salém
Esta é a história de Salém segundo ouvi dos lábios de Melquisedeque por ocasião da festa de Sukot, quinze dias depois do livramento de Ló e suas filhas.Tudo começou com um sonho no coração de um homem chamado Adonias; Ele possuía de muitas riquezas, mas a nada prezava mais que a justiça e a paz que nascem da sabedoria e do amor.Cansado com as injustiças que predominavam por toda a terra de Canaã, Adonias resolveu edificar um reino que fosse regido por leis de amor e de justiça. O nome da capital desse reino seria Salém, a Cidade da Paz.Os súditos de Salém não empunhariam arcos e flechas, mas seriam treinados na arte musical; Cada habitante de Salém teria sempre ao alcance de suas mãos um instrumento musical, para expressar por meio dele a paz e a alegria daquele novo reino. Juntos, formariam uma poderosa orquestra na luta contra a desarmonia que nasce do orgulho e do egoísmo.O primeiro passo de Adonias para a concretização de seu plano, foi elaborar as leis do novo reino, as quais ele as escreveu em um pergaminho. Os súditos de Salém não poderiam mentir, furtar, odiar, nem matar seus semelhantes. O orgulho e o egoísmo eram apontados como causa de todo o mal, portanto, não poderiam existir naquele lugar de paz..As leis do pergaminho requeriam a prática da humildade, da sinceridade, da amizade, e, acima de tudo, do amor que é a maior de todas as virtudes.Depois de registrar no pergaminho as leis que regeriam aquele reino, Adonias passou a arquitetar Salém. Seria uma cidade a princípio pequena, com habitações para mil e duzentas pessoas. Como lugar de sua edificação, foi escolhida uma região alta de Canaã, ao ocidente do Monte das Oliveiras.Em pouco tempo, a realização de Adonias começou a atrair pessoas de todas as partes que, de perto e de longe, vinham para conhecerem os palácios e as mansões que estavam sendo edificados. Admirados ante a beleza daquela cidade tão alva, os visitantes perguntavam sobre quem seriam os seus moradores. Adonias mostrava-lhes o pergaminho, dizendo que Salém destinava-se aos limpos de coração - aqueles que estivessem dispostos a obedecerem suas leis.Capitulo IIA História de SalémA edificação da cidade foi finalmente concluída e Salém revelou-se formosa como uma noiva adornada, à espera de seu esposo.Assentado em seu trono, Adonias examinava agora os numerosos pretendentes a súditos que chegavam de todas as partes. Aqueles que, prometendo fidelidade às leis, eram aprovados, recebiam três dotes do rei: o direito à uma mansão, vestes de linho fino e um instrumento musical no qual deveriam praticar.A cidade ficou finalmente repleta de moradores. Cheio de alegria, Adonias convocou a todos para a festa de inauguração de Salém, no decorrer da qual proclamou um decreto que determinaria o futuro daquele reino, dizendo:- A partir deste dia, que é o décimo do sétimo mês, seis anos serão contados, nos quais todos os moradores serão provados. Somente aqueles que permanecerem leais, progredindo na prática das leis do pergaminho, serão confirmados como herdeiros deste reino de paz. Aqueles que forem enlaçados por culpas e transgressões, serão banidos pelo juízo.As palavras do rei levou a todos a um profundo exame de coração, e alegraram-se com a certeza de que alcançariam vitória sobre todo o orgulho e egoísmo, que são as raízes de todos os males.Adonias tinha um único filho a quem dera o nome de Melquisedeque. A beleza, ternura e sabedoria desse filho amado, haviam sido sua inspiração para a edificação fundação de seu reino.Melquisedeque tinha doze anos de idade, quando Salém foi inaugurada. Era plano de Adonias coroá-lo rei sobre os súditos aprovados, ao fim dos seis anos. Este plano, o manteria em segredo até o momento devido.O príncipe, com suas virtudes e simpatia, tornou-se logo muito querido de todos em Salém. Ele tinha sempre nos lábios um sorriso e uma palavra de carinho. Apreciava estar junto aos súditos em seus lares, recitando-lhes as leis do pergaminho em forma de lindas canções que vivia a compor. Sua presença trazia ao ambiente uma atmosfera de felicidade e paz. Esse amado príncipe possuía, de fato, todas as virtudes necessárias para ser rei de uma Salém vitoriosa.Adonias edificara uma mansão especial junto ao palácio, com o propósito de ofertá-la ao súdito cuja vida expressasse mais perfeitamente as leis do pergaminho. Diariamente ele observava os moradores, procurando entre eles essa pessoa a quem desejava honrar.Passeava pelas alamedas de Salém, quando, por entre o trinar de pássaros, Adonias ouviu uma voz semelhante a de seu filho. Ao voltar-se para ver quem era, encontrou um belo jovem que cantarolava uma canção. Ao contemplar em sua face o brilho da sabedoria e da pureza, Adonias alegrou-se por haver encontrado aquele a quem poderia honrar. Aquele jovem, que era uma cópia fiel do príncipe, chamava-se Samael.Colocando-lhe um anel no dedo, o rei conduziu-o ao palácio, onde, recebido por Melquisedeque que ofereceu-lhe muitos presentes, entre os quais o direito de estar sempre ao seu lado.Adonias preparou um grande banquete em honra a Samael, para o qual todos foram convidados. Ao contemplá-lo ao lado do rei, os súditos o aclamaram com alegria, acreditando ser o próprio príncipe.Exaltavam com júbilo as virtudes daquele formoso jovem, quando revelou-se Melquisedeque, posicionando-se com um sorriso à direita de seu pai.No banquete, Samael foi honrado por todos. Realmente ele era digno de residir na mansão do monte, pois havia nele um perfeito reflexo das virtudes que coroavam o amado príncipe.Capitulo IIIA História de SalémSalém crescia em felicidade e paz.Com alegria, os súditos reuniam-se a cada dia ao amanhecer para ouvirem, cantarem e tocarem as sublimes composições de Melquisedeque, que inspiravam atos de bondade e paz.Entre as amizades nascidas e fortalecidas em virtude da música harmoniosa, sobressaia aquela que unia o príncipe a Samael. Desde que passara a residir na mansão do monte, Samael tornara-se seu companheiro constante. Passavam longas horas juntos, meditando sobre as leis do pergaminho.Com admiração, o súdito honrado via o filho de Adonias transformar aquelas leis em lindas canções. As doces melodias nasciam dos seus lábios como o perfume de uma flor.Consciente da importância da música na preservação da harmonia e paz em Salém, o príncipe, além do canto, passou a dedicar-se à música instrumental, sendo o seu instrumento preferido o alaúde. Era por meio desse instrumento que conseguia expressar com maior perfeição a riqueza de seu íntimo.Dos seis anos de prova, cinco, finalmente, passaram. Adonias, feliz por ver que até ali todos os habitantes de Salém haviam permanecido leais aos princípios contidos no pergaminho, convocou-os para um banquete, no qual faria importantes revelações.Tendo tomado seus lugares diante do trono, os súditos, com alegria uniram as vozes entoando os cânticos da paz, sendo regidos por Samael.Depois de ouvi-los, o rei, emocionado, dirigiu-se a seu filho, abraçando-o em meio aos aplausos da multidão agradecida. Todos reconheciam que a paz e a alegria em Salém, eram em grande medida devidas ao amor e dedicação do querido príncipe, que era o autor daquelas doces canções.Naquele momento de reconhecimento e gratidão, Adonias revelou os seus planos mantidos até então em segredo.Com voz pausada, disse-lhes:- Súditos deste reino de paz, minh’alma está repleta de alegria por contemplar nesse dia vossas faces mais radiantes que outrora. Vossas vestes continuam alvas e puras, como quando as recebestes de minhas mãos. A harmonia de vossas vozes e instrumentos, hoje são maiores.Tendo dito estas palavras, o rei acrescentou com solenidade:-Um ano de prova ainda resta, ao fim do qual sereis examinados. Permanecendo fiéis como até aqui, sereis honrados confirmados como súditos deste reino de paz. Contudo, se alguém for achado em falta, será banido, ainda que este julgamento nos traga muita tristeza e sofrimento.As palavras do rei levaram os súditos a uma profunda reflexão. Todos, examinando-se, indagavam reverentes: - Estaremos aprovados?!Certos de que seriam vitoriosos, pois amavam Salém e suas leis, uniram as vozes num cântico expressivo de fidelidade. Ao terminarem o cântico, Adonias revelou-lhes seu grande segredo:- Aqueles que forem aprovados, herdando este reino de paz, receberão como rei o meu filho , a quem darei o trono glorificado dessa Salém vitoriosa.A revelação do rei foi aclamada por todos com muito júbilo. Adonias, contudo, ainda não lhes revelara todo o seu plano, por isso pedindo-lhes silêncio, prosseguiu:- O meu filho empunhará um cetro especial, no qual selarei todo o direito de domínio seu cetro , simbolizando toda a harmonia, será um alaúde.Diante desta revelação que a todos sensibilizou, o príncipe prostrando-se aos pés de seu pai, chorou motivado por muita alegria. Enquanto isto, todos o aplaudiam com euforia, ansiando ver o raiar desse dia em que a paz seria vitoriosa.Adonias, chamando para junto de seu filho a Samael, concluiu dizendo:- No governo dessa Salém vitoriosa, tenho proposto fazer de Samael o primeiro depois de Melquisedeque. A ele será confiado o pergaminho das leis, devendo ser o guardião da honra desse reino triunfante.
Escrito por César Bernardo de Souza às 19h04
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo IVA História de SalémSamael, ao conhecer os planos de Adonias quanto ao futuro de Salém, encheu-se de euforia. Contemplava agora risonho aquela cidade sem igual, imaginando seu futuro de glória. Considerando as palavras do rei, de que ele seria o segundo no reino, deixou ser dominado por um sentimento de exaltação. Ele, que até ali, em obediência às leis do pergaminho, vivera uma vida de humildade, começava a orgulhar-se de sua posição. Em seu devaneio sentia-se junto ao trono, tendo os súditos de Salém a seus pés, aclamando com louvores sua grandeza. Samael, totalmente dominado por esse sentimento, não dava por conta de que estava sendo conduzido para um caminho perigoso. O orgulho que o seduzira, estava gerando o egoísmo que logo se manifestaria em cobiça.Uma semana após a revelação de Adonias, os súditos promoveram uma festa em homenagem a Melquisedeque, o futuro rei de Salém. Vendo-o aclamado por tantos louvores, Samael teve o coração tomado por um estranho sentimento de inveja, fruto do orgulho e do egoísmo. Não podia suportar o pensamento de ser deixado em segundo plano. Não era ele tão formoso e sábio quanto o príncipe?! Era quase impossível disfarçar tal sentimento de infelicidade.Outrora, Samael encontrara indizível prazer nos momentos em que, ao lado do príncipe, recitava as leis contidas no pergaminho, que eram transformadas em lindas canções. Agora, tais momentos tornaram-se desagradáveis, pois aqueles princípios contrariavam os seus ideais. Decidiu, contudo, não revelar seus sentimentos de revolta. Suportaria o antiquado pergaminho até que, com sua autoridade, pudesse bani-lo do novo reino que seria estabelecido. Não seria ele o guardião daquelas leis? Essa "vitória" procuraria alcançar mediante sua influência e sabedoria.Julgando poder influenciar o filho de Adonias com seus sonhos de grandeza, Samael aproximou-se dele com euforia, e passou a falar-lhe das glórias do reino vindouro, onde os dois, cobertos de honras, desfrutariam dos louvores de uma Salém vitoriosa. Seriam eles os heróis do mais perfeito reino estabelecido entre os homens.As delirantes palavras do súdito honrado trouxeram preocupação e tristeza ao coração do jovem príncipe, pois não refletiam os ensinamentos de amor e humildade do pergaminho.Vendo o seu íntimo amigo em perigo, Melquisedeque, com uma ternura jamais revelada, conduziu-o para junto do trono, onde, tomando o pergaminho, passou a ler compassadamente os seguintes parágrafos:- O reino de Salém será firmado sobre a humildade ,pois esta virtude é a base de toda verdadeira grandeza.A humildade é fruto do amor, sendo contrária ao orgulho, que pode manter uma criatura presa ao pó, fazendo-a contentar-se com suas limitações ,iludindo-a como se as mesmas fossem de infinito valor.A humildade consiste no esquecimento de si, e este, numa vida de abnegado serviço pelos semelhantes.Samael, esforçando-se para encobrir sua indignação ante a leitura do pergaminho que para ele era ultrapassado, disse ao príncipe, em tom de conselho amigo:- Meu bom companheiro, reinaremos numa Salém vitoriosa, que fulgurará muito acima deste pergaminho ,cujos princípios foram cumpridos fielmente nesses anos de prova. A plena liberdade não será a glória de Salém? Pois saiba que, completa liberdade não coexistirá com estas leis, cujo objetivo encerra-se ao fim dos cinco anos. Caberá a nós dois coroarmos Salém com a honra de uma total liberdade, que gerará uma felicidade sem fim. Tal liberdade é impossível existir sob as limitações do pergaminho.O filho do rei ficou muito abalado ante as palavras de seu amigo, que evidenciavam loucura. Como libertá-lo desse caminho de morte?!Ninguém em Salém, além de Melquisedeque, conhecia a triste condição de Samael. Com paciência, o príncipe procurava conscientizá-lo do real valor do pergaminho, cujas leis não podiam jamais ser alteradas, pois isto seria o fim de toda a paz.Os conselhos do príncipe despertaram finalmente o seu coração. Meditando sobre suas palavras, conscientizou-se de estar seguindo por um caminho enganoso.Ao ver nos olhos daquele a quem tanto amava as lágrimas do arrependimento, o filho de Adonias alegrou-se com sua vitória sobre o orgulho e o egoísmo.Os dias que seguiram-se à libertação, foram cheios de realizações; O príncipe revelava-se ainda mais amigo, disposto a dar tudo de si para que seu companheiro pudesse prosseguir triunfante no caminho da humildade. Naqueles dias de júbilo, foi dada a ele a honra de conhecer o cetro que estava sendo moldado.Num momento de descuido, Samael que voltara a desfrutar paz de espírito, permitiu que seu coração novamente ficasse possuído por um sentimento de grandeza, que fez desencadear nova tormenta em sua alma. Esse sentimento misto de orgulho e cobiça lhe sobreveio no momento em que o príncipe mostrava-lhe o dourado alaúde, no qual estava sendo impresso o selo de todo o domínio.
Capitulo VA História de SalémDe sua mansão Samael contemplava Salém em seu resplendor matinal. Vendo-a, qual noiva adornada à espera de seu rei, cobiçou-a. Em seu delírio passou a formular planos de conquista. Já podia sentir-se exaltado sobre o seu trono, tendo nas mãos o cetro precioso. Todos aclamariam-no como o libertador da opressão daquelas leis. Salém seria um reino de completa liberdade e prazer. Dominado por esta cobiça, passou a maquinar planos de conquista.Samael decidiu agir sutilmente entre os súditos, levando-os a ver no pergaminho um impecílio à real liberdade. Em sua missão de engano, agiria com aparente bondade, revelando interesse pelo crescimento da felicidade de todos.Pondo em prática seus planos, passou a visitar os súditos em suas mansões, falando-lhes das glórias do reino vindouro, onde desfrutariam completa liberdade.Grande era a sua influência em Salém. Todos admiravam sua beleza e sabedoria, tendo-o como um perfeito apóstolo da justiça e do amor. Ninguém podia imaginar que em meio àquela atmosfera de júbilo e gratidão uma armadilha sutil estava sendo colocada, nas garras da qual muitos poderiam cair por descuido.Em sua sedutora missão, Samael não falava contra o pergaminho, aliás, louvava-o por haver exercido naqueles seis anos prestes a findarem ,uma missão de prova. Em sua lógica, contudo, procurava mostrar que, no reino vindouro, quando todos estivessem aprovados, estariam acima daquelas leis. Seus argumentos, aparentemente corretos, preparavam-lhe o caminho para afirmar abertamente que, no novo reino, a existência do pergaminho, seria um entrave à concretização da verdadeira liberdade.As sementes da rebelião lançadas por Samael não tardaram a germinar no coração de muitos em Salém. Isto acontecia a seis meses do Yom Kipur, quando o destino de todos seria selado. Um terço dos habitantes ,seduzido pelo terrível engano, exaltava-o agora, em completo desprezo às leis e ao príncipe, a quem julgavam ultrapassados.Adonias, que sofria ao ver o surgimento de toda essa rebeldia, convocou os súditos para uma reunião de emergência. Na face de todos podia-se ver as contrastantes disposições.Com voz compassiva, o rei passou a revelar-lhes, como jamais fizera antes, a grande importância das leis registradas no pergaminho, mostrando que elas eram a base de toda a prosperidade e paz. Se tais leis fossem banidas, toda felicidade e glória se extinguiriam, dando lugar ao caos.Depois de mostrar a necessidade das leis, Melquisedeque, movido por um forte desejo de salvar aqueles a quem tanto amava, ergueu diante de todos o pergaminho e, com voz cheia de bondade ofereceu-lhes o perdão e a oportunidade de recomeçarem no caminho da paz. Suas palavras a todos emocionou, ficando até mesmo Samael ficou a princípio motivado, contudo, o orgulho impediu-lhe novo arrependimento. Desta maneira, o súdito honrado, quando ainda podia olhar arrependido para o pergaminho, endureceu-se em sua rebeldia, decidindo prosseguir até o fim. Esta decisão, todavia, não a manifestaria prontamente, pois idealizara um traiçoeiro plano.Ao findar o encontro da oportunidade, Samael convocou seus seguidores para uma reunião secreta, que foi realizada sob o manto da noite, junto ao riacho de Cedrom que ficava fora dos muros de Salém.Após maldizer o pergaminho e a todos aqueles que o defendiam, ,começou a falar-lhes de seus planos de vingança e traição:- Como vocês sabem, os seis anos da prova estão se esgotando, restando, a partir de hoje, vinte e quatro semanas para o dia da coroação. Se vocês quiserem ter-me como rei em lugar de Melquisedeque, poderei roubar-lhe o cetro, apoderando-me do reino.Samael passou a explicar-lhes os lances da traição, dando-lhes as devidas orientações sobre a maneira de agirem a partir daquela data:- Precisamos manter uma aparência de fidelidade ao pergaminho e ao príncipe até que chegue o momento de agirmos. O golpe será dado na noite que antecede o dia da coroação. À meia-noite, furtivamente nos ausentaremos de Salém. Roubarei nessa noite o cetro e, juntos, fugiremos para o profundo vale onde estão as cidades de Sodoma e Gomorra. Ali nos armaremos, e marcharemos contra Salém, subjugando nossos inimigos. Acabaremos então com o pergaminho e com todos aqueles que se recusarem prestar obediência ao nosso governo.Capitulo VIA História de SalémSobrevieram dias de aparente tranqüilidade e paz Samael, fingindo fidelidade, estava sempre ao lado do príncipe, demonstrando admiração pelas suas novas composições que exaltavam as leis do pergaminho. Os seguidores de Samael, da mesma maneira, uniam as vozes em louvores que expressavam a grandeza dos princípios aos quais repugnavam.Melquisedeque, cheio de alegria por ver aproximar-se o dia de sua coroação, ensaiava com os súditos os cânticos da vitória, os quais compusera especialmente para aquela ocasião.Com felicidade falava a todos sobre seus sonhos em tornar Salém cada vez mais honrada por sua beleza e harmonia.Samael, em sua maldade velada, zombava do príncipe. Já previa a dor que lhe traria o golpe da traição.Naqueles dias de aparente paz, o súdito rebelde procurou conhecer o lugar em que o cetro ficaria oculto até o dia da coroação. O príncipe, sem nada desconfiar, revelou-lhe todo o segredo: a sala, o cofre com seu enigma, o rico estojo e, finalmente o tesouro. Contemplando-o o astuto Samael animou-se ao ver estampado em seu bojo o selo do domínio; Compreendeu que, aquele que o possuísse, teria nas mãos o reino de Salém. Somente alguns dias, pensou, e teria sob seu poder aquele instrumento precioso.O sol declinou trazendo para Salém o dia que significaria vitória ou derrota.Pouco antes do anoitecer, Samael deixara o palácio onde passara todo o dia ao lado do príncipe, ajudando-o nos preparativos para a cerimônia da coroação. Dirigindo-se para sua mansão, saudou as trevas com um sorriso maldoso. Como ansiara por aquela noite!Enquanto os fiéis, embalados pela emoção da feliz vitória , revisavam sob a luz de candeias os adornos de seus instrumentos, de vestes e mansões, certificando-se que seriam aprovados na manhã seguinte, Samael e seus seguidores faziam seus últimos preparativos para desferirem o golpe.À meia-noite, seguindo as instruções de Samael, todos os seus seguidores abandonaram silentemente suas mansões, rumando-se ao profundo vale de Cedrom, onde esperariam pelo seu novo rei.amael, por sua vez, dirigiu-se aos fundos do palácio, por onde esperava entrar sem ser notado, indo ao encontro do cetro. Evitando qualquer ruído, transpôs o portal, dirigindo-se silentemente à sala que guardava o precioso cetro.Naquele momento, o príncipe que, insone rolava em seu leito, pressentindo algum perigo, dirigiu-se ao quarto de seu pai e o despertou dizendo:- Meu pai, ouvi ruídos de passos no interior do palácio.Afagando a cabeça de seu filho, Adonias, sonolento respondeu-lhe:- Filho, não se preocupe. Deite-se comigo e durma tranqüilamente. Daqui a pouco raiará o alvorecer e você terá nas mãos o alaúde dourado.O príncipe, tranqüilizado pelas palavras confiantes de seu pai, entregou-se a um sono de lindos sonhos em que vivia ao lado de Samael e de todos os súditos de Salém, os momentos festivos da coroação. Enquanto isso, o rebelde com as mãos trêmulas, apossava-se do cetro. Naquele momento, teve a idéia de levar somente o alaúde, deixando o estojo em seu devido lugar.Com um sorriso cheio de maldade, imaginou o momento em que o rei entregaria ao seu filho aquele estojo vazio.Levando consigo o cetro, Samael dirigiu-se apressadamente ao lugar em que seus seguidores o aguardavam. Ao encontrá-los, deu vazão a todo o seu orgulho proclamando:- Agora eu sou o rei de Salém. Quem possui um cetro como o meu? Com ele domino a terra e o mar.A minha força está nas trevas , pois através dela o conquistei.Festejando a vitória, a turba ruidosa afastou-se para distante de Salém, seguindo rumo às cidades corrompidas da planície, onde pretendiam armarem-se para a conquista de seu reino.O sol surgiu no horizonte, trazendo a luz do dia da expiação (Yom Kipur)..Despertando de seu sono de lindos sonhos, o príncipe apronta-se para a cerimônia do juízo e da coroação. Vestes especiais de linho fino, adornadas com fios de ouro e pedras preciosas, foram-lhe preparadas. Depois de vestir-se, Melquisedeque encaminhou-se para o encontro de seus súditos, na extremidade sul de Salém. Dali os conduziria numa marcha festiva rumo ao palácio situado ao norte, sobre o monte Sião.Adonias, fazendo soar um longo chifre, convocou a todos para a reunião do julgamento. Deixando suas mansões, todos os remanescentes dirigiram-se para a praça do portão sul, levando consigo seus instrumentos musicais.Ao encontrar-se com aqueles fiéis, Melquisedeque ficou surpreso pela ausência de muitos. Esse mistério doía-lhe na alma, pois lhe ocultava-lhe a face mais querida de seu amigo Samael.Deixando seus seguidores reunidos, o príncipe saiu à procura dos ausentes. Em sua busca infrutífera, dirigiu-se finalmente à mansão do monte, onde chamou por Samael; Sua voz, contudo, não trouxe nenhuma resposta além de um eco vazio, que traduzia ingratidão.Lendo no triste vazio a traição, sentiu vontade de chorar. Num só momento veio-lhe à mente todo o passado daquele a quem buscara com tanta dedicação conservá-lo em sua glória, através de conselhos sábios. Recordou daqueles dias que seguiram à sua recuperação; Como se alegrara com a certeza de que seu amigo não mais voltaria a cair! Levando-o a pressentir a tragédia, veio-lhe a lembrança as indagações de Samael sobre o alaúde, o qual mostrou-lhe num gesto de amizade. A memória deste fato, somada aos passos ouvidos no interior do palácio naquela noite, deu-lhe a certeza que Salém corria perigo. Não suportando essa possibilidade de traição, prostrou-se em pranto, ferido pela terrível ingratidão daquele a quem dedicara tanto amor.Curvado pela dor, permaneceu por algum tempo procurando encontrar algum consolo. Enxugou finalmente as lágrimas, decidido a fazer qualquer sacrifício a fim de devolver a Salém sua glória e poder, redimindo-lhe o cetro das mãos da rebeldia.Consolado pela certeza da vitória, Melquisedeque retornou para junto dos súditos fiéis. Ocultando-lhes seu sofrimento, bem como o motivo da ausência de tantos, o príncipe guiou-os em marcha triunfal rumo ao palácio.
Escrito por César Bernardo de Souza às 18h58
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo XIIA História de SalémOs súditos triunfantes que, reverentes, haviam sido conduzidos a todo aquele passado de felicidade, traição, dor e triunfo, uniram finalmente as vozes numa jubilosa proclamação:Verdadeiros e justos são os teus princípios, ó rei de Salém. Digno és de reinar em glória e majestade entre os louvores de teus fiéis, porque em teu sacrifício nos livraste das ameaças das trevas, fazendo renascer em nosso coração a alegria do alvorecer.Esse cântico de exaltação foi seguido pela cerimônia de confirmação de todos os fiéis em sua vitória. O filho de Adonias, com o seu cetro redimido, passou a selar com um toque especial do cetro, a vitória de cada um. Formou-se para tanto uma longa fila de fiéis exultantes.Os súditos confirmados, à medida em que iam recebendo o toque de aprovação do rei, posicionavam-se ao lado direito do trono, onde permaneciam aguardando pela confirmação dos outros.Os olhares que, iluminados de alegria, haviam acompanhado o selamento dos últimos justos, pousaram sobre a figura estranha de Samael que, dominado por uma força irresistível, encaminhava-se cabisbaixo em direção do trono. Seu aspecto era horrível: seu semblante havia sido deformado pelo mal; suas vestes estavam sujas e mal cheirosas; tudo nele repugnava, ao ponto de ninguém reconhecê-lo.Em meio ao espanto dos súditos, Melquisedeque ergueu-se de seu trono como que ferido por uma grande dor; De seus lábios os súditos ouvem uma dolorosa exclamação:- Samael, Samael!!!A figura deplorável daquele que fora tão belo, encheu a todos de tristeza, e começaram a prantear. Eles lamentavam por saber que o destino de Samael e de todos aqueles que o seguiram, poderia ter sido muito diferente, se eles houvessem atendido aos rogos de amor de Adonias e de seu filho. Não era o plano do rei e o sonho de Melquisedeque tê-lo como o guardião do pergaminho, sendo o segundo em honra naquele reino?Samael que, reconhecendo sua desventura, aproximara-se cabisbaixo do trono, ao presenciar toda aquela lamentação, é novamente iludido pelo orgulho, julgando tratar-se de uma demonstração de fraqueza de seus inimigos. A lembrança de seu exército que fortalecido o aguarda na planície, ilude-o com a certeza de que será vitorioso sobre Salém.Com esse pensamento, ergue a fronte marcada pelo ódio e, fitando o rei, levanta o punho cerrado e o desafia, desdenhando de sua autoridade, com a ameaça de tomar-lhe o trono.Ainda que condoídos por sua perdição, os súditos de Salém não suportaram a ousada afronta daquele enlouquecido jovem que, depois de causar tanto sofrimento, ainda era capaz de erguer-se com tamanho desafio.O vitorioso rei que com tanto prazer selara com o seu cetro a conquista dos fiéis, ergueu-o dolorosamente para o selamento da triste sorte dos rebeldes. Imobilizado por uma força estranha, Samael, sem desviar os olhos do cetro, ouviu dos lábios do rei a proclamação de seu julgamento e de todos os seguidores:Prisioneiros de uma força invisível, ficariam retidos em suas cavernas por seis anos, sendo depois visitados pelo fogo do juízo que os destruiria juntamente com as cidades que a eles se aliaram.
A História de SalémCapitulo XIIIAo ir para a cama depois daquele dia de tantas emoções, o jovem rei, imerso nas lembranças daquele passado de felicidade e dor, rolava em sua cama insone. Quando finalmente adormeceu, teve um sonho muito significativo.No sonho, apareceu-lhe um anjo luminoso, que saudou-o com um sorriso, dizendo-lhe que todo o Universo acompanhava com atenção todo aquele drama que estavam vivendo, que o mesmo tinha um sentido prefigurativo, retratando acontecimentos passados e futuros, que envolvia todo o vasto universo.As palavras do anjo despertaram em Melquisedeque um grande desejo de conhecer a história desse drama cósmico.Conhecendo o seu anseio, o anjo arrebatou-o no sonho revelando-lhe um distante futuro. Diante de seus olhos manifestaram-se as glórias de uma nova e esplêndida Salém, cujas muralhas e mansões eram feitas de pedras preciosas; Os portais da cidade eram de pérolas. Suas amplas avenidas eram de ouro puro. A cidade era quadrangular e se estendia por centenas de quilômetros. Estava dividida em dois setores distintos: Norte e Sul. Ao Sul elevavam-se incontáveis mansões, habitações eternas de anjos e de seres humanos redimidos; Ao Norte havia um lindo paraíso ao qual o anjo revelou ser o jardim do Éden. Ali, em ambas as margens do rio da vida, havia campos repletos de todo tipo de vegetação, com flores e frutos em abundância. Viviam ali em perfeita harmonia, todas as espécies de insetos, aves e animais.No meio do paraíso podia-se ver uma montanha fulgurante, a qual o anjo afirmou ser o monte Sião, o lugar do trono de Deus. Era daquele monte que emanava o rio da vida, fluindo por toda a cidade.Quando alcançaram o topo da montanha sagrada, o rei de Salém ficou deslumbrado com o cenário visto ao seu redor. Encontrava-se na parte mais elevada de Sião a mais linda de todas as edificações revelado pelo anjo como o palácio de Deus. Aquela magnífica construção era sustentada por sete colunas, todas de ouro transparente, engastadas de lindas pérolas. Ao redor do palácio, floresciam a mais exuberante vegetação: havia ali o pinheiro, o cipreste, a oliveira, a murta, a romãzeira e a figueira, curvada ao peso de seus figos maduros.Enquanto admirava-se ante a beleza daquele lugar, o anjo disse-lhe que a nenhum ser humano fora dado o privilégio de ver o interior daquele palácio de Deus. A ele seria dada esta honra, pois fora escolhido para ser o portador das mais amplas revelações sobre o reino da luz.Ao transporem com reverência um dos portais de pérolas, prostraram-se em adoração, enquanto ouviam o cântico de uma multidão de serafins, que circundavam o trono, em constante louvor Àquele que Era, que É e que Sempre Será.Ao olhar para Aquele que estava assentado sobre o trono, Melquisedeque ficou surpreso ao descobrir a figura de um homem. Ele estava coberto por um manto de linho fino, de uma alvura sem igual, e tinha sobre a cabeça uma coroa formada por sete coroas sobrepostas, repletas de pedras preciosas.Ao olhar para as mãos que sustentavam o cetro, o filho de Adonias ficou surpreso ao descobrir nelas cicatrizes de ferimentos, semelhantes àquelas em suas mãos. O anjo afirmou-lhe ser o Messias, a manifestação visível de Yahwéh, o Deus Invisível.Atraído para o cetro resplandecente, com o qual o Messias governava sobre todo o Universo, o rei de Salém viu nele o selo do domínio, e nele escrito o nome: Israel.Tomado por profunda emoção, Melquisedeque prostrou-se ante o Rei daquela eterna Salém, e, revivendo ali a história de sua pequena cidade, teve desejo de conhecer o grande drama da história universal. Conhecendo o desejo de seu coração, o anjo disse-lhe:- Agora lhe farei conhecer a história desta gloriosa Salém. Tudo o que lhe for mostrado na visão, você deverá registrar fielmente em seis pergaminhos que serão costurados um ao outro, formando um único rolo. Você terá seis anos para escrevê-los. Ao fim dos sete anos, você receberá das mãos de um ancião um vaso contendo um rolo especial, com muitas revelações importantes, destacando-se a história de Salém. Você tomará esse rolo, e o costurará como o primeiro dos sete, formando um único rolo. Depois de selá-lo, você e o ancião o guardarão no vaso, levando-o para uma caverna que eu lhes mostrarei ao norte do mar salgado, onde permanecerá esquecido até que chegue os últimos dias, quando será resgatado e revelado ao mundo por meio de um pequeno beduíno.Depois de falar ao rei de Salém estas palavras, o anjo conduziu-o em visão a um infinito passado, quando o Universo ainda não existia.Uma história muito parecida com a de Salém passou a desdobrar-se diante de seus olhos; porém, numa dimensão infinitamente maior, começando pela criação do reino da luz.Com admiração contemplou a formação de bilhões de mundos e estrelas, repletos de vida e felicidade que passaram a girar em torno da Salém Celeste, o paraíso de Deus.Sua atenção voltou-se depois para o mais belo de todos os querubins que, honrado pelo Criador, passou a residir com Ele em Seu palácio. Uma eternidade de felicidade e paz parecia embalar aquele reino, quando a mesma experiência de egoísmo e rebeldia vivida por Samael, começou a repetir-se na vida daquele anjo amado.Cenas de uma grande rebelião começaram a ser mostradas a Melquisedeque, envolvendo todos os habitantes do Universo. O querubim honrado, semelhante a Samael, seduzira um terço das hostes que, passaram a reverenciá-lo como rei.Em meio às cenas daquele grande conflito, o rei de Salém testemunhou a criação do planeta Terra, sobre a qual surgiu o homem como cetro racional daquele reino disputado.Com agonia viu o momento em que o chefe da rebelião aproximou-se sutilmente do paraíso, apossando-se do ser humano, depois de seduzi-lo com tentações. Ouviu então o seu brado, numa proclamação de vitória. A partir daquele momento, o inimigo de Deus passou a arruinar o ser humano, apagando nele todos os traços da glória divina, como Samael fizera com o cetro.A sua própria experiência, ao declarar naquela manhã aos súditos de Salém sua decisão de ir em busca do cetro perdido, começou a repetir-se diante de Seus olhos.Reunindo as hostes que haviam permanecido fiéis ao Seu governo, o Criador passou a revelar um plano de resgate: Ele haveria de ir em busca do homem, e o remiria, ainda que isto lhe custasse infinito sacrifício. Diante desta revelação, o filho de Adonias prostrou-se comovido, ao descobrir que em sua vida tivera a honra de retratara o próprio Messias.Todo o drama vivido pelo filho de Adonias em sua angustiante busca, até o momento de seu suplício pela redenção do cetro, foi ganhando amplitude naquela visão que abarcava toda uma eternidade. Diante de seus olhos desfilavam cenas de uma grande batalha que, sem trégua se estenderia até o dia do juízo final, quando o Messias vitorioso empunhará o cetro redimido, selando com ele a condenação de todas as hostes rebeldes.
Escrito por César Bernardo de Souza às 18h51
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LIVRO DE MELQUIZEDEQUE
Capitulo XIVA História de SalémAtravés das revelações recebidas do anjo, Melquisedeque tomou conhecimento do grande livramento alcançado dez dias antes de sua coroação, em Rosh Hashaná, quando diante de trezentos pastores com seus vasos incendiados, exércitos de cinco reis tombaram, saindo livres os cativos.Conhecendo nossa intenção de subir à Salém por ocasião de Sukot, o rei fez preparativos para uma grande festa, na qual comemoraríamos juntos a vitória sobre toda a desarmonia gerada pelo orgulho e pelo egoísmo.Foi por isso que ao chegarmos a Salém, ficamos surpresos com toda aquela honrada recepção.Ocupar-me com o relato de todos esses acontecimentos, fez-me passar por todo este sétimo ano, quase sem notar os seus dias, que passaram velozes. Estamos hoje às portas de um novo Rosh Hashanah, quando os 300 pastores tocarão os chifres, convocando todos aqueles que possuem as pérolas, para a reunião solene de Yom Kipur. Cinco dias depois seremos recebidos em Salém para a festa de Sukot.A certeza de que acontecimentos importantes ainda deverão ser relatados até o momento em que o vaso será deixado na caverna, fez-me reservar um espaço no rolo, no qual registrarei, dia após dia, os fatos, até a consumação desta história.Hoje é Rosh Hashaná, o dia mais feliz de minha vida, pois meus braços puderam envolver finalmente o filho da promessa. A primeira coisa que Sara fez ao recebê-lo, foi colocar-lhe em sua mãozinha direita a segunda pérola que o Messias lhe dera no dia de sua conversão, na qual estava escrito nome Isaque que significa "riso", o nome de Melquisedeque e o nome de Salém.Dois dias antes do Yom Kipur, Isaque foi circuncidado, conforme a ordem de Yahwéh.Desde que os pastores começaram a tocar seus chifres em Rosh Hashanah, todos aqueles que possuíam pérolas do vaso, deixaram suas tendas, dirigindo-se em pequenos grupos, para junto do Carvalho de Mambré.Ao chegar o Yom Kipur, o dia da reunião solene, meus pastores informaram-me que todos que aqueles que haviam recebido pérolas, haviam comparecido ao encontro, não faltando nenhuma pessoa. Era maravilhoso ver a alegria estampada no semblante de toda aquela multidão, que ansiava pela subida à Salém. Todos tinham uma história para contar, de como foram mal compreendidos e humilhados por aqueles que não receberam a salvação representada pelas pérolas. O único consolo que tinham naquele tempo, vinha da certeza de que subiriam a Salém para a festa de Sukot.No primeiro dia da festa de Sukot, a multidão foi subdividida pequenos grupos de doze pessoas, para subirmos em ordem à Salém.Tendo o vaso com o rolo em minhas costas, posicionei-me à frente da multidão, sendo seguido por Sara e Isaque, que vinham montados num camelo; Logo atrás vinha Ló e suas filhas; um pouco atrás, os trezentos pastores seguidos por todos os fiéis.Iniciávamos nossa escalada quando, acompanhado por todos os seus súditos, surgiu Melquisedeque vindo ao nosso encontro, fazendo vibrar pelos ares o som festivo de muitos instrumentos musicais, comemorando a grande vitória.Depois de saudar-nos, o filho de Adonias conduziu-nos numa marcha festiva até adentrarmos os portais de Salém, que encontra-se agora mais bonita que outrora.Diante do trono, todos os remidos foram coroados por Melquisedeque,começando em seguida o grande banquete.Grande foi a alegria do rei de Salém quando entreguei-lhe o vaso com o meu manuscrito. Levando-me para uma sala especial do palácio, ele mostrou-me os seis manuscritos nos quais registrara a história do Universo, segundo fora-lhe mostrada em sonho.Ao receber o meu manuscrito, ele o costurou aos demais, vindo a ser o primeiro do grande rolo.No último dia da festa de Sukot, o rolo foi aberto diante de toda a multidão de fiéis. Depois de ler uma boa parte do meu manuscrito, o filho de Adonias, tomando em seus braços o pequeno Isaque, afirmou:- Na descendência desta criança haverá de cumprir-se todas as coisas escritas neste manuscrito.Tendo dito isto, o rei o abençoou, devolvendo-o à Sara.Depois de abençoar Isaque, Melquisedeque passou a falar sobre o futuro do rolo que permaneceria por quase quatro milênios ocultos em uma caverna, sendo finalmente encontrado por um beduíno da tribo de Taamireh. Ao sair de sua caverna, o rolo enfrentaria a oposição de muitos eruditos que o declarariam apócrifo. Viria, contudo, o momento, em que suas revelações seriam confirmadas, e muitos seriam transformados pelas suas mensagens, preparando-se para o dia do juízo final.
Escrito por César Bernardo de Souza às 18h47
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13/11/2008
Religião
Consagração à Nossa Senhora de Nazaré Senhora de Nazaré, da antiga raiz de Jessé, da casa real de Davi, descendente de São Joaquim e de Sant'Ana, sempre que a angústia, o medo e a solidão me abatem, me entrego em teus braços ó Mãe; Como uma criança carente em busca de alívio, carinho e proteção, mergulho em teu Coração Imaculado e consagro a ti, querida Mãe, o meu passado e todas as minhas lembranças, o momento presente e todas as suas aflições, o meu futuro e a vida eterna que Deus me reserva no céu. O Sacramento do Batismo, que um dia recebi, me tornou filho(a) de Deus e filho teu ó Mãe; me fez também herdeiro(a) de Seu Reino. Por isso venho agora renovar, diante de ti, Virgem de Nazaré, as promessas do meu Batismo; e para que eu possa ser fiel a elas até o fim de minha vida, peço a tua intercessão por mim junto ao teu filho Jesus. Doce Senhora de Nazaré, a ti consagro agora, as minhas aspirações, meus projetos, meus sonhos, minha missão, minhas realizações: tudo o que tenho e tudo o que sou; consagro também todos os dias restantes de minha vida terrena, pedindo por eles a tua intercessão e a tua bênção materna, para que sejam dias serenos, cheios de paz e de muitas graças. Quero também te consagrar já, Senhora de Nazaré, o momento de minha morte quando, por tuas mãos e amparado(a) pelos braços de seu esposo São José, poderei finalmente, ver o teu rosto e abraçar teu filho Jesus e contemplar a Glória de Deus Pai, no amor infinito do Espírito Santo. Amém.
ORAR
(Frei Beto)
Orar é entrar em sintonia com Deus. Há muitas maneiras de fazê-lo e não se pode dizer que esta é melhor que aquela. Há orações individuais ou coletivas, baseadas em fórmulas ou espontâneas, cantadas ou recitadas. Os salmos, por exemplo, são orações poéticas, das quais cerca de 100 expressam lamentação ou denúncia, e 50, louvor.
Nós, ocidentais, temos dificuldade de orar devido ao nosso racionalismo. Em geral, ficamos na soleira da porta, entregues à oração que se apóia nos sentidos (música, dança, mirar vitrais ou paisagens etc.) ou na razão (fórmulas, leituras, reflexões etc.).
Orar é entrar em relação de amor. Como ocorre entre um casal, há níveis de aprofundamento entre o fiel e Deus. Uns oram como o namorado que fala demais no ouvido da namorada. Como se Deus fosse surdo e burro. Parecem aquela tia que liga e fala tanto, tanto, que minha mãe deixa o fone, mexe a comida nas panelas e retorna sem que sua ausência seja percebida.
Jesus sugeriu não multiplicar as palavras. Deus conhece os nossos anseios e necessidades. O próprio Jesus, narra o Evangelho, gostava de retirar-se para lugares ermos para entrar em oração. Jesus foi para a montanha a fim de rezar. E passou toda a noite em oração a Deus (Lucas 6,12).
Na oração, é preciso entregar-se a Deus. Deixar que ele ore em nós. Se temos resistência à oração é porque, muitas vezes, tememos a exigência de conversão que ela encerra. Parar diante de Deus é parar diante de si mesmo. Como num espelho, ao orar vemos o nosso verdadeiro perfil - dobras do egoísmo realçadas, mágoas acumuladas, inveja entranhada, apegos enrijecidos. Daí a tendência a não orar ou fazer orações que não revirem ao avesso a nossa subjetividade.
Os místicos, mestres da oração, sugerem aprendermos a meditar. Esvaziar a mente de todas as fantasias e idéias e deixar fluir o sopro do espírito no silêncio do coração. É um exercício cujo método a literatura mística ensina. Mas é preciso, como Jesus, reservar tempo para isso. Assim como a relação de um casal arrefece se não há momentos de intimidade, do mesmo modo a fé se debilita se não nos recolhemos em oração.
Oramos para aprender a amar como Jesus amava. Só a força do espírito dilata o coração. Portanto, uma vida de oração se avalia não pelos momentos entregues a ela, mas pelos frutos na vida cotidiana: os valores elencados como bem-aventuranças no Sermão da montanha (Mateus 5, 1-12). Ou seja, pureza de coração, desprendimento, fome de justiça, compaixão, destemor nas perseguições etc.
Orar é deixar-se amar por Deus. É deixar o silêncio de Deus ressoar em nosso espírito. É permitir que Ele faça morada em nós. Sem cair no farisaísmo de achar que a minha oração é melhor do que a sua, como aquele fariseu frente ao publicano (Lucas 18,9-14). Quem ora procura agir como Jesus agiria. Sem temer os conflitos decorrentes de atitudes que contradizem os antivalores da sociedade consumista e individualista em que vivemos.
Orar é subverter-se a si próprio. Centrado em Deus, o orante descentra-se nos outros e imprime à vida a felicidade de amar porque se sabe amado. Parafraseando Jó, antes de orar se conhece a Deus por ouvir falar. Depois, por experimentar. O que levou Jung a exclamar: Eu não creio. Eu sei
Oração dos Anjos
Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
Senhor,concedei a paz aos que têm fé, para que se cumpram as palavras do Profeta:"ouvi as orações do Vosso servo e do Vosso povo de Israel".
Santos Anjos, que estais eternamente cantando as glórias do Altíssimo Senhor Deus! Arcanjo São Miguel, que triunfastes e vencestes as potências infernais!Anjo São Rafael, previdente guia do jovem Tobias no deserto! Anjo São Gabriel, que anunciastes à Virgem Maria a concepção do Filho, Verbo de D eus-Pai!
Luminares acesos, por todos os séculos dos séculos, em volta do trono do Altíssimo, que para sempre seja louvado. Anael, Asrael, Gamaliel, Samuel, Zacariel, Uriel, sete espíritos puros, sete luzeiros, hierarquias celestes, sede minha luz, minha proteção, minha força, minha coragem, para que enfrente todos os males, todas as adversidades, todos os inimigos.
Afugentai de mim, de minha casa, de minha família, os espíritos do mal, os invejosos, os malfeitores, os hipócritas e os interesseiros.
Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potesdates, Arcanjos e Anjos, afastai de mim, de minha família, de minha casa os espíritos enviados por Satanás. os espíritos tentadores, que nos desviam do caminho do bem e nos arrastam à perdição eterna.
Assim seja
UMA LINDA MENSAGEM
Hoje, ao atender o telefone que insistentemente exigia atenção, o meu mundo desabou.
Entre soluços e lamentos, a voz do outro lado da linha me informava que o meu melhor amigo, meu companheiro de jornada, meu ombro camarada tinha sofrido um grave acidente, vindo a falecer quase que instantaneamente. Lembro de ter desligado o telefone e caminhado a passos lentos para meu quarto, meu refugio particular.
As imagens de minha juventude vieram quase que instantaneamente à minha mente: a faculdade, as bebedeiras, as conversas em volta da lareira ate altas horas da noite, os amores não correspondidos, as confidencias ao pé do ouvido, as colas, a cumplicidade, os sorrisos. Ah! Ah! Ah! Os sorrisos, como eram fáceis de surgir naquela época.
Lembrei da formatura, de um novo horizonte surgindo, das lagrimas e despedidas e, principalmente, das promessas de novos encontros. Lembro perfeitamente de cada feição do melhor amigo que já tive em toda a vida. Em seus olhos a promessa de que eu nunca seria esquecido – e realmente, nunca fui.
Perdi a conta das vezes em que ele carinhosamente me ligava quando eu estava no fundo do poço e, ou das mensagens que nunca respondi, as quais constantemente me enviava, enchendo minha caixa postal eletrônica de esperança e promessas de um futuro melhor.
Lembro que foi o seu rosto preocupado que vi quando acordei de minha cirurgia para a retirada do apêndice. Lembro que foi em seu ombro que chorei a perda de meu amado pai. Foi em seu ouvido que derramei as lamentações do meu noivado desfeito.
Apesar do esforço para vasculhar minha mente, não consegui me lembrar de uma só vez em que tenha pego o telefone para ligar e dizer a ele o quanto era importante para mim contar com a sua amizade, afinal, eu era muito ocupado!!! Eu não tinha tempo!!!
Não lembro de uma só vez em que me preocupei de procurar um texto edificante e enviar para ele, ou qualquer outro amigo, com o intuito de tornar o seu dia melhor: Eu não tinha tempo!!!
Não lembro ter feito qualquer tipo de surpresa, como aparecer de repente com uma garrafa de vinho e um coração aberto disposto a ouvir: Eu não tinha tempo!!! Não lembro de qualquer dia em que eu estivesse disposto a ouvir os seus problemas: Eu não tinha tempo!!! Acho que eu nunca sequer imaginei que ele tinha problemas. Não me dignei a reparar que constantemente meu amigo passava da conta na bebida. Achava divertido o seu jeito bêbado de ser. Afinal, bêbado ou não ele era uma companhia para mim. Só agora vejo com clareza\o meu egoísmo.
Talvez, e este talvez vai me acompanhar eternamente, talvez se eu tivesse saído do meu pedestal egocêntrico e prestado um pouco de atenção, e despendido um pouqunho de meu sagrado tempo, meu grande amigo não teria bebido ate não agüentar mais, e não teria jogado sua vida fora ao perder o controle de um carro que com certeza, não tinha a mínima condição de dirigir.
Talvez ele, que sempre inundou o meu mundo com sua iluminada presença, estivesse se sentindo sozinho. Ate mesmo as mensagens engraçadas que ele constantemente deixava em minha secretária eletrônica, poderiam ser seu jeito de pedir ajuda.
Aquelas mesmas mensagens que simplesmente apaguei da secretária eletrônica jamais se apagarão da minha consciência. Estas indagações que inundam agora o meu ser nunca mais terão resposta. A minha falta de tempo me impediu de respondê-las. Agora, lentamente, escolho uma roupa preta – digna do meu estado de espírito – e pego o telefone. Aviso o meu chefe que não irei trabalhar hoje, e quem sabe, nem amanhã nem depois, pois irei tirar o dia para Homenagear com meu pranto a uma das pessoas que mais amei nesta vida.
Ao desligar o telefone, com surpresa eu vejo, entre lagrimas e remorços, que para isto, para acompanhar durante um dia inteiro o seu corpo sem vida EU tive tempo.
Descobri que se você não toma as rédeas da tua vida, o Tempo te engole e te escravisa.
Escrito por César Bernardo de Souza às 20h58
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15/10/2008
BELA POESIA
1ª PARTE DE CATULO
Crônica do “Mercure de France”
CATULLO Cearense est unique en son genre et il nous a donné le frisson nouveau. La matière de sés poèmes est simple, vaste et riche.
Elle est la contemplation du monde et contemporaine de tous les âges. Ele a l’image forte, profonde, cosmique. Sou âme est au centre de la forêt, comme un écho sonore, tele l’âme de Victor Hugo au centre de tout, selon le vers célèbre. Il a une façon aisée et sure d’entrer en matière, une famíliarité jamais vulgaire, qui me fait penser à l’incomparable Lafontaine. Catulo ne dit point ses vers ni les declame. Il les vit. La voix, le geste, la masque et les mouvements, tout a cette verité, cette force spontanée et juste d’un art qui rejoint la vie. Il est simples, naturel et exact, comme un chant d’oiseau.
(Mercure de France, Paris,1 de Maio de 1919).
EM CAMINHO DO SERTÃO
(Asterio de Campos)
BARDO ou Poeta, cujas rimassão da poesia o tesouro,que cantas em rimas de ouroa tua consagração,fecha os cristais dos ouvidos,não ouças, por caridade,a virgem rusticidadedesta viola do sertão. Esta linguagem bravia, como aquela natureza, não contém essa beleza paciente do teu buril! São os versos deste livro como as águas das cascatas e o vento, açoitando as matas das florestas do Brasil.Tange as cordas da tua liranos seus dulcíssimos trenos!Entoa canções à Vênusno teu rítmo lapidar,mas deixa-me a liberdadede descantar n’uma prima,sem arte, sem voz, sem rima,uma cabocla a sambar. Quisera ser ignorante, como um cantor sertanejo!... Era esse o meu desejo!... Não ter nenhuma instrução, mas ter o dom do improviso, para dizer, de momento, as dores do pensamento e as mágoas do coração.Excelso, divino poeta,que levas um mês inteiro,beliscando no tinteiro,para um soneto compor,deixa um momento a Avenida,vai lá nos matos sombriosouvir esses desafiosde um cabra improvisador. Não vais sentir a rijeza de eretos alexandrinos! Vais ouvir os dons divinos, que Deus concede a um mortal! Não te importes com a sintaxe, que isso é coisa sem valia! Sorve somente a poesia, que é um licor celestial.Basta de Pan, de Netuno!Deixa a Grécia! Deixa a Itália!...Deixa a fonte de Castália,que, de há muito, já secou!Vai beber as águas frescasde uma cacimba, que é tua,onde, à noite, a nívea luaseus versos brancos deixou. Musset, D’Annunzio e Leconte, Byron, Hugo, Campoamor, já te imploram, por favor, que os deixes lá descansar. Demos um pouco de tréguas a tanta coisa estrangeira, que esta terra brasileira tem muito e muito que dar.Eu bem sei que esses poemasnunca serão recitadosnos salões opulentados,por um moço de altivez.Seria um crime ultrajantedizer estas frioleirasnessas rodas brasileiras,onde se diz em francês. Mas, que importa? Nada aspiro neste país, nesta terra, que tantos bardos encerra, e tanto filho abandona! Eles têm a lira ebúrnea! São Orfeus!... São divindades! E eu só sei cantar saudades nesta inefável sanfona.Se não traduzo, a contento,as queixas lá da viola,uma coisa me consola: —é cantar tudo o que ouvi!E embora vilipendiadocom inofensível fereza,pertencer à naturezadesta terra em que nasci. Nada achareis neste livro, Narcisos afrancezados! Vós estais acostumados com essas liras de além mar! Este instrumento que eu trago aqui, por cima do peito, é tão bárbaro e imperfeito, que só eu posso escutar.Nesta floresta de versos,nesta espessa mataria,não se escuta a melodiade um CHANTECLER de Rostand!No sertão destes poemas,não canta um galo estrangeiro,mas um galo brasileiro,saudando a luz da manhã.Quereis saber de que corsão estes meus pobres trenos?São da cor das folhas verdes,pisadas pelos serenos! Nos dedos rudes que escrevem estas cantigas bucólicas, não reluzem os fulgores de anéis de pedras simbólicas. Qual seria o anel do poeta, se o poeta fosse um doutor? Uma Saudade brilhando na cravação de uma Dor! E vós, gentis senhoritas,que falais o italiano,como o francês soberano,as línguas em que cantais,cuidado com a língua bárbaradesses sertões lá do Norte,trescalando o cheiro fortedos gigantes vegetais! Fechai meu livro, senhoras! Com o vestido decotado, com o cabelo penteado, e esses finos sapatinhos, voltareis arrependidas, trazendo os vossos sapatos cheirando a folha dos matos, e as vestes cheias de espinhos.Nada, pois, de sacrifícios,sem colher um resultado!Cuidado! Muito cuidadocom os acúleos... do espinheiro!Em vez de um terno “je t’aime;”de um moço guapo e bonito,ouvireis somente o gritoda paixão de um marroeiro. Nada, pois, de sacrifícios! Nas margens de uma Avenida, não se vê “Terra caída”, coisa que não tem valor! Não crescem árvores rudes que depois de decepadas, nós já vimos revoltadas contra um fero “lenhador”!Fechai meu livro, Senhoras!Certo, eu sei, não interessaa história de uma “Promessa”,uma flor do coração!Um meigo e simples transumptodas saudades sertanejasdas noites de São João. Que há n’um “passador de gado”, (direis vós) um homem rude, com sua bronca virtude, que vem ver a Capital, e volta vociferando, comparando esta cidade com a rudeza e a soledade da sua terra natal?!Não! Lêde-a com dor, com magua,essa história, essa romançade um homem feito criança,esse “Quinca Micuá”,alma pura, nobre e santa,como uma flor redolente,que, talvez, tão inocente,não exista igual por cá. Não reciteis, senhoritas, o poema religioso de um “cangaceiro” extremoso, o matador das estradas, porque vereis, sem surpresa, esses moços que escutarem, as gargantas rebentarem em tremendas gargalhadas!!Vós, que lágrimas verteis,lendo a insulsa serenatade um poeta nefilibata,um poetastro verlainal,admirai, na “vaquejada”,como um rude boiadeirorespeita o seu companheiro,mesmo sendo um animal! Com prazer ouço uma orquestra no multicor dos sonidos e, logo após, os carpidos da viola, cantando a dor, assim como, lendo o Dante, logo depois ouviria um canto dessa poesia, que tem cheiro de verdor!Tenho lido, desde Homero,tudo o que se tem escritoem versos de ouro e granito,de impecável perfeição, mas,(talvez seja ignorância),ás vezes fico encantadocom um verso imetrificadode um Manoel do Riachão!!!(*) Formosos, doces Narcisos, que andais vestidos de Imprensa, cheios de orgulho, a doença dos “Grandes”, dos “Imortais”, que de cinco em cinco dias tendes o rosto gravado sob um soneto plagiado, nas colunas dos jornais!...Vates, Poetas principescos,vestidos de seda e de ouro,a minha veste é de couro,são rudes os versos meus!Mas só reconheço um Príncipeda Universal Monarquia,Rei e Papa da Poesia,cujo nome é — Deus! Só Deus!
Escrito por César Bernardo de Souza às 10h34
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BELA POESIA
2ª PARTE DE CATULOPatrão, este seu criado,o seu Quinca Micuá,uvíndo o que ela dizia,trimía, patrão, trimía,cumo o junco da lagôaim dia de ventania! P’rá pude me arritirá, ante da festa acabá, foi perciso que eu jurasse p’ra sá dona Cunceição que eu ia no outro dia, sem fárta, tocá sanfona no samba do Zé Chícão. _________Quando eu cheguei, no outro dia,na guarapêra do cabra,já Cunceição incontrei.Óie, patrão: a verdadenunca mereceu castigo! Eu tombêm me apaxonei!!!No samba do Zé Chicão,foi o diabo, patrão! Um cantadô de viola fez esta impruvisação: —“Eu já vi um sapo-boi,“n’um aguaçá d’um bréjão,“dizendo que a sua gaita“parecia um azulão”.Preguntando um outro cabra:— E o que tu disse, Janjão?!O prêmêro arrespondeu: —“Eu varejei uma pedra“no fucinho desse cão”. Puxei pula intiligença, e arrespundi pró zangão: “Estes verso bem amostra “que saiu dessa cachóla! “O sapo-boi, que tu viu, “táva tocando viola”.O cabôco tiriúmacuspiu do couro o quicé! Eu, no meio das cabôca, isgruvitava cum os pé!Se as muié não cunsintíaque eu me ispaiásse à vontade.(não minto, não, falo séro!)garrei na minha sanfona,e... perna p’rá quê te quero! Apois, esse violêro do samba do Zé Chicão, o cabra da gaforinha, se as muié não me garrasse, não cumía mais farinha!Apois, dona Cunceiçãome pidía!... Supricavapula santa de seu nôme!!Caxinxe, é sêmpe caxinxe,e um hôme, é macaco é hôme! Ao despois, o seu Lotéro, sabendo daquelas coisa, disse a sinhá Cunceição p’rá não fala mais cumigo!Ora, vêje que pirigo! Sá Cunceição, que era fina, cumo a gente diz prú cá, de minhã, todos os dia, imquanto os véio drumia, lá ia assuntá cumigo, imbáxo d’um biribá.Eu nunca vi coisa ansim:a muié, que era inducada,gostava mêmo de mim!Caisse as água do céo,ou fizesse o Só bom dia,certinho, toda a minhã,o biribá já me viatocaiando a Cunceição! Na minhã que ela não vinha, era que o véio babão e a rabujenta madrinha tinha acordado mais cedo.Ora, um dia eu tive medo! O coirão da marvadinha me catucou p’rá fugi!“Sá dona!” eu arrespundi:“váincê é moça inducada!“Eu sou um pobre gaitêro,“um tocadô de sanfona!“Isso é coisa munto feia“p’ra uma mocinha dizê!“Não fale nisso, sá dona!...“Óie, Sá dona, o Tinhoso“tá tentando vasmincê!” Inda eu táva supricando, e a muié me dava as costa, indo imbóra, arresmungando. *Passêmo duas sumana,sem tá junto... sem nos vê!Despois que a gente arengou,de minhã, naquela hora,eu passava munto longe,iscundido atrás das moitadas verde jaráuácíca,p’rá vê se via o diaboda mocinha tiririca! Tinha perdido a aligria!Nunca mais toquei n’um samba! E a minha gaita gimia, cumo a curuja avuando, quando a noite côme o dia!A tia Angérca, uma véiada casa de seu Lótéro,que cumigo se incontrou,me disse que o tá doutôfazia cêra cum ela!...Cum ela!... Sim!... Sim, sinhô!Senti nos bófe um calô!... O carcanhá me trocêu!... Eu juro a váíncê, eu juro, que, sem tocá cum estes dêdo, a minha gaita gemêu!Naquela noite eu andei!...Andei pulas mataria!...A sanfona não tocava!...Táva muda!... Não gimia!Eu apertava... afróxava!!...táva sem voz!... Só bufava! Quando se perde a vrégonha, abasta o amô querê, faz do hôme uma pamonha!Fui pedi a tia Angércap’rá dizê p’rá Cunceiçãoque eu táva isperando ela,ante do Só acordá,no outro dia, cumo sêmpe,imbáxo do biribá.Dito e feito. No outro dia,naquela hora marcada,eu isperava a marvada!A sanfona, pinduradan’um ramo, a se imbalançá,quando uviu ela falá,sem eu tocá cum estes dêdo,introu de novo a cantá! Pula arage balançada, no ramo, d’aqui p’ra lá, parecia inté, patrão, que a gaita era o coração do férmoso biribá!!!Eu entonce pregunteise ainda me tinha amô. Não disse nada!... Calou!Eu falei nesse inxirído,no moço... no... no doutô! Foi entonce que falou, dizendo que ela falava siturdia cum esse moço, prú via d’um má de rengo... e prú via d’uma dô.D’outra feita, foi prú viad’uma grande narvragíano miolo do coração! Mas porém já táva boa, despois que o doutô fisgou nos dois braço uma injerção.. (lá nela)... de fôia sêca, e simente de gervão.Despois, zangada, me disseque eu amava sem calô!!!Que eu tinha sido o prêmêro,o prêmêro que ela amou! Que tinha munto dinhêro p’rá nós vivê afórgado, sem se importá cum o Lótéro, nem cum o diabo do doutô.Entonce, apouzando o braçocá prú-riba do meu ômbo,sintí cumo uma friágenos grugumío do istômbo! Trimí, seu patrão, trimí! Mas porém, quando outra vez me catucou p’rá fugí, não sei cumo não murri!Ai, que moça tão marvada,mas porém... tão bunitinha!Despois, me disse no uvido:“Micuá, uma boquinha!...”Apois, juro a vasmincê!...Eu não sabia o sintidoda palavra... Pode crê!Quando ela me disse o que era,gritei: “Dona Cunceição!!!“Não quero sabe de nada!!!“Eu amo váincê, sá dona,“cum todo este coração,“que bate aqui neste peito!“Não tire paluxo, não!...“Não me farte cum o arrêspeito!” O sinhô Carácará, que já tinha alevantado, uvindo eu falá mais arto, como uma onça n’um sarto, garrou na minha gaitinha, que nem cachorro inraivado! Eu fiquei ajuêiádo, sem pude arrispirá, vendo que o hôme quiria a sanfôninha quebrá!!!Quando eu disse pró padrinhoque a sua linda afiadafoi e haverá de sé semprecá prú mim arrespeitada,cumo sempre arrespeitei, o raio da iscummungada me fez cum os dêdo... uma figa, que eu nem sei cumo fiquei!!Seu patrão, não digo nada!!!A muié táva ispritada!!! O véio tinha o insturmento alevantado nas mão, me óiando cumo o capêta, cum uns óio de sucuri!Foi quando, entonce, n’um grito,ela gritou: “Meu padrinho,“este hôme sem vrêgonha,“me achando sozinha aqui,“me pidíu uma boquinha,“me catucou p’ra fugi,“dizendo umas coisa feia,“que váincê nem faz indéa!” O hôme entonce, o mardito, cumo uma fera acuada, fisgou-me im riba do quengo a minha gaita adorada!A minha gaita, a sanfonaque eu não trocava prú nada!Quanto tempo, quantas hora,eu ali fiquei ansim! E, quando dei fé de mim, táva no meio do véio e d’uns cabra da Fazenda, que o diabo mandou chamá!Entonce levei no lombolevei tanta gurungumba,cumo se fosse um zabumba...tanta corda de crôá,que se eu vivesse cem ano,inda guardava siná!!!Correu prú todo o sertãoque o seu Quinca Micuátinha tirado paluxocum a dona!... a miúdamurzéla,afiada do Seu Lótéro!...A Sá dona Cunceição!Todo mundo preguntava:“Cumo é que esse Micuá,“um sanfonero de nome,“foi se inxirí cum uma moça,“que era noiva d’um doutô,“e afiada desse hôme?!” Tudo virou contra mim!Fugi de lá do sertão,da minha terra!... De lá!! Despois daquela muxinga, vim drúmindo pulos mato, im caminho da cidade, ispinhando de sôdade da minha pobre sanfona, que lá ficou dispenáda imbáxo do biribá!Ai, quantas noite, sozinho,nos mato da minha terra,gemendo na sanfôninha,e de barriga prô à,óiáva o céo e me riade vê cumo as istrelinhalá no céo táva a sambá! A vida é um samba, patrão! Apois, quem é que na vida samba mais? É o coração!Leva a cabeça assuntandotodo o dia, mas porém,de noite, vai discançá!Somentes o coração,ante da gente nacê,inté a gente morrê,leva a sambá... a sambá!!!O coração é fié!... A cabeça, ai, a cabeça é que é maléva e crué!Foi a cabeça, foi elaque me perdeu!... me impuiôu! Quantas vez o coração não chorou... e... arresmungou!Dêxei a Luiza, a Tudinha,a Inluminata, a Rosinha,a Craciúna, a Lulú,a Bastiana Sanhassú,a Sanda, a Felicidade,a Vitóca das Sôdade,a fia do Zé Chicão,a Chica do Zé da Serra,a cabôca mais bunitados mato da minha terra...prú móde dessa murzélaou dessa miúdamurzéla,dessa dona Cunceição!!!A Inluminata, a Rosinha,a Bastiana, a Tudinha,nenhuma sabia lê!Mas porém, p’rá quê? P’rá quê?!Só p’rá vregônha perdê?!P’rá jura farso e mintí?!P’rá cunvidá p’rá fugí?! P’rá té o discaramento de me querê dishonrá, pidindo um bêjo, que é coisa que a gente não deve dá, sem prêmêro arrecebê a santa benção de Deus, n’uma ingrêja, ao pé do artá?! Tudinha era uma muié inguinorante, sarvage!... Tudo o que váíncê quizé!!Mas porém, meu patrãozinho,aquilo é que era muié!Muié, que teve a corage,a corage, sim, sinhô,d’uma noite, lá n’um samba,no meio de toda a gente,tirá do pé a chinela,a chinela, Seu doutô,p’rá me castigá na cara,só prú via de eu tê dadop’rá uma cabôca uma frô! Isso, sim, é que é muié!... Isso, sim, é que é o amô!!A outra butou a rosanos cabelo, e, orguiósa,se pôs-se logo a sambá!Mas porém, aqui, na cara,ficou tômbém outra rosa,vremêia, grande e férmosa,a frô da dó de canela,do disispero do amô,o siná lá da chinela,que tômbém era uma frô! Óie, o ciúme é treidô! É o fio mais macriado que tem a Amizade e o Amô!Seus pae, o Amô e a Amizade,tem munta e munta vontadede vê seu fio inducado!O minino é discarado!!Mas porém, óie!!... é bom fio!Quando ele vê sua mãee seu pae amachucado, si da muié cá da Corte faz um bruto assarvajado, se faz d’um hôme outro bruto, crué, disprepositado, séje, como eu, um gaitêro, ou sêje um doutô fromádo, quanto mais um coração, um coração de cabôca, que não foi cirvilizado!?Patrão, agora, eu pregunto:o que era aquilo? O que era? Vasmincê vai me dizê que aquilo era estupideza da muié lá do sertão!... Que a muié tinha a fêrêza d’um urutu, d’uma fera! E vasmincê tem rézão!Era uma fera, firidano fundo do coração! Isto, sim, é que é muié que sabe amá, meu patrão!Vindo do amô, do ciúme,das mãos do amô, das mão dela,ante o siná da chinelana cara, cum um bofetão,que um bêjo, um bêjo de Judana boca da Inducação! A Tudinha não prendeu a batê língua, ispritada, cumo essa moça inducada, que tinha o tempo vadio!... Mas porém a Cunceição não sabia batê roupa, cumo a Tudinha, a cabôca, lavando à bêra do rio!!Eu ánte quiria séa pedra adonde lavavasua roupa a lavadêra,do que sê todos os livroque ensinava a Cunceiçãop’ra falá tanta porquêra! A muié mais sem vrêgonha é a Sinhora Inducação! Inducação!!? Que hirizia!Danada! Eu te discunjuro,im nome da Mãe de Deus,da Santa Virge Maria!Os mato, as árve, as choupana,os rio, os córgo, a boiada,as roça e mais as quêmada,o machado, a foice, a inxada,a lua, as noite istrelada,as viola e as magua choradano coração das tuada,o canto da passarada...não pércisa de ti, não!Inducaçãoü Prú piadade!Tu naceu cá na cidade!! Não vai mexê cum essa gente das terra do meu sertão.
Escrito por César Bernardo de Souza às 10h27
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